Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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A experiência latino-americana em TV digital

Por Cosette Castro em 19/04/2011 na edição 638


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a íntegra do estudo ‘A Produção de Conteúdos Digitais Interativos como
Estratégia para o Desenvolvimento – um breve estudo sobre a experiência
latino-americana em TV digital’


Por onde passa a inclusão social em tempos de mídias digitais e da possível
produção de conteúdos interativos como uma emergente indústria no Brasil e na
Região? A partir dessa pergunta e por acreditar que uma das respostas possíveis
é a construção de centros de produção (também conhecidos como pólos ou
clusters), pesquisa e formação para comunicação digital tendo como foco
os conteúdos interativos, passei a desenvolver o presente estudo de
pós-doutorado na Cátedra da Unesco/Umesp para a Comunicação e o Desenvolvimento.
Os conteúdos digitais são compreendidos neste trabalho como todo material de
áudio, imagem, texto ou dados oferecidos ou produzidos pelas audiências através
de diferentes plataformas tecnológicas.


A escolha do tema teve como base os anos de trabalho em Comunicação Digital e
as pesquisas que venho desenvolvendo sobre o tema e que apareceram publicamente
no livro Mídias Digitais (Ed. Paulinas, 2005). Entre elas é possível
citar a pesquisa sobre a Cartografia Audiovisual Brasileira (2006), que mapeou
os tipos de programas estavam sendo desenvolvidos para TV aberta e por
assinatura em termos de entretenimento e ofereceu subsídios ao governo para a
escolha do modelo nipo-brasileiro de televisão digital. Também é possível citar
a pesquisa sobre a Indústria de Conteúdos na América Latina e Caribe (2008),
realizado para a CEPAL em 11 países da Região, que mostrou a preparação dos
países estudados para a passagem do mundo analógico para o digital, assim como o
livro Comunicação Digital (Ed. Paulinas, 2008). Para além da área
acadêmica, desde 2008 represento o Brasil como coordenadora do Grupo de Trabalho
sobre Conteúdos Digitais do Plano eLAC 2015 para a Sociedade da Informação e do
Conhecimento na América Latina e Caribe, que conta com a representação de 16 dos
28 países participantes do Plano estratégico.


Análise da inovação


O presente estudo de pós-doutorado tomou como base a passagem do mundo
analógico para o digital, mostrando que a sociedade ocidental se encontra no
estágio da ponte, no meio do caminho, dividida entre aqueles que ainda não estão
incluídos digitalmente e aqueles que já utilizam as tecnologias digitais. Mas a
brecha digital se multiplica em diferentes estágios e vai muito além do plano
econômico, educativo ou cultural. Entre os incluídos digitais, estão os nativos
e os imigrantes, estes últimos, em sua maioria são adultos com mentalidade
analógica que precisam se adaptar rapidamente às plataformas tecnológicas e a
convergência de mídias. Além da brecha geracional, que separa drasticamente o
mundo jovem do mundo adulto, existe uma brecha que, apesar das possibilidades
financeiras e culturais, separa uma boa parte do mundo adulto e as pessoas de
terceira idade: a brecha tecnológica.


Os paradoxos e contradições da passagem do mundo analógico para o digital, a
complexidade de apropriação e uso de novas tecnologias, a partir do exemplo da
televisão digital realidade dá o tom do debate que aparece no decorrer deste
estudo: a necessidade de pensar o mundo de forma mais abrangente e complexa para
dar conta das mudanças que a sociedade ocidental está passando. Isso inclui
ruptura de paradigmas no campo da comunicação, onde outrora as noções de
indústria cultural e, mais recentemente, de indústrias criativas, eram temas
inquestionáveis.


No presente trabalho, re-discuto, ainda que rapidamente, a noção de Nova
Ordem Tecnológica (Barbosa Filho e Castro, 2005, 2008, 2009), assim como adoto a
transdisciplinaridade, a partir de Edgar Morin e Jesus Martín-Barbero como
noções fundamentais para realizar o diálogo entre as ciências e compreender as
transformações que o campo da Comunicação vem passando. A questão tecnológica
está presente em todos os capítulos, assim como as diferentes plataformas: TV
digital (TVD), rádio e cinema digital, celulares, videojogos em rede,
computadores mediados por internet e a convergência de mídias. No entanto, a
tecnologia é apenas um dos temas transversais deste estudo e toma importância na
medida que colabora para novas práticas sociais, culturais, educativas,
afetivas, trabalhistas e de modelo de negócios.


A proposta do trabalho dá espaço para observar e analisar a emergente
indústria de conteúdos digitais na região, com ênfase na televisão digital
interativa, e no desenvolvimento de pólos, clusters e/ou centros de produção,
pesquisa e formação para conteúdos digitais interativos no Brasil e países
vizinhos. Neste trabalho, a noção de plataformas tecnológicas assume uma nova
dimensão, a partir da diferenciação entre plataformas tangíveis e plataformas
intangíveis. As plataformas tangíveis são os equipamentos onde se concretizam e
circulam os conteúdos digitais. Exemplos de plataformas são tangíveis: a TV
digital, rádio e cinema digital, videogames em rede, celulares ou computadores
mediados por internet. Como plataforma intangível está a internet, onde circulam
e se multiplicam os conteúdos digitais sem os limites da matéria e da noção de
linearidade.


A inclusão social e digital pode ser considerada como o ponto de chegada do
presente estudo que toma como exemplo a emergente indústria de conteúdos
digitais, mais especificamente o uso da TV digital interativa como possível
espaço de inovação e desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, inovação é
compreendida em um sentido mais amplo indo além do viés economicista e
produtivo. Ela inclui projetos envolvendo empresas, governo e academia, mas
também projetos com as redes sociais, associações, cooperativas e organizações
não-governamentais (ONGs). A inovação é analisada como a implementação de um
produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo ou
um novo método de marketing, ou ainda um novo método organizacional nas práticas
de negócios e na organização do local de trabalho que poderá ser desenvolvido a
partir de um mesmo espaço físico com parcerias em diferentes regiões.


Contribuições diversas


No decorrer dos capítulos são mostradas as diferenças e proximidades entre o
modelo nipo-brasileiro de televisão digital e outras plataformas tecnológicas,
entre elas o uso da televisão através do computador mediado por internet (IPTV)
ou nos celulares. Também é debatida a diferença entre TV analógica e TV digital,
fundamentando os motivos da escolha desta plataforma como área de estudo, que
considero um novo espaço para pensar inovação, incluindo a Comunicação, a
Educação e a Cultura e que possibilita o acesso, uso e apropriação por
diferentes atores sociais.


A escolha da televisão digital como objeto de estudo para área de
concentração dos centros de produção de conteúdos digitais não ocorre por acaso.
Leva em consideração dois fatores. O primeiro são os dados estatísticos que
mostram que vivemos em uma sociedade audiovisual e que a televisão é o aparelho
que está mais presente na casa dos brasileiros (98% dos lares, em zonas urbanas)
e dos latino-americanos.


O segundo fator diz respeito ao incentivo que os governos da Região vêm dando
a essa nova tecnologia. No caso brasileiro, o governo Lula ainda no primeiro
mandato criou 22 consórcios técnicos envolvendo 106 universidades públicas e
privadas brasileiras, institutos de pesquisa e empresas privadas para
desenvolver no país um modelo próprio de TVD. No projeto, foram aplicados cerca
de R$ 70 milhões do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das
Telecomunicações (Funtel) para a criação de inovações brasileiras, incluindo o
aperfeiçoamento de equipamentos e tecnologias e de softwares nacionais,
que culminou na criação do middleware Ginga que permite a interatividade,
a mobilidade e a interoperalibilidade na TV digital terrestre, de caráter
aberto.


Apesar do importante valor dedicado a área tecnológica e da valorização da
expertise nacional, contraditoriamente quase nada foi aplicado até o momento no
desenvolvimento de conteúdos digitais interativos para o novo modelo de
televisão. Os valores aplicados, seja na televisão pública ou voltados para os
conteúdos educativos, seguem majoritariamente uma visão analógica de construção
de roteiros, sem levar em conta as possibilidades interativas, o que permite
melhorar apenas a imagem e o som dos conteúdos desenvolvidos.


Depois do estudo da passagem do mundo analógico para o digital, da escolha da
televisão digital interativa em canal aberto como espaço de inclusão social, do
debate sobre inovação e desenvolvimento sustentável a partir do estímulo a
emergente indústria de conteúdos digitais, passo ao debate de como estão se
organizando alguns países latino-americanos sobre o tema. Foram escolhidos como
objeto de estudo e comparação cinco países, além do Brasil. São eles: Argentina,
Colômbia, Peru, Uruguai e Venezuela, sendo que a Colômbia é o único Estado da
América do Sul que não adotou o modelo nipo-brasileiro de televisão digital.


Este estudo foi dividido em cinco capítulos, assim considerados:


Capítulo 01 – A Passagem do Mundo Analógico para o Digital


Capítulo 02 – Da Separação dos Saberes à Televisão Digital


Capítulo 03 – A TV Digital e o Caso Nipo-Brasileiro de TVDi


Capítulo 04 – Inovação e Desenvolvimento


Capítulo 05 – Primeiros Passos para Desenvolver uma Indústria de Conteúdos
Digitais


No final do trabalho foi incluído um pequeno glossário que, espero, ajude aos
leitores a compreenderem os termos técnicos utilizados sobre Comunicação Digital
e mais especificamente sobre televisão digital, inovação e tecnologia. Esse
glossário se baseia nos estudos apresentados no livro Comunicação Digital
(2008) e nas contribuições feitas a Enciclopédia Intercom de Comunicação
em 2010. Ao encerrar esta apresentação aproveito para agradecer aos colegas
pesquisadores e representantes de governo dos países estudados que colaboraram
enviando informações, links para páginas web, apresentações oficiais em power
point
e relatórios, que ajudaram a formatar o capítulo 05 deste trabalho.


Meu especial agradecimento a Ana Bierzebe e Luis Valle, da Argentina,
Victoria Kairuz y Elias Said, da Colômbia, Gerardo Arias, do Peru, Saadia
Sanchez, Virginia Guillen, da Venezuela e a equipe de AGESIC, no Uruguai. Também
agradeço a leitura atenta dos colegas José Marques de Melo, Eduardo Vizer, André
Barbosa Filho e Carlos Cristo. Boa leitura! [Verão de 2011]

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