Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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INTERESSE PúBLICO >

A guerra pela existência de Deus

Por Paulo Bento Bandarra em 17/02/2009 na edição 525

Ou combatemos a ciência, ou Ele pode vir a morrer, temem os defensores do criacionismo. É o que clama Cláudio Lembo, político do DEM, advogado e professor universitário, em 2 de fevereiro de 2009, no seu texto ‘Explosão de soberba‘;. Alega que ‘paira um espectro sobre a Europa. Não é o espectro do comunismo, mas fere um dos mais profundos sentimentos do Ocidente. A crença em Deus. Em países, antes arraigadamente católicos, estende-se a onda do ateísmo. Dizem: ‘Provavelmente, Deus não existe. Viva e goze a vida’. A autoria dos dizeres é de uma associação de ateus e livres pensadores’. Sublinho o termo sentimento.

Não é interessante frente aos ataques a ciência e ao conhecimento científico feito no OI por articulistas e na imprensa por jornalista que aleguem justamente por direito de expressão de idéias, o criacionismo anticientífico (pleonasmo) deva ser levado ao ensino das crianças em formação? Que o conhecimento científico e a aceitação das evidências devam passar pelo crivo das Verdades Bíblicas (jamais por outros credos) e que Deus e a Bíblia judaica não devam ser analisados pela luz da filosofia e da ciência.

O professor Silvio Motta Costa, em 10/2/2009, vocifera contra Veja em ‘Evolução darwiniana e involução do jornalismo‘. Nos modestos 150 anos a recém passados da descoberta da evolução, o professor enxerga tom de reverência teológica, senão litúrgica, Veja (edição 2099, de 11/2/2009) dedicou várias páginas ao seu deus: Charles Darwin. O que certamente não é uma visão racional na alegada discussão pretendida do fenômeno biológico evolucionário. Queixa-se o professor mais uma vez na história da humanidade que ‘Collins entende que a Bíblia realmente não é um livro científico, mas a ciência apenas comprova um Criador, um Deus verdadeiro. Essa fala de Collins em nenhum momento sugere, como Veja tenta fazer crer, que a Bíblia é um livro fantasioso e sem credibilidade’. Na verdade este é o medo religioso de provas inexistentes da hipótese de Deus, e pior, que as provas de Deus já foi refutado muito antes de Darwin pela filosofia como um personagem necessário de existir.

Trauma psicológico

Involuir, na verdade, seria passar a imprensa combater o conhecimento científico como feito na época da criação do cristianismo por alegações de seguidores bíblicos como se fosse um tipo de verdade, de um reconhecimento oficial unânime pelo mundo a esta falsa verdade. Aquilo que se fez no passado desde o início do cristianismo em que as pesquisas, alegações, pensamentos, visões deviam passar todas pelo crivo do clero antes de ser divulgado, e proibido visões que contrariassem esta falsa verdade até mesmo religiosa. ‘A revista pinta de forma exagerada, insidiosa e irresponsável um conflito entre ciência e religião, como se todas as pessoas religiosas fossem fanáticas e medievalistas; como se todas elas tivessem ódio ao darwinismo por ser ateísta.’ enxerga o professor. Mas não se pode negar que esta seja a verdade dos que militam pelo criacionismo no momento que o mesmo não possui bases científicas, mas apenas bases religiosas. Vêem a ciência como uma religião que se opõem a sua. Que pode vir a matar Deus se deixada existir.

O jornalista Michelson Borges na sua cruzada adventista indica seu texto ‘Veja alimenta clima de guerra e endeusa Darwin‘ confirmando o seu entendimento de que deve conquistar Jerusalém dos infiéis a qualquer custo. Seu diagnóstico é este: ‘Somente ateus e darwinistas tiveram espaço nas páginas amarelas. Não foi esse tipo de jornalismo que aprendi na UFSC…’. (Não foi o que o professor Silvio Motta Costa negou ali em cima? Bingo?) Nada diferente dos dois mil anos de história cristã. O império do obscurantismo que resultou mil anos de trevas na idade médica na história no combate a todo tipo de conhecimento humano, até mesmo divergentes cristão. O Papa faz bem em lembrar Maomé, mas o cristianismo não fez menos, ou melhor. O jornalista apenas segue a tradição fundamentalista. Quantos séculos condenaram o ‘Deus’ Galileu pelas suas heresias, só agora perdoado? 150 anos da evolução é pouco tempo para a mente cristã se acostumar a este trauma psicológico.

O relógio de William Paley

Ao contrário da religião e alegações da existência de um Deus judeu que teria vindo, passado 3 500 anos de história, adotado os góis (gentios, não judeus) em detrimento do seu povo, na figura mítica de Cristo, o messias prometidos aos judeus, existem milhares de alegações do sagrado, de deuses e mais deuses, e explicações de várias formas da maneira como os demiurgos fizeram o mundo. Não é por uma alternativa, pois a Bíblia é apenas uma alternativa religiosa não muito convincente. Não se mostram melhores os seus defensores ou mais sábios ou cultos. Apenas se mostraram na história do conhecimento humano, para usar o termo de Lembo, mais soberbos e menos modestos. Soberbos por ignorarem as demais alegações de crenças sobrenaturais no ensino religioso, pouco modestos ao tentarem discutir ciência por uma virtude inata ao cristão bíblico, sem precisar para isto conhecer outros credos, e pior, sem precisar familiaridade com a filosofia ou a ciência. A Bíblia lhes bastam. Reconhecem o falso em Maomé, mas não enxergam o mesmo em Cristo. Aqui se recebe o mesmo tratamento ao criticar Cristo como lá em discutir Maomé. Vinhos da mesma pipa emocional.

O temor da morte de Deus ocorre por ser um pensamento ilusório ensinado entre os valores mágicos pueris na infância. E, como todo valor irracional, causa grande sofrimento ao crente se este vier a morrer e o deixar desamparado. Não que deuses verdadeiros dependeriam de suas criaturas para existir ou se completassem apenas se estes o amassem, por suposição, mas porque os crentes não podem ficar confortáveis quando contrariados nos seus valores imaginários, nas muletas emocionais para viverem. A resposta, como Lembo, como o professor Sílvio ou como o jornalista Michelson Borges são todas em bases emocionais apelando para todo o tipo de falácias em vez de se ater às evidências. Se prendem a falta de evidências para alegarem a isto a prova da existência de um criador. Argumentos milenares religiosos e surrados de ser desmentidos na história e pela ciência. A falta de provas de Deus (deuses) não é prova da sua inexistência, repetem. Mas a falta de provas de intervenção é a prova da existência. A tentativa de voltar a discutir o relógio de William Paley, agora na forma de uma ratoeira. Interessante a crença que o mais complexo imaginado não precise de um criador. Complexidade extrema se cria sozinha. Argumento destruído por Kant.

Verdades particulares

Por isto que se torna importante o combate do ensino de crenças irracionais para as criança pelos pais e pelas escolas de diversos credos. Pior ainda, fazer isto com dinheiro público em que mesmo com opção dos pais de fazer pela sua, se fomenta na população, na juventude, na sociedade, a adoção de comportamento irracional, intolerante, de tornar incapaz de pensar no relativismo do conhecimento quando fora da ciência (já que esta se faz automaticamente pelo seu método essencial). Aos pais ensinarem um credo, no fato da escola ensinar reforçando este preconceito religioso, que é a religião, a criança introjeta irracionalmente valores falsos dos quais não poderá jamais se livrar, reconhecer as suas limitações, distinguir o outro com a mesma capacidade e direito, a sua fé com igual valor relativo, apesar de possuir uma fé diferente imposto da mesma forma, como valor ao cérebro infantil.

A prova da irracionalidade da fé e a prova de que ela não torna pessoas melhores e nem com garantias de vida e felicidade maior está justamente na vida daqueles outros que os cristãos julgam errados, anormais, irracionais por acreditarem em espíritos, em astros sagrados, em estatuas idolatradas, em seres imaginários ou animais como possuidores de poderes divinos. Assim como facilmente o crente percebe a falsidade e o absurdo destas idéias e este comportamento nos outros, os que reconhecem a Bíblia como um mero livro mítico da saga de um povo, percebem a falsidade de suas alegações divinas, seu apego como irracional, sua incapacidade de viverem fora desta crença pessoal pouco iluminada fora se auto-julgarem como tendo a fé certa apenas por ter sido justamente educados a acreditarem nisto. Incapazes de enxergarem a falsidade e a irracionalidade escrita com todas as letras. Ou seja, o mesmo comportamento de todos estes outros crentes nas suas verdades particulares. Não são melhores do que os outros em todos os sentidos. Como todos crentes, enxergam a guerra pela fé e os outros como inimigos a serem calados.

Cegueira extrema

Pessoas que acreditam no budismo, espiritismo, hinduísmo, judaísmo, islamismo e mesmo os cristãos com suas centenas ‘igrejas’ de entendimento diferentes não o fazem por ignorância, por existir algo falso ou verdadeiro para crer. Mas porque foram educados a acreditarem culturalmente em determinadas coisas como certas e como verdade. Nada de verdadeiro fora disto. Gosto e educação não fazem verdades culturais universais, religiosas, mas principalmente não as fazem científicas. E nem ajuda na ampliação do conhecimento.

Uma revista deixar de ser isenta no campo do conhecimento e passar a considerar a Bíblia dentro do Estado como uma opção única seria isto sim um atraso histórico, um erro abominável, um escárnio à diversidade de crença e de pensamento. Um desrespeito aos profissionais dedicados à pesquisa e ao trabalho científico ser nivelados a visões de fanáticos bíblicos. Por que não os espíritas? Estes que o index Librorvm Prohibithorvm (‘Índice dos Livros Proibidos’, em português) incluíam. E no oriente a ciência deveria ser avaliada pela luz do islã?

A cegueira imposta pela fé no ensino faz com que os devotos deixem de enxergar os erros grosseiros do livro judeu, e escolherem frases ao bel prazer para se justificarem a si mesmo com a interpretação correta e se considerar o verdadeiro servo do Senhor. Tão falso método que nem mesmo entre os que seguem o Livro concordam entre si pacificamente e, se forem deixados sozinhos, se matam pelas suas versões de verdade a ser imposta. Cinco mil anos de matanças sem cessar. Voltar a isto que seria retrógrado. Enxergar numa tuberculose cerebral infantil a prova da bondade de Deus. Imagine-se antes da metade do século 20 que esperança era dada ao paciente e a esta família. Que livre arbítrio pode exercer quem desconhece a causa? Enxergar nisto uma prova da perfeição da natureza, da sabedoria de Deus, da Justiça superior é cegueira extrema. Multipliquemos este exemplo às milhares de doenças.

Tolerância momentânea

O que já se explica perfeitamente, fora da visão da Bíblia, de que a doença é uma conseqüência natural da luta entre diversos seres vivos, e que não existem seres à parte, imunes à natureza e aos naturais seres vivos desenvolvidos por ela. Que nossa imagem e semelhança a Deus não impedem de morrermos como uma barata sem livre arbítrio. Que padecemos de erros de desenvolvimento que podem produzir erros genéticos, crianças excepcionais, tumores, falhas em determinados órgãos, envenenamento por plantas, por peçonhas, produtos etc… E que isto não é castigo de Deus, ou que exista alguma mensagem oculta ou virtude no sofrimento da doença. As alegações de proteção em uma vida religiosa que enganam as pessoas na história por milênios. Não existe reza que proteja. Não existe vida que se recupere fora do entendimento da natureza da moléstia e o estudo de seu combate racional. O desejo dos crentes de que isto seja verdade os deixam frustrados ao verem os simples divergentes, os crentes de outras religiões, os devotos de outros deuses, os agnósticos e ateus padecerem dos mesmos males, morrerem da mesma forma, viver felizes da mesma maneira que eles não devotos e não serem castigados por isto. Doentes se curarem com o mesmo tratamento científico sem necessitarem pedir misericórdia divina. Sem necessidade de se absterem das coisas da vida, de alimentos tabus, para terem um merecimento duvidoso. Mares não se abrem para tragá-los, raios não os fulminam, cidades não são destruídas pelo enxofre, a terra não se abre aos pés dos infiéis, pessoas não viram estátuas de sal, dilúvios não ocorrem contra os pecadores para castigá-los pelo Deus do qual descrêem. Uma frustração enorme, inconsolável, da falta de intervenção tão ausente para lhes proteger de forma especial. Mostrar que eles estavam certos em vociferar contra o mal. Segurar o telhado para não cair nas suas cabeças, deter tsunamis em volta dos crentes apenas, fazendo os infiéis e hereges sofrerem o castigo divino direcionados a eles, segurar aviões de devotos no ar. Infelizmente caíram no conto do vigário.

Sem a espada na mão não convencem. Por isto não existe a mínima possibilidade de haver contato entre a ciência e a religião. Não existe simplesmente religião. Não existe consenso entre religiosos. Não existe tolerância e dialogo verdadeiro entre crentes. Jamais existirá com a ciência. A ciência está na busca em desvendar o conhecimento, a religião está no campo do irracional, do emocional, do desejar, do necessitar consolo, iludir os sentidos, no repetir irracionalmente liturgias primitivas e irracionais. Uma busca da salvação da condição humana que jamais obterá. Nenhum crente aceita a análise da sua fé a luz da ciência. Nem mesmo a luz de outras religiões. É como o óleo e a água. Incompatíveis em essência e construção. Em método e função. Em objetivo e finalidade. A ciência serve ao homem. E a religião é feita para servir ao imaginário. Religião funciona como engodo, ciência não obra para tal. A ciência não funciona se não estiver certa. Religião funciona porque não é certa. Qualquer uma serve para o fim que se destina. Em essência, aquela que se foi educado na infância. As pessoas se sentem bem com qualquer uma. Não existe como chegar à verdade, pois são imaginárias, e nem precisa. Não existe entendimento entre diferentes, apenas tolerância momentânea, desconfianças não reveladas. Imagine trazer isto para o campo da ciência mais uma vez. Deixar o cristianismo acabar com o conhecimento laico mais uma vez.

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Médico, Porto Alegre, RS

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