Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

INTERESSE PúBLICO > THE WASHINGTON POST

A importância de ouvir os dois lados

27/03/2007 na edição 426

A ombudsman do Washington Post, Deborah Howell, começa sua coluna de domingo [25/3/07] lembrando uma das regras básicas do jornalismo: ouvir os dois lados da história. O gancho para citar a norma veio de um caso recém-ocorrido no diário. Há uma semana, Marc Raimondi, porta-voz do serviço de imigração (conhecido pela sigla ICE), que integra o Departamento de Segurança Interna dos EUA, ligou para a seção nacional do Post diversas vezes antes das 23h30, a fim de protestar contra uma matéria sobre uma incursão ocorrida no dia 6/3 em uma fábrica de roupas em New Bedford, Massachusetts. Na operação, 361 imigrantes ilegais foram presos – 80 deles já tinham ordem de deportação.

Raimondi leu a matéria no sítio do jornal e teria ficado furioso porque o ICE não havia sido contatado para falar do assunto. Ele considerou o texto impreciso e pediu que declarações oficiais fossem incluídas ou que o artigo não fosse publicado na versão impressa do jornal. Raimondi já havia reclamado de um editorial publicado anteriormente, para o qual o ICE também não havia sido procurado.

Sem tempo

A matéria foi publicada assim mesmo, pois as três edições do diário já haviam sido impressas e o editor não conseguiu entrar em contato imediatamente com a autora do artigo, Robin Shulman, da sucursal de Nova York. Raimondi conversou depois com Robin e ligou para Deborah. Após a publicação do editorial e da matéria do Post, o ICE optou por publicar um documento para esclarecer os fatos ocorridos nas incursões.

A matéria de Robin tinha como uma das personagens centrais Marta Escoto, mãe solteira de Honduras, com dois filhos nascidos nos EUA, um deles doente. Ela foi presa na fábrica com seu irmão, duas irmãs e dois filhos mais velhos, nascidos em Honduras. Segundo Raimondi, Marta já havia sido detida em uma ronda na fronteira dos EUA em 2000 – informação que ela não revelou à repórter. O artigo questionava o modo como os funcionários lidavam com imigrantes e com seus filhos nascidos nos EUA. Somente no fim da matéria, a jornalista informava que Marta havia sido solta por razões humanitárias, embora tivesse de ser monitorada e ir à corte para falar com um juiz de imigração.

Protesto

A incursão gerou críticas de membros do Congresso. Harry Spence, chefe do Departamento de Serviço Social de Massachusetts, afirmou que as condições para os filhos dos trabalhadores eram ‘completamente inadequadas’ e que ele discordava do fato dos funcionários de serviço social não terem permissão para interrogar os detidos por 36 horas. Segundo Spence, seu departamento contribuiu para a liberação de Marta. Já Raimondi alega que os funcionários da imigração avisaram às agências de serviço social sobre a incursão e que os detidos foram entrevistados diversas vezes para verificar se todas as crianças estavam em segurança. Além do mais, todas as mães solteiras foram liberadas. No total, 90 detidos foram soltos por razões humanitárias.

Errata

O diário publicou as correções na matéria e no editorial. A matéria afirmava que Marta foi proibida, por três dias, de fazer um telefonema. A correção informou que ela fez uma ligação de cinco minutos no primeiro dia. Ficou esclarecido também que o número de detidos havia sido publicado erroneamente no editorial, escrito por Lee Hockstader. Para a ombudsman, no entanto, a questão principal é que funcionários da imigração deveriam ter sido procurados. O editor de Robin, Steve Holmes, também concorda e alegou que não ter ligado para os funcionários foi ‘um erro em todos os sentidos’.

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