Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > E DEPOIS DO REFERENDO?

A imprensa não está muito bem na fita

Por Alberto Dines em 17/10/2005 na edição 351

São graves as constatações do Ouvidor da Folha de S.Paulo, Marcelo Beraba, veiculadas na edição televisiva do Observatório da Imprensa [terça (11/10), pela rede pública de TV, veja aqui]. Duas delas em especial:


** ‘A imprensa é pelo sim, só que isso é escamoteado.’


** ‘Se a matéria de Veja fosse ‘Sete razões para você votar no sim’ não teria causado o escândalo que causou.’


Com elas, Beraba identifica (ou denuncia) um pecado mortal de nosso jornalismo com os seus diversos desdobramentos: o engajamento político disfarçado, a incapacidade para manter um mínimo de equilíbrio e o patrulhamento dos que ousam rebelar-se contra o que se convencionou chamar de ‘politicamente correto’.


Não cabe aqui retomar a discussão sobre a matéria de capa de Veja que este Observador classificou como ‘exemplo clássico do jornalismo panfletário’ [ver remissão abaixo]. Veja mudou de tom nas edições seguintes, o que significa que a direção também percebeu suas falhas. Só que não poderia admiti-las publicamente.


O que interessa é a terrível conclusão dessas colocações do Ouvidor da Folha: nossa imprensa não é confiável.


E se não é confiável na preparação da sociedade para um referendo (que, independente dos resultados, pouco alterará o quadro da violência no país), seria confiável na cobertura das próximas eleições presidenciais?


Esta é a questão. Segundo Beraba, Veja teve a coragem de ir contra a corrente para defender o que considera legítimo ao interesse dos seus leitores. Mais coragem tem o ombudsman da Folha ao acolher e endossar o ceticismo deste Observatório – como de resto de todos os media-watchers em qualquer parte do mundo – no tocante à capacidade (ou disposição) dos homens de imprensa de hoje para conduzir o processo de aperfeiçoamento intelectual (ou espiritual) do seu público sem interferências partidárias. Sobretudo, sem o vírus do fanatismo.


Direita = esquerda


Beraba não mencionou o patrulhamento ideológico, nem os tabus politicamente corretos incrustados numa sociedade que há 75 anos tenta mas não consegue recusar em termos definitivos a violência política. Mas quando vemos os adeptos do ‘não’ serem tachados de ‘direita raivosa’ percebemos o quanto nossa imprensa está distante da tolerância com os opostos.


O jornalista e escritor João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, poderia ser enquadrado na direita raivosa? A destemida ex-juíza e agora deputada Denise Frossard pode ser enquadrada desta maneira no espectro ideológico? E os para-jornalistas que só conseguem sonhar com o impeachment de Lula podem ser vistos como paradigmas de juízos equilibrados?


A verdade é que os dois lados, o do ‘sim’ e do ‘não’, esquecem que estão no Brasil e discutem a questão do desarmamento como se estivessem nos EUA. Tentam enfiar à força o nosso debate no cenário ideológico americano em que a National Rifle Association, fundada há 134 anos com mais de três milhões de filiados, era até há pouco tempo o mais poderoso lobby político do país (foi desbancado pelas diferentes confissões fundamentalistas).


Há cidadãos de direita que no próximo domingo apertarão a tecla 1, mas há também muitos liberais (lato e stricto sensu) que farão o mesmo. Não são da ‘bancada da bala’, não pretendem comprar armas, querem apenas vocalizar uma opinião e defender suas idéias. Em matéria de raiva e indignação o Brasil conseguiu o milagre igualar a direita com a esquerda. Falamos em desarmamento mas não desarmamos os espíritos.


Aquela matéria de capa de Veja (nº 1925, 5/10/2005, págs.78-86) representa um exemplo de mau jornalismo e péssimo serviço público. Mas graças a Marcelo Beraba ela suscitou um debate que precisa estender-se até o início da próxima campanha eleitoral.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/10/2005 Paulo Cesar Fernandes

    Infelizmente, a grande mídia impressa de maior circulação no país, não tem a coragem de publicar um artigo como este.

    Artigos como este, é que esclarecem a opinião pública, favorecendo para que a mesma venha à tona, não apenas como ‘a opinião publicada’, e sim como a opinião autêntica.

  2. Comentou em 23/10/2005 Érica Cintra Mariano

    E DEPOIS DO REFERENDO?

    SUGESTÃO:COMO NÃO SE REPETIR UMA VOTAÇÃO DE UM TEMA COMO FOI A DO ‘REFERENDO’?

    O meu questionamento é o meu interesse em saber : quais são os mecanismos democráticos disponíveis para qualquer cidadão face a uma votação atabalhoada, como esta do referendo, ser evitado?
    Não houve tempo, reflexão necessária, para que tal assunto fosse pensado pela população com o cuidado que merece.E, questiono como foi o surgimento, neste momento político, de tal votação. Resultado: pouquíssimos irão às urnas sabendo as conseqüências de seus votos.
    O posicionamento da mídia? Nada mais, nada menos foi um reflexo de como vêm se posicionando em outros aspectos da vida política brasileira. Mais uma repetição.

    E depois do referendo? Evitar a repetição…

    Érica Cintra Mariano

  3. Comentou em 20/10/2005 Aurelio Bolanho Jr.

    depois de ser assinante e comprador de jornais e revistas da imprensa brasileira (FSP,Veja,Carta,Isto é), eu desisti, parei, disse chega!. Nossa mídia de massa não informa, faz campanha, não se define, e nossos ‘jornalistas’ acham que são promotores e juizes (logicamente o ‘dono’ do tribunal é o empresário que os emprega). Quanto ao referendo, o que percebo, existe uma distancia muito grande, entre o que a mídia acha que entende do povo, e do que realmente o povo pensa. Vamos esquecer este propalado mantra da cordialidade e do pacifismo do povo brasileiro, aqui as armas matam, o transito é selvagem, e as instancias politicas estão em processo de corrosão. Os muitos ‘ólogos’, ‘ongueiros’ e membros proeminentes de grandes universidades, que apoiam o sim, fizeram uma campanha ruim, triunfalista, partiram do já ganhou, parecendo que veem o país, como uma sequencia de seus atos, um paradigma de arrogancia. Eu votarei sim, mas não acredito que este referendo irá mudar algo, acho mesmo que o não irá ganhar.Quanto a imprensa já escrevi o que acho dela, e fiquei triste.

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