Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

INTERESSE PúBLICO > JORNAL NACIONAL

A brava gente brasileira

Por Larissa Grau em 31/07/2007 na edição 444

Os meios de comunicação de massa constroem o nosso sentido de realidade. Não é incorreto afirmar que cada vez mais o que sabemos da sociedade e do mundo é mediado por eles. No Brasil, parte significativa da população não tem recursos financeiros para a compra regular – ou mesmo esporádica – de jornais e revistas e tampouco tem acesso à rede mundial de computadores. Para o acesso à informação sobra a TV e, conseqüentemente, o Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão, um dos campeões de audiência da emissora, que é antes da novela e de graça. Por isso, é estratégico nesse processo de conhecimento do mundo e de como o Brasil percebe o próprio Brasil.

Para o Jornal Nacional, aparentemente o Brasil se divide em dois: Estado e povo. De um lado, a classe política e as instituições do Estado, que não são confiáveis. Um Congresso que rouba e trapaceia; um Judiciário que vende sentenças e favores à elite privilegiada; um Executivo que desvia verbas da saúde e da educação para os bolsos privados de pessoas ligadas ao poder – que transportam o dinheiro público em malas para todos os cantos de país e de paraísos fiscais.

Em contrapartida, e do outro lado da moeda, o povo brasileiro, que é tudo de bom. Essa entidade é responsável pelo Brasil Bonito. Devolve as malas de dinheiro encontradas em aeroportos, rodoviárias e na rua para os seus donos legítimos. Sorri ante toda a desventura. É uma gente hospitaleira, alegre e festiva. Trabalhadora, a despeito de todas as falcatruas e desonestidades de nossas autoridades, que vivem acima de todos nós e cujas ações são à revelia de nossa boa vontade.

Os donos do poder

O Brasil do Jornal Nacional é um misto de três correntes de interpretações sobre nosso país. É uma mistura dos pensamentos sociais de um Estado demiurgo da sociedade, do patriarcalismo e de uma sociedade realizada por meio da representação de alguns tipos ideais.

No primeiro caso, temos um Estado que é desconectado da sociedade e que dela independe. Esta parece um subproduto mal acabado daquele e que, ingênua, desorganizada e débil, fica à mercê de atitudes autoritárias. No segundo caso, é uma nação regida por interesses oriundos de laços de parentescos, apadrinhamentos e interesses pessoais. Uma interpretação que não esquece, também, a informalidade inocente de um povo multiétnico.

Essas duas primeiras teses complementam-se e servem-se reciprocamente, como afirmaria o sociólogo Otávio Ianni. Se o povo é inocente, então necessita de um Estado que o tutele e oriente e é aí que se justifica a representação de um Estado onisciente, ubíquo e oligárquico e que não precisa atender aos anseios de sua sociedade civil, a qual, por sua vez, se guia por sentimentos passionais e subjetivos.

E é nesse ponto que entra a terceira interpretação adotada pelo jornal mais assistido pelos brasileiros. Somos todos um, e não vários, e todos um pouco daquele ‘homem cordial’ descrito por Sérgio Buarque de Hollanda. Temos a nossa cultura e ela é a melhor de todas. Nossa história de desenvolve por meio de símbolos, figuras, valores e ideais. Somos movidos por nossas emoções. Calorosos ao extremo. Amamos nossa terra e nosso sentimento é o do mais puro patriotismo.

Foi isso que demonstramos, por exemplo, na tela da Globo durante a cobertura do Pan 2007, onde torcemos como nunca se torceu nesse mundo. A festa foi a apoteose da alegria. É verdade que no meio disso tudo teve o acidente da TAM, mas a tragédia que tornou a nação mais triste no meio do turbilhão de alegria foi culpa daquela classe em que não devemos confiar e dos donos do poder. Assim como também é dessa classe a responsabilidade por todos os escândalos políticos que pululam em nossas casas por meio dos aparelhos de televisão e que nos enojam profundamente.

O povo brasileiro, que tanto orgulho tem de sua terra e de sua gente, não tem do que se envergonhar apesar de seus dirigentes, que merecem nossa vaia retumbante. Somos bons, apesar de tudo, da edição do Jornal Nacional.

É cruel nos representar assim. Para os milhões de brasileiros que têm o desenvolvimento de sua de uma capacidade crítica dificultado pela frágil estrutura educacional brasileira disponibilizada, ainda temos o ônus de sermos tratados como uma massa indistinta pelo principal telejornal da maior emissora de nosso país. Não somos desconectados de nossos representantes institucionais. Na maioria das vezes, os colocamos lá por meio de nosso voto. O Estado democrático é parte constituinte do povo.

Representações fragmentadas

A torcida alegre e vibrante do Jornal Nacional – e que foi ‘um espetáculo à parte’ – é a mesma que vaiou os atletas estrangeiros e torceu para que falhassem em suas performances. Um de nossos maiores ídolos do esporte, de quase 50 anos de idade e contratado pela emissora em questão, foi aquele que gritou em um estádio para que garotinhas de 13, 14 anos caíssem de seus aparelhos de ginástica olímpica. Para a locução global e emocionada, tal vibração foi um exemplo de amor à pátria. Esse Brasil, só a Globo não revelou. Como não tem revelado que nossos dirigentes somos nós e, quem sabe, não seríamos corruptos se estivéssemos ‘lá’.

Se alguns de nós conquistamos o pão de cada dia com o fruto de nosso suor, somos também uma nação de ‘espertos’, dentro da representação dos tipos ideais. Apesar de sermos um espetáculo à parte, continuamos a corromper o guarda de trânsito que nos multa e a querer prisões melhores, ou mesmo o perdão, para os nossos filhos que fazem faculdade, mesmo que eles tenham espancado uma doméstica na rua. Arrastamos nossas crianças até a morte pelas ruas e tampouco nos incomodamos com a morte delas nos morros das cidades. Jogamos lixo nas ruas pela janela de nossos bons carros e o público, desconectado de nós por se originar do Estado, pode ser depredado. Se o Estado rouba, por que não eu? E somos também aqueles que acham bacana sonegar o Imposto de Renda, justificando que o Estado não nos dá nada em troca.

Enquanto acreditarmos que esse Brasil é dividido em dois, que os atos de nossas autoridades não contêm o nosso DNA, muito pouco poderemos efetivamente realizar. Nessa retro-alimentação de um estado de ignorância, o Jornal Nacional nos representa, quando lhe convém o fervor ufanista, como uma única e sólida entidade estereotipada.

Dessa forma, não são reduzidas somente as nossas múltiplas e fragmentadas representações, mas, junto com elas, as nossas possibilidades de uma ação cidadã que se realizam somente por meio de nosso Estado.

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Estudante do último período de jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/08/2007 Antonio Antunes Antunes

    Simplesmente formidavel esta materia, por favor me envie sempre que for possivel este tipo de materias. isto me da orgulo de ser Brasileiro. Nem tudo está perdido, é preciso acreditar que existem próficionais de comunicação de massa comprometidos com a verdade e realidade do nosso pais e do nosso povo. quem sabe um dia todas as pessoas poderam ter acesso a estas verdades, só assim se constroe a história do nosso pais, e influenciando para o bem, o que corroe os válores e pricipios da humanidade.

  2. Comentou em 03/08/2007 edda stauber

    o jornal hoje desta sexta tirou o acidente da pauta … são 6 da tarde agora, e não posso esperar para saber o que o JN vai fazer … foi um pedido de desculpas ou o que querem dizer com isso ?

  3. Comentou em 03/08/2007 Henry Fulfaro

    O jornalismo que temos não se limita a informar ou eventualmente investigar, mas em tentar fazer a cabeça do povo ou, então, a fazer um jornalismo sob encomenda para a chamada “elite”. Pegue-se, por exemplo, a revista Veja dos anos 60 e parte dos anos 70 (ou até mesmo o Estadão e a Folha do mesmo período), quando era leitura obrigatória de toda pessoa que, se não era de esquerda, era ao menos politizada o suficiente para repudiar a ditadura militar que se instalara no país. Finda a ditadura, rapidamente a Veja se aburguesou, ou melhor, se adaptou a um público mais elitista, passando a escrever não mais para um contingente politizado, mas para a classe média que tinha dinheiro para comprar ou “assinar” a revista, público esse mais interessado em variedades e numa política conservadora do que em qualquer outra coisa. No primeiro caso (jornais televisivos de modo geral), tentam fazer a cabeça do povo. No segundo, fazem jornalismo de conveniência, sob encomenda; se limitam a escrever os que os seus leitores querem ler.

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