Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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A fórmula para salvar o capital das empresas de TV

Por Cláudia Figueiredo Modesto em 07/04/2009 na edição 532

Nem bem acabou um reality show2 e outro canal de televisão já anuncia a formação de mais um. A Record está apostando no programa Fazenda das Celebridades, que deve estrear em junho com a missão de alavancar a audiência para aumentar o faturamento do departamento comercial da emissora. O escolhido para assumir o comando da atração é o jornalista Britto Jr., ex-global que atualmente está no papel de apresentador do matutino Hoje em Dia e tem contrato com a casa até 2014.


O jornalista confirmou que, após três anos e meio, deixará o Hoje em Dia para se dedicar à apresentação da nova atração e à observação da rotina de 14 celebridades, todas confinadas em uma fazenda do interior de São Paulo. Britto declarou em entrevista que não sente saudade da Globo e que não assiste ao Big Brother3 Brasil. O jornalista disse ainda que não tem medo de ser comparado a Pedro Bial, que comanda o reality show global.


O reality show da Record será um programa diário, com 12 ou 14 personalidades, onde o apresentador vai interagir com os participantes e com o público e deve durar cerca de três meses. Resta saber se o formato também será o mesmo utilizado pela TV Globo, o de apresentar como a vida real, contestada por vários autores. Para Curvello (2002), existe uma construção da ficção como se fosse a própria realidade. Criam-se efeitos de realidade.


Baixo custo e excelente retorno


Pode-se afirmar essa ficcionalização devido: (1) ao fato de as pessoas saberem da presença das câmeras e da utilização indiscriminada das imagens; isso faz com que não ajam naturalmente, tornam-se personagens de si próprias, ou como personagens de um grande teatro; (2) à necessidade constante de disputa pela simpatia do público, de forma a permanecer no programa através do voto, visando ao prêmio maior; (3) à questão contraditória da concorrência e das dificuldades de relacionamento entre os participantes e a necessidade de conquistar, ao mesmo tempo, sua simpatia; (4) ao fato de os participantes terem a obrigação de falar sobre suas experiências na casa em um lugar chamado ‘confessionário’, no mínimo uma vez por dia. Devido a tudo isso, a construção simbólica apresentada pelo programa não só não é expressão da realidade como dela se distingue (CURVELLO, 2002, p. 3).


No Brasil, pode-se dizer que a ‘onda’ de reality shows começou, basicamente, com o programa No Limite, baseado em Survivor4, em 2000. Em 2001, foi criado o programa Casa dos Artistas, fenômeno notável de audiência do SBT. Em 2002, surgiu o maior expoente deste gênero no Brasil, o programa Big Brother Brasil.


O Big Brother Brasil foi criado em 1999 por John de Mol5, um magnata bilionário da mídia holandesa. Em 2005, a revista Forbes6 o nomeou entre as 500 pessoas mais ricas do mundo. O programa foi comercializado para vários países em todo o mundo.


Os sucessos desses programas são evidenciados pelo custo relativamente baixo, em comparação ao de uma novela ou um seriado, e com excelente retorno e expressiva audiência. […] É uma nova dramaturgia, um novo formato híbrido, com nova arquitetura resultante dos gêneros jornalístico, talk show, auditório (MEDEIROS; OLIVEIRA, 2008, p. 6).


Sem opção nos canais abertos


Os elementos comuns que caracterizam o reality show são os personagens e suas histórias supostamente tomadas da vida cotidiana. Os protagonistas, normalmente, apresentam-se como cidadãos comuns, dispostos a atuar como estrelas das telas de TV. Além da busca pelo prêmio máximo (sair o grande vencedor do programa), eles buscam a mudança de fazer pública sua vida privada, ter o que os leigos chamam de ’15 minutos de fama’. O sujeito anônimo da grande massa se converte numa celebridade, com passaporte outorgado pelo status que a TV gera.


Há também algumas discussões a respeito de um desejo do ser humano por reconhecimento e fama, estimulado todos os dias pelas mídias, pela publicidade, pelos modelos estéticos de beleza etc. Segundo essas discussões, o gênero reality-show representaria a percepção, por parte das emissoras de televisão mundiais, da possibilidade de exploração desse desejo (CURVELLO, 2002, p. 5).


No caso da Record, os participantes já serão conhecidos do grande público, como a Casa dos Artistas, do SBT. O Fazenda das Celebridades é uma versão para Quinta das Celebridades, apresentado com sucesso em Portugal, e será instalado numa fazenda no interior de São Paulo, com direção de Rodrigo Carelli e produção de Alexandre Frota7 (que participou da edição portuguesa).


Segundo a direção da emissora do bispo Edir Macedo, os 14 participantes ainda estão sendo escolhidos, mas ficou ventilado na imprensa a possibilidade de ter Marina Mantega (filha do ministro da Fazenda, Guido Mantega) e o ator Dado Dolabella como possíveis integrantes.


Pelo nono ano consecutivo a Globo emplaca o programa Big Brother Brasil nas noites televisivas. O brasileiro, sem muita opção pelos canais abertos do país, acaba sucumbindo e acompanhando o programa que hoje é um dos produtos que mais arrecada verba publicitária na TV brasileira.


Excesso, superficialidade e refugo


Neste ano, o programa alterou seu formato, incluindo novas fórmulas em um conteúdo que o público pensava dominar: quarto branco, casa de vidro, bolha, entre outras novidades. O Big Brother Brasil pode ser comparado à gladiatura romana, conforme analisou Minerbo (2007). Como os participantes do BBB, os gladiadores também lutavam entre si até o fim. Quando o gladiador vitorioso encurralava o oponente, convocava o voto popular, que podia ser referendado pelo imperador: polegar para cima, vida; polegar para baixo, morte. A vida do perdedor podia ser poupada, se o público o considerasse um lutador valoroso e digno. Em caso contrário, ‘paredão’ (MINERBO, 2007, p. 154).


E, para acirrar ainda mais esta luta pela ‘sobrevivência’ no programa, ocorre também uma tentativa de descivilização: ‘Remova as bases elementares da vida civilizada, organizada – comida, abrigo, água potável, um mínimo de segurança pessoa – e em questão de horas voltaremos ao estado de natureza hobbesiano, à guerra de todos contra todos’ (ASH, 2005).


Em Roma, a luta dos gladiadores era real, empolgava a platéia ao vivo, era, assim, um reality show. E assim como no Big Brother Brasil, os participantes eram escolhidos pelo porte físico e podiam ser pessoas comuns, do povo.


Os participantes eram escolhidos em função de seu porte, de sua força e de seu físico. Eram treinados para proporcionar um bom espetáculo, combatendo com bravura e morrendo com dignidade. Podiam ser escravos, prisioneiros de guerra ou cristãos, mas até mesmo homens livres se candidatavam, pois era um caminho possível e rápido para a ascensão social (ibid).


Depois que saem do programa, no tão temido ‘paredão’, os participantes experimentam o êxtase do mito criado pela exposição na mídia. Porém, alguns logo caem no esquecimento. Para Bauman (2004) isso reflete uma cultura de que ‘tudo é reciclado sem parar, tudo nasce com a marca de morte iminente, tudo deixa a linha de produção com um `prazo de validade´ afixado’. É o que Bauman denominou de modernidade líquida concebida por uma civilização do excesso, da superficialidade e do refugo.


Busca frenética por lucros


Na guerra por maior audiência, o sistema midiático televisivo tem necessidade frenética de celebridades, produzidas e consumidas pela própria mídia. São as chamadas celebridades instantâneas, que aparecem e desaparecem da mídia na mesma velocidade tecnológica a serviço do jogo midiático (MEDEIROS; OLIVEIRA, 2008, p. 9).


Nesse sentido, no mundo da mídia, o BBB mostra espetacularmente ‘quem manda quem para a lata de lixo’ (Bauman, 2008). O paredão é como se a morte fosse decretada. E, no universo da Globo, o apresentador Pedro Bial ainda emposta a voz, como se ela fosse ouvida do além (para quem está dentro da casa). A porta parece ser o passaporte para o paraíso ou o inferno.


Assim como em O Show de Truman8, também há interferência da direção na vida dos participantes, seja escolhendo as roupas para as festas regadas a álcool, ou na censura a algumas conversas com teor supostamente não permitido.


E críticas ao programa sempre existirão. Seja pela audiência, ou por causa dela, os programas no formato reality show ainda serão explorados pela TV, numa busca frenética por mais e mais lucros financeiros.

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Bacharel em Comunicação Social (UFJF), especialista em Globalização, Midia e Cidadania (UFJF). Docente na UNIPAC (Universidade Presidente Antônio Carlos), em Juiz de Fora/MG. Trabalhou em rádio por 15 anos consecutivos já tendo atuado como repórter, chefe de reportagem e produção, apresentadora de programas. É colunista em jornal. E-mail: figueiredo.claudia@hotmail.com

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