Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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INTERESSE PúBLICO >

A credibilidade em primeiro lugar

Por Jorge Fernando dos Santos em 07/07/2009 na edição 545

O curso de Jornalismo nos ensina que o primeiro compromisso dos jornais deve ser com os leitores. Esse é um dos grandes ensinamentos que a escola nos dá. No entanto, na prática diária da profissão, aprendemos a duras penas que a coisa nem sempre funciona desse jeito. Isto é, o primeiro compromisso dos jornais muitas vezes é com o anunciante, com o ‘amigo da casa’, com aquele que exerce o poder.

Agora que o diploma de jornalismo deixa de ser necessário para o exercício da profissão, quem dirá aos novos profissionais que seu compromisso deve ser com os leitores? Quem vai ensinar aos ‘focas’ noções de ética e dizer-lhes que a notícia não tem um nem dois, mas vários lados a serem ouvidos? Se depender da maioria dos patrões e de seus ‘homens de confiança’, certamente ficará claro que o compromisso do repórter é cumprir ordens e escrever o que lhes mandam.

O jornalismo é um ramo de negócio como outro qualquer. Precisa ter receita para custear as despesas. Receita essa obtida por meio da publicação de anúncios e de matérias pagas. Até aí, não há nada de errado ou imoral no negócio. O que não pode é sonegar informações aos leitores para agradar a quem quer que seja. Lamentavelmente, esse tipo de comportamento não é raro no Brasil. Com isso, políticos e empresários poderosos sentem-se blindados contra escândalos e denúncias. O tráfico de influência na mídia favorece esse tipo de gente. Isso quando não são eles os próprios donos dos veículos de informação.

Realidade e fantasia

O que muitos empresários do ramo jornalístico não percebem é que pouco a pouco essa prática prejudica a imagem do veículo diante da opinião pública. No século 21, os leitores estão cada vez mais bem informados, pois ouvem rádio, assistem TV e estão conectados à internet.

O jornal deixou de ser a única fonte de informação ao alcance do cidadão. Pelo contrário, tornou-se uma fonte secundária, quase sem importância no cenário das novas mídias, principalmente quando tenta competir com elas no quesito velocidade. Por isso não é mais possível enganar a ninguém. Sem credibilidade, os leitores fogem, o jornal não vende e os anunciantes desaparecem.

O escritor inglês George Orwell, autor de clássicos como 1984 e A Revolução dos Bichos, considerava que jornalismo é a arte de noticiar alguma coisa contra a vontade de alguém. Todo o resto seria mera publicidade. Na era das celebridades, o que menos se lê são notícias. Mesmo um escândalo bem forjado serve ao interesse daqueles que querem se promover a qualquer custo. Com isso, mentiras e verdades se confundem sob o manto da notícia enquanto o leitor se sente confuso diante da intriga. A vida e a morte de Michael Jackson é um bom exemplo disso. Realidade e fantasia se misturam no mundo dos mitos e é praticamente impossível separar uma coisa da outra.

Mentira tem pernas curtas

Pressionados pela concorrência dos meios eletrônicos, os jornais diários foram deixando de praticar a investigação e a análise da notícia. A maioria repete informações à exaustão e apressadamente, sem chegar a nenhuma conclusão sobre os fatos. Com isso, perde-se o crédito junto à opinião pública. Basta um veículo denunciar um suposto escândalo para que os concorrentes repliquem a notícia sem maiores preocupações com a verdade. Não há diferencial no material divulgado. No final das contas, os leitores se sentem perdidos diante da espetacularização da notícia.

Em outras palavras, a falta de ética no exercício do jornalismo certamente é um dos fatores que mais prejudicam os jornais. A notícia mal apurada e o fato noticiado a serviço de terceiros ajudam a minar a credibilidade desses veículos. Consequentemente, na medida em que as pesquisas de leitura revelam a queda nas vendas, os anunciantes se afastam e lá se vão os recursos que dão sustentação ao negócio.

Claro que uma publicação pode apoiar uma empresa, um partido político ou determinado governante. O correto, no entanto, seria esclarecer a decisão nos editoriais, explicando o porquê da escolha e apontando as qualidades do provável ‘amigo da casa’. No entanto, essa escolha jamais deveria prejudicar o noticiário. No mundo das novas mídias, a mentira tem pernas curtas. A notícia tem vários meios de ser divulgada e supor que a autocensura não será desmascarada é no mínimo uma ilusão, uma burrice sem tamanho que compromete a credibilidade e a própria sobrevivência da empresa jornalística.

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Escritor e jornalista, Belo Horizonte, MG

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