Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

INTERESSE PúBLICO > MÍDIA & POLÍTICA

A imprensa, ladeira acima

Por Ivan Berger em 25/09/2007 na edição 452

Com o normalmente exíguo prazo de validade do material jornalístico, a imprensa parece condenada à maldição de Sísifo, ou seja, por mais que labute e se esforce, não consegue que nada mude com a urgência desejável. Ou lhe falta fôlego, ou as coisas caducam por decurso de prazo. Parodiando Shakespeare, a busca pela verdade pode ser uma tarefa bem mais complexa do que supõe nossa vã filosofia. A começar pelo fato de que nem todos efetivamente anseiam que ela venha à tona, nua e crua, doa a quem doer. Ainda mais no âmbito da política, em que se contam nos dedos quem não tenha culpa no cartório ou o rabo preso.

Todos conhecem a história do PT e a guinada de 180 graus de seu discurso, após a chegada ao poder. O que sobrou da defesa intransigente e obstinada dos valores éticos, de transparência administrativa, de combate feroz à corrupção e outras utopias mais? Amostra grátis do rebotalho retórico que lhes restou bravatear abunda, com o perdão da palavra, entre os comentaristas deste OI, à revelia do lapidar exemplo de verdade que incomoda, representado pelo xamanismo em que se transformou o lulo-petismo. O qual só se mantém aos olhos dos descamisados e desvalidos – além, é claro, dos que se consideram excluídos ou vítimas do perverso sistema capitalista – com a cumplicidade da mídia.

‘Vício e virtude’

Apontar a degradação do ideário petista tem custado caro à imprensa, como se sabe. De porta-voz da oposição e das elites a golpista e conservadora, o repertório antimidiático não tem escrúpulos em encampar a própria defesa de malfeitores, como os 40 do mensalão e do presidente do Senado, só pelo prazer de contestar a imprensa. Debocham, inclusive, do clamor público que se fez ouvir, tanto no aplauso pelo indiciamento dos mensaleiros, como na revolta pela absolvição de Renam por seus pares de bandalheira, supõem-se. ‘Os orelhões aqui de Fortaleza estão congestionados de tanta gente protestando,’ ironizou um leitor, a propósito de meu artigo da semana passada. O que me fez lembrar de outra célebre fala hamletiana: ‘do que rides, estúpido?’etc etc.

Tripudiam, evidentemente, pela quase certeza de que mais uma vez tudo tende a acabar em pizza. Mesmo a festejada decisão de indiciamento por parte do STF não é garantia de que os acusados serão punidos. Na própria imprensa, noves fora a chapa-branca, não faltaram vozes pretensamente ilibadas para reprovar a, digamos, impetuosidade com que a mídia se debruçou sobre os dois episódios. Corretos sob o ponto de vista jurídico, posto que, de fato, não cabe à imprensa dar o veredicto sobre os acusados – no restante, tudo depende de como se encara a prática jornalística.

Para uns, desvendar crimes a partir de escutas clandestinas, flagrar intimidades delituosas de personalidades públicas, é invasão de privacidade e, portanto, ilegal; para outros, é um recurso válido, pois muitas vezes é a única forma de desvendar crimes, desbaratar quadrilhas. ‘A desconfiança é um vício no mundo particular e uma virtude no mundo público. Existe maior prova de que não se pode aplicar na política a mesma ética que aplicamos nas relações pessoais?’ (Otávio Frias Filho, no seu Antimanual de jornalismo).

As leis são como as virgens

Mas o calvário da imprensa não é bem esse, familiarizada como está, não obstante seu relevante papel na história da civilização, a má fama granjeada ao longo dos tempos. Vilania no mais das vezes imputada pelos que têm seus interesses por ela contrariados, como sói acontecer num certo país tropical, abençoado por Deus e – em que pese o ritmo alucinante com que o fogo e as motosserras vão dizimando suas florestas – bonito por natureza.

O que verdadeiramente aflige a mídia é a própria transitoriedade dos fatos, a brevidade de sua vida útil, precariedade assim resumida por um velho mestre do ofício: mais perecível que o leite, assim é o jornal. Daí, a inevitável sensação de dejà vu que costuma preceder coberturas marcantes, como foram as dessas duas penúltimas semanas, seja por saturação ou pela ausência de fatos novos. O que normalmente beneficia as partes visadas, os vilões da história, por assim dizer, visto que é deles e de suas malfeitorias que o jornalismo mais se ocupa.

Pois é justamente nisso que o obstinado presidente do Senado parece apostar para se desvencilhar das acusações e conservar o precioso cargo: ganhar pelo cansaço. Depois de vencer o primeiro round valendo-se de artimanhas que escandalizaram o país, não fosse o afastamento dos advogados responsáveis por sua defesa e a trégua teria garantindo o gás necessário para enfrentar as três representações que ainda terá pela frente. E somando aliados de última hora, com a solidariedade dos tradicionais áulicos de plantão, cuja defesa intransigente da ética e dos preceitos jurídicos soa, paradoxalmente, como música aos ouvidos dos que acham que as leis são como as virgens, foram feitas para serem violadas…

Aventada reação popular

Bem,voltando ao tópico inicial: é possível que, mais uma vez, o trabalho insano da imprensa tenha sido em vão, para regozijo dos governistas, enrustidos ou não. Também, não será a primeira nem a última vez que as esperanças num país melhor, mais justo e decente se diluam, por conta do sórdido vale-tudo do jogo político e da luta pelo poder. Mas quem mais perde com isso não é a imprensa, acostumada, como já disse, à sua inglória labuta ladeira acima. Perde mais, como sempre, a dignidade e a auto-estima dos brasileiros que ainda conservam a capacidade de indignação e que não se deixaram inocular pelo funesto vírus do fanatismo político-ideológico.

A estes, só resta acalentar o cívico sentimento de repulsa e, da próxima vez, caprichar mais nas urnas. E torcer para que, no íntimo de cada um, as coisas estejam efetivamente mudando, como deu a entender a aventada reação popular das últimas semanas.

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Jornalista, Santos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/09/2007 Marcelo Ramos

    Pois é, Ivan, quem lê seu texto quase fica com pena. Labuta, labuta e nada dá certo. Mas o que eu acho mais engraçado é cobrança de ética; porque é a única coisa que se poderia cobrar. Eu até entenderia essa cobrança se ela tivesse sido aplicada aos outros atores desse drama, mas porque ela é cobrada somente ao PT? Lula perdeu tres eleições, e todas foram manipuladas; Caixa 2, se acusou o PT de ser o criador, depois se descobre que começou em Minas e favoreceu a campanha de FHC em 1998. Mas você sabe disso. Você escreve textos como esse para desempenhar seu papel político. Vê apenas a parte da realidade que lhe interessa. Minha memória nem é das melhores mas, aqui mesmo no OI, temos vários blogueiros com registros ótimos e linha do tempo que não nos deixam esquecer da história recente. E falando em urnas, a imprensa vai ter que caprichar muuuiiito mais. Vai ter que fabricar muito escândalo novo. E vai ter que caprichar mas bem muito mesmo pra esconder o depoimento do Cacciola e do Azeredo. Se não esconder bem esses depoimentos, vai queimar todas as candidaturas tucanas para 2010.

  2. Comentou em 28/09/2007 Marcelo Ramos

    Pois é, Ivan, quem lê seu texto quase fica com pena. Labuta, labuta e nada dá certo. Mas o que eu acho mais engraçado é cobrança de ética; porque é a única coisa que se poderia cobrar. Eu até entenderia essa cobrança se ela tivesse sido aplicada aos outros atores desse drama, mas porque ela é cobrada somente ao PT? Lula perdeu tres eleições, e todas foram manipuladas; Caixa 2, se acusou o PT de ser o criador, depois se descobre que começou em Minas e favoreceu a campanha de FHC em 1998. Mas você sabe disso. Você escreve textos como esse para desempenhar seu papel político. Vê apenas a parte da realidade que lhe interessa. Minha memória nem é das melhores mas, aqui mesmo no OI, temos vários blogueiros com registros ótimos e linha do tempo que não nos deixam esquecer da história recente. E falando em urnas, a imprensa vai ter que caprichar muuuiiito mais. Vai ter que fabricar muito escândalo novo. E vai ter que caprichar mas bem muito mesmo pra esconder o depoimento do Cacciola e do Azeredo. Se não esconder bem esses depoimentos, vai queimar todas as candidaturas tucanas para 2010.

  3. Comentou em 28/09/2007 Rogério Ferraz Alencar

    Caro Hélio Souza: os petistas sempre negamos o mensalão, e continuamos negando, mas não nos opusemos a nenhuma investigação. Delúbio Soares confessou caixa 2, que é o que acho que ocorreu em Minas. Mas lá houve desvio, comprovado, de dinheiro público. O PT não teria como fazer isso, pois não havia como desviar dinheiro público, pois ele não havia ganho as eleições. Denise Frossard, no Jô, no início do escândalo, disse isso. Não houve mensalão, na forma descrita por Roberto Jefferson, e não houve desvio de dinheiro público. Quero ver no que vai dar essa história de Minas. Quero saber o motivo que fez o PSDB desviar dinheiro público e dar o dinheiro ao PT. Queria ver, mas não verei, a mídia ser tão incisiva contra o PSDB quanto foi contra o PT. Logicamente não considero o PT farinha do mesmo saco de tucanos e demos. Considero o PT muito mais ético e muito mais honesto. É só comparar para ver quantos petistas e quantos demos e tucanos estão envolvidos em falcatruas. Agora, uma coisa você não pode negar: tucanos e demos, ajudados pela mídia, passaram os últimos dois anos avacalhando o PT e se dando como exemplo de ética, moralidade e honestidade. Sempre fizeram falcatruas, essa de Minas não é a primeira nem a menor delas, mas se davam como exemplo de corretos. E a mídia ainda age como se só agora houvesse provas da desonestidade deles. E ainda tenta minimizar o caso.

  4. Comentou em 28/09/2007 Rogério Ferraz Alencar

    Caro Hélio Souza: os petistas sempre negamos o mensalão, e continuamos negando, mas não nos opusemos a nenhuma investigação. Delúbio Soares confessou caixa 2, que é o que acho que ocorreu em Minas. Mas lá houve desvio, comprovado, de dinheiro público. O PT não teria como fazer isso, pois não havia como desviar dinheiro público, pois ele não havia ganho as eleições. Denise Frossard, no Jô, no início do escândalo, disse isso. Não houve mensalão, na forma descrita por Roberto Jefferson, e não houve desvio de dinheiro público. Quero ver no que vai dar essa história de Minas. Quero saber o motivo que fez o PSDB desviar dinheiro público e dar o dinheiro ao PT. Queria ver, mas não verei, a mídia ser tão incisiva contra o PSDB quanto foi contra o PT. Logicamente não considero o PT farinha do mesmo saco de tucanos e demos. Considero o PT muito mais ético e muito mais honesto. É só comparar para ver quantos petistas e quantos demos e tucanos estão envolvidos em falcatruas. Agora, uma coisa você não pode negar: tucanos e demos, ajudados pela mídia, passaram os últimos dois anos avacalhando o PT e se dando como exemplo de ética, moralidade e honestidade. Sempre fizeram falcatruas, essa de Minas não é a primeira nem a menor delas, mas se davam como exemplo de corretos. E a mídia ainda age como se só agora houvesse provas da desonestidade deles. E ainda tenta minimizar o caso.

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