Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

INTERESSE PúBLICO > NO ÉTER

Aos 78 anos, a Rádio Nacional agoniza

Por Roberta Pennafort em 24/03/2015 na edição 843
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 20/3/2015; título original “Aos 78 anos, a Rádio Nacional agoniza com problemas de infraestrutura”, intertítulo do OI

Funcionários da emissora, símbolo da era radiofônica no País, trabalham sem ar condicionado nem água potável no prédio

Principal veículo de comunicação do Brasil na década de 1940, que deu voz aos maiores artistas da época e é o símbolo máximo da chamada era de ouro do rádio no País, a Rádio Nacional agoniza. Funciona há dois anos em instalações improvisadas no prédio da TV Brasil – ambas pertencem à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) –, no qual, segundo relatos de funcionários, faltam condições mínimas de trabalho, como ar condicionado e água para beber. Por cinco dias, durante o carnaval, pela primeira vez desde a fundação, em 1936, ficou fora do ar.

Os problemas já foram informados aos sindicatos dos jornalistas e dos radialistas, ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério do Trabalho. Todas as entidades vêm pressionando a EBC por providências. Desesperados, os funcionários têm pedido dispensa médica porque com frequência passam mal. Já houve casos em que a programação ao vivo, de noticiários e programas de variedades, teve de ser substituída por sequências de músicas.

O ar condicionado vem irregular desde outubro do ano passado. Em janeiro, no auge do verão carioca, pifou de vez. A temperatura no estúdio, de paredes vedadas, por causa das necessidades acústicas, chegou a 35 graus (o recomendado é que a temperatura fique entre 20 e 23 graus), contou um jornalista. Ele não se identifica, por já se sentir perseguido.

“É uma tragédia anunciada, todo mundo sabia que a transferência provisória das rádios Nacional e MEC para o prédio da TV Brasil ia dar errado. O que vivemos vai contra tudo o que aprendemos e tudo o que vemos ser feito por outras emissoras estatais, como a BBC (da Inglaterra) e a Deutsche Welle (da Alemanha)”, ele lamentou.

“Caráter emergencial”

A agonia não é só da Nacional, mas também da TV Brasil, que “hospeda” a rádio na Avenida Gomes Freire. Lá, a mesa de corte, essencial para se colocar a programação da televisão no ar e avaliada, conforme os funcionários, em US$ 80 mil (R$ 256 mil), sucumbiu ao calor.

“A gestão é muito amadora. O noticiário do meio-dia da TV Brasil passou a ser feito em Brasília, com a equipe sendo deslocada para lá, porque no Rio não há condições. Alguns funcionários compraram ventiladores com o próprio dinheiro”, disse um deles. O servidor contou também que os trabalhadores não-concursados não receberam salário este mês, e os extintores de incêndio estão fora do prazo de validade.

A Nacional saiu de seu prédio histórico, na Praça Mauá, em 2012. Em mau estado, as instalações no edifício A Noite, primeiro arranha-céu da América Latina, com 22 andares, inaugurado em 1929, foram interditadas. O auditório – onde eram realizados os programas durante o auge do rádio como meio de comunicação de massas no Brasil, com todos os artistas mais importantes da música brasileira, como Emilinha Borba, Marlene, as irmãs Batista, Dalva de Oliveira, Francisco Alves e Cauby Peixoto – estava em péssimo estado. Para que a rádio volte para lá, seriam necessárias obras de alto custo.

“É um momento triste, e reflete muito a maneira institucional com a qual se lida, ou melhor, não se lida com memória no Brasil”, avalia a jornalista Sonia Virginia Moreira. Ela pesquisou a história da Rádio Nacional nos anos 1980, para escrever o livro Rádio Nacional, o Brasil em Sintonia (Zahar), com o radialista Luiz Carlos Saroldi.

“Nos anos 1940, era o lugar para se estar. O Repórter Esso foi pioneiro para o radiojornalismo. As radionovelas criaram uma linguagem nacional. A rádio tinha várias orquestras, e seus artistas eram as maiores celebridades do País. Tudo isso era possível porque a rádio recebia verbas do Estado e tinha anunciantes”, diz Sonia.

A jornalista lembrou que a perda de relevância começou nos anos 1960, com a popularização da televisão. A decadência se agravou com o advento da EBC, em 2007. “Sempre foi uma emissora peculiar, e, ao ficar sob o guarda-chuva da EBC, perdeu suas características.”

A EBC negou que haja atraso de salário. Informou que o problema no ar condicionado está sendo sanado. “Além da contratação em caráter emergencial da empresa de manutenção em sistema de refrigeração, outras melhorias nos prédios da EBC no Rio estão sendo tratadas com prioridade pela direção da empresa”, afirmou, em nota.

A EBC atribuiu a saída do ar durante o carnaval a um temporal que atingiu a torre de transmissão de suas rádios. E informa que o prédio da Praça Mauá, que pertence à União, está fechado para obras.

De Getúlio ao governo Dilma

>> 1936 – Inauguração – Nasce empresa privada e é instalada no primeiro arranha-céu da América Latina

>> 1937 – Estado Novo – Getúlio estatiza a rádio e faz dela veículo oficial de seu regime ditatorial

>> 1940 – Pioneirismo – Primeira radionovela do País, Em Busca da Felicidade. A década áurea da rádio. Ser artista da Nacional é símbolo máximo de glamour

>> 1941 – Radiojornalismo – Entra no ar o Repórter Esso, que viria a ser o mais importante noticiário do Brasil

>> Anos 1960 – Decadência – A TV toma o lugar do rádio na preferência das famílias brasileiras

>> 2012 – Transferência – Edifício A Noite é interditado e a Nacional é transferida para o prédio da EBC improvisadamente

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