Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

INTERESSE PúBLICO > CRISE HÍDRICA

A imprensa se refresca e esvazia o senso crítico

Por Júlio Ottoboni em 20/01/2015 na edição 834

O ano de 2015 começou escaldante, numa continuidade do anterior, marcado como o mais quente do planeta desde 1880, quando a temperatura da Terra começou a ser registrada. A imprensa noticiou os boletins da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa) e da Nasa (Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço), ambas dos Estados Unidos, com a superficialidade de sempre. Imobilizada para as grandes discussões e a embotar a gravidade da questão.

A mídia ainda abortou, tal qual o tamanho de sua incompetência em assunto que foge da trivialidade, a parte mais relevante do comunicado das duas mais importantes agências climatológicas do mundo. Os anos serão cada vez mais quentes e essa é uma tendência contínua, um aquecimento de longo prazo do planeta, de acordo com a análise de medições de temperatura da superfície terrestre feita pelos cientistas do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, da Nasa.

Neste momento, melhor creditar isso à incompetência que a motivos escusos. O Brasil sofre diretamente os efeitos de uma mutação climática ainda desconhecida pela sociedade tecnológica moderna. Entretanto, temos como ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, se declara cético quanto ao aquecimento global. E reafirma a todo momento sua posição, estranhamente alinhada aos grupos que ele mesmo, comunista, definia como de extrema direita e a serviço do capitalismo selvagem.

Numa carta resposta ao dirigente do Instituto Socioambiental, Márcio Santilli, em 2010, o então deputado federal do PCdoB e paladino das mudanças no desastroso Código Florestal mostrou a cara que traz sob a máscara. E ainda protagonizou um momento único do comunismo dos trópicos, num bizarro parecer em que citou o “Livro dos Genesis”, do Antigo Testamento, e não Karl Marx para justificar suas posições.

Seu anacronismo medieval e a defesa dos interesses do empresariado pecuarista não só o elevaram ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação como ao pedestal de novo alinhado ao ultraconservadorismo, que abriga desde monarquistas até as alas ultraconservadoras da igreja católica. O Evangelho Segundo Aldo Rebelo contra a “doutrina de fé da teoria do aquecimento global”, como ele mesmo definiu, será escrito nos próximos quatro anos. Abaixo, um trecho do posicionamento de Rebelo, que praticamente cinco anos depois, continua inalterado.

“O cientificismo positivista que você opõe à minha devoção ao materialismo dialético como uma ciência da natureza não terá o condão de me converter à doutrina de fé que é a teoria do aquecimento global, ela sim incompatível com o conhecimento contemporâneo. Ciência não é oráculo. De verdade, não há comprovação científica das projeções do aquecimento global, e muito menos de que ele estaria ocorrendo por ação do homem e não por causa de fenômenos da natureza. Trata-se de uma formulação baseada em simulações de computador” (íntegra aqui).

Necessidade evolutiva

Desanimador, não. Afrontador. O ministro retomou seu discurso satanizando a ciência e seus seguidores, causando pânico em diversos estudiosos brasileiros que pressentem que seus anos de dedicação à pesquisa deverão sofrer a censura e falta de financiamento por parte da versão brasileira do inquisidor espanhol Tomás de Torquemada. Novamente a imprensa não deu voz aos reprimidos pelo Estado. Ninguém buscou os cientistas. Mesmo depois de o pesquisador Antonio Donato Nobre, do Centro de Estudos Terrestres, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ter apresentado em fins de outubro último o documento “O Futuro Climático da Amazônia”, que pinta um quadro estarrecedor sobre as consequências dos avanços sobre a floresta, principalmente do desmatamento e das atividades agropecuárias na região.

Nobre ganhou da imprensa um certo espaço. Alguns veículos até buscaram se aprofundar no assunto, embora entre os caciques do jornalismo científico haja os que torceram o nariz e definiram o trabalho como compreendido por ter sido emocional e um tanto generalista. Apesar de o pesquisador ter alertado em todas as latitudes e longitudes que falaria de agora em diante para o público, não mais aos seus pares ou mesmo políticos e jornalistas. Cansou-se de gritar ao vento.

Raposa do meio político, acostumado as grandes manobras, Rebelo viu a oportunidade não só de reforçar seus dogmas, mas também de desviar a atenção sobre a nomeação da ministra da Agricultura e “rainha da motosserra”, a senadora por Tocantins, Kátia Abreu. O recém-anunciado ministro da Ciência desancou o aquecimento global e os efeitos de desflorestamento amazônico em meio a maior crise hídrica do Sudeste, parte do Sul e do Centro-Oeste do país. Localidades essas que concentram mais de 70% do PIB nacional e têm a maior aglomerado da América Latina de cientistas – seja de entidades governamentais, universidades e órgãos independentes – ligados ao tema das mudanças climáticas.

A mídia até tentou morder os calcanhares do ministro, mas com resultados de um cão banguela. Não teve dentes para aprofundar o abocanho. Falta informação, vontade e comprometimento com o assunto. Acostumada a pegar o passo na frente, o darwinismo atuou nos seres midiáticos e transformou o jornalismo em uma boca desdentada, de acordo com sua necessidade evolutiva. O jornalismo não morde, apenas lambe e, quando ameaçado, finge rosnar como um animal feroz.

Cães de guarda

O pior é ver que a crise hídrica, o desmatamento, o calor escaldante e a falta de chuvas se transformam em lugares-comuns nas pautas mergulhadas numa visão imbecializada do cotidiano, no qual uma questão de pode destruir a vida do planeta perde em importância para assuntos menores. Como sempre, tudo vai pelo ralo da estupidez. No Brasil, falta de chuva e Sol calcinante é prenúncio de praia e de tempo bom. Nunca de extremo climático. Basta agora os repórteres do tempo explicarem quais os parâmetros que usam para qualificar o quadro meteorológico para seus ouvintes, telespectadores e leitores.

A publicação Scientific American mostra que os números alcançados pelos termômetros no ano passado tornaria 2014 “o 38º ano consecutivo com uma temperatura global anormalmente elevada”, com secas registradas em partes da África do Sul, China e Brasil. Nos Estados Unidos, os estados da Califórnia, Nevada e Texas passaram por uma estiagem excepcional, recebendo apenas 40% da chuva normalmente esperada. A Índia teve 12% menos chuva que a média durante sua temporada de monções. Déficits de chuva também foram registrados na Nova Zelândia e na Europa Ocidental.

Mas Aldo Rebelo não acredita nisto. Aquecimento global é “doutrina de fé”, provavelmente uma seita formada por cientistas estúpidos com suas linhas de pesquisas questionáveis. Rebelo não quer apenas sua estátua em bronze no meio da Amazônia devastada, quer criar o seu próprio muro de Berlim, alicerçado na alienação e discursos dúbios. Contará com a colaboração da desinformação generalizada, da milícia instalada nas redes sociais e nas redações de jornais, e na falsa sensação de transitoriedade do problema. Ao Estado brasileiro convém manter o sistema em seu funcionamento pleno, mesmo que ele seja criminoso, autofágico e caduco.

A lógica do sistema agora é da desinformação, da coação oficial e da perseguição. A mesma prática adotada pela ditadura stalinista e pelo ex-governador do Mato Grosso e senador, o megaempresário Blairo Maggi, ligado ao governo federal, que buscou coagir os centros de pesquisa, como o Inpe, ao ter apontadas as atrocidades ambientais que ocorriam em seu estado.

A zona de conforto do poder cria cães de guarda, esses sim com dentição afiada e prontos para o ataque sob qualquer ameaça. E que têm fiéis seguidores por todas as partes.

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Júlio Ottoboni é jornalista e pós-graduado em Jornalismo Científico

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