Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A mídia em cima dos “fichas-sujas”

Por Lilia Diniz em 13/08/2008 na edição 498

Os candidatos a vereador e prefeito já estão nas ruas. Distribuem panfletos, fazem corpo-a-corpo e explicam suas propostas na tentativa de conquistar o voto do eleitor. Mas como o cidadão pode se informar sobre a vida pregressa dos políticos, principalmente dos pretendentes às câmaras municipais? Com a polêmica liberação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da candidatura de políticos que respondem a processos, os chamados ‘fichas-suja’, o eleitor precisará de dados sobre o passado dos candidatos.


O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (12/08) pela TV Brasil e TV Cultura discutiu o papel da imprensa no processo eleitoral. Participaram do programa no estúdio de São Paulo o diretor-executivo da Transparência Brasil Claudio Weber Abramo e o editor de Nacional de O Estado de S.Paulo, Claudio Augusto. O convidado do estúdio do Rio de Janeiro foi o editor-chefe do jornal O Dia, Alexandre Freeland.




Cláudio Weber Abramo é diretor-executivo da Transparência Brasil. Mestre em Filosofia da Ciência pela Unicamp, foi editor de Economia da Folha de S.Paulo e secretário-executivo de redação da Gazeta Mercantil.


Alexandre Freeland é jornalista formado pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Há três anos é editor-chefe de O Dia. Na Alemanha, trabalhou no serviço brasileiro da rádio pública Deutsche Welle, em Colônia.


Claudio Augusto, editor de Nacional de O Estado de S.Paulo, é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP. No mesmo jornal, já foi editor de Cidades, chefe de reportagem de Nacional, Cidades e Esportes. Também trabalhou na Folha de S.Paulo.


Antes do debate ao vivo, o apresentador Alberto Dines comentou as notícias que foram destaque na mídia. A cobertura das Olimpíadas de Pequim foi o primeiro tópico da seção ‘A Mídia na Semana’. Para Dines, o resultado é ruim em todas as mídias. ‘Os defeitos são abrangentes, incluem a mídia impressa, a internet, a TV aberta e TV paga, os canais esportivos e os generalistas. Repete-se a ótica triunfalista e nacionalista, só se cobrem as modalidades que disputamos e nestas só vemos os triunfos’.


Em seguida, Dines criticou a cobertura da prisão do médico Joaquim Ribeiro Filho, acusado e comandar um esquema de venda de lugares na fila de transplantes de fígado no Rio de Janeiro. Na opinião do jornalista, os meios de comunicação estão repetindo as denúncias das autoridades sem investigar.


A imprensa é apenas um canal de comunicação?


No editorial que precede o debate ao vivo, Alberto Dines questionou como deve ser o comportamento da imprensa no processo eleitoral: ‘Deve ela contentar-se em veicular este debate sem atuar afirmativamente no processo? Se a imprensa goza de privilégios outorgados pela Constituição, ela não estaria obrigada a uma contrapartida oferecendo à sociedade sua capacidade de investigar suspeitos? Dúvidas, dúvidas, dúvidas. Uma coisa é certa: não podemos perder tempo’.


A reportagem exibida antes do debate entrevistou o ministro Carlos Ayres Britto, presidente Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que é contrário à decisão do STF. O ministro disse que a imprensa tem o importante papel de conscientizar o eleitor. Deve informar sobre o exercício de cargos anteriores pelo candidato, o seu desempenho na vida profissional e cotidiana, e se remeter às listas de Tribunais de Contas. No entanto, ainda segundo o ministro, os meios de comunicação não devem substituir o eleitor, que é soberano. Cabe ao cidadão fazer o juízo de valor sobre o passado e as propostas de cada candidato.


Carolina Mourand, gerente regional de Jornalismo da rádio CBN, afirmou que os veículos radiofônicos não têm como acompanhar todos os candidatos a vereador e que a legislação não permite que se dê maior destaque a determinado candidato. A solução adotada pela CBN é colocar no ar matérias esclarecendo sobre a importância da Câmara Municipal e do trabalho dos vereadores. A jornalista acredita que nas eleições para vereador o voto é influenciado pelas lideranças locais, pelos vizinhos e entidades religiosas.


Mesmo com mais espaço, o jornalismo impresso também encontra dificuldades para cobrir as eleições municipais. A editora de País de O Globo, Silvia Fonseca, contou que este ano o seu jornal começou a cobertura das campanhas para vereador antes mesmo da cobertura dos candidatos à prefeitura. Um exemplo foi a série de reportagens ‘Profissão Vereador’, do jornalista Chico Otávio. A série investigou as câmaras municipais do interior do estado do Rio de Janeiro, esclareceu as funções dos vereadores e mostrou aos leitores como cobrar dos políticos eleitos o cumprimento das promessas de campanha. Além disso, levantou processos sofridos por pretendentes às câmaras municipais. A jornalista destacou que essas informações são públicas e que o papel da imprensa é divulgá-las.


Baptista Chagas de Almeida, editor de Política do Estado de Minas, observou que a eleição majoritária normalmente desperta maior interesse no eleitor do que a eleição proporcional. Outro fato que influiria na cobertura seria o grande número de candidatos a vereador. Para Ranulfo Bocayuva, diretor-executivo de Jornalismo do grupo A Tarde, este fator dificulta tanto a cobertura das atividades da campanha quanto a investigação da vida dos candidatos. O jornalista afirmou que dá um tratamento diferenciado a candidatos que têm a ficha suja. Para o editor de Política do Diário de Pernambuco, Cesar Rocha, é um desafio dar visibilidade às eleições municipais.


Voto consciente e informação


No debate ao vivo, Claudio Weber Abramo destacou que se os meios de comunicação se eximem de informar sobre os candidatos, não estão cumprindo seu papel. ‘Melhor fechar as portas’, disse. Abramo informou que o portal da Transparência Brasil lista mais de 600 candidatos que têm problemas na Justiça e disse que estes dados – que são públicos – precisam chegar ao conhecimento do eleitor. ‘Voto consciente, só com informação’, alertou. Na impossibilidade de ouvir todos os candidatos a vereador, a mídia poderia focar nos que pretendem reeleger-se e nos mais conhecidos. A imprensa deveria dedicar-se à cobertura das câmaras municipais sistematicamente, e não apenas no período eleitoral.


A recente cassação do deputado estadual Álvaro Lins (PMDB-RJ), ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, por quebra de decoro parlamentar, foi avaliada por Alexandre Freeland. O jornalista acredita que a pressão da opinião pública foi essencial para o desfecho do caso. Mas Freeland ponderou que casos como o do deputado Natalino José Guimarães e do vereador Jerominho Guimarães Filho, acusados de chefiar uma milícia na Zona Oeste do Rio de Janeiro, podem ficar impunes.


‘A imprensa muitas vezes se lembra de cobrir Câmara dos Vereadores só na época da eleição, quando é tarde demais’, lamentou. Há uma imersão no período eleitoral, mas não há uma rotina. O jornalista comentou que a coluna ‘De olho no seu voto’, publicada mensalmente pelo jornal, faz um acompanhamento do trabalho dos políticos ao longo do mandato.


Claudio Augusto afirmou que o acompanhamento de O Estado de S.Paulo das câmaras municipais não se restringe ao período eleitoral, mas o espaço precisa ser aumentado nessa época. Dos três níveis do Poder Legislativo, o que recebe menos atenção é a Câmara Municipal. O jornalista acredita que não é possível acompanhar a campanha dos mais de mil candidatos a vereador.Além disso, não seria ético centrar a cobertura apenas nos 55 que disputam a reeleição.


Ele informou que seu jornal colocará na internet informações sobre todos os candidatos a vereador em São Paulo. Os políticos se manifestarão sobre temas propostos por O Estado de S.Paulo. ‘No papel é impossível fazer isso, acompanhar mil candidatos’, disse. A internet será usada como uma extensão do impresso. A iniciativa foi elogiada pelo diretor-executivo da Transparência Brasil, que sugeriu que outros jornais a seguissem.


A informação onde não há imprensa local


Na opinião de Claudio Weber Abramo, onde não há jornais locais, ou os veículos são controlados pelos ‘donos do poder’, não há solução para a conscientização do eleitor no curto prazo. O desenvolvimento econômico poderia resolver a questão no futuro. Lideranças locais e organizações não-governamentais poderiam recolher informações sobre os candidatos e repassá-las aos eleitores de zonas afastadas dos grandes centros urbanos ou dominadas por grupos políticos.


Um levantamento feito pela Transparência Brasil mostrou que o trabalho das assembléias legislativas não é coberto amplamente pela imprensa. Os jornais cariocas dedicam mais espaço a este tema do que os paulistas. A explicação, segundo Abramo, é que os grandes jornais ficam ‘com os olhos postos em Brasília’.


O fundamental, para Claudio Augusto, é municiar o eleitor de informação. ‘Informação é poder’, disse. O jornalista destacou que é contra campanhas por parte dos meios de comunicação. ‘O jornal não deve fazer campanhas contra A ou B. Deve simplesmente informar. Bem informado, o eleitor vai decidir de forma correta’, avaliou. Alexandre Freeland concordou e acrescentou que alguns políticos confundem o fato de um jornal ‘assumir bandeiras’ com perseguição.


O eleitor pode acessar os sites da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e da Transparência Brasil para obter informações sobre candidatos que são alvo de processos judiciais.


***


A imprensa nas eleições municipais


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 473, no ar em 12/8/2008


Bem vindos ao Observatório da Imprensa.


No tocante à corrupção, há consenso: ela precisa ser urgentemente neutralizada. A discordância está na questão dos métodos para impedir que a corrupção tome conta do Estado brasileiro, sobretudo do Legislativo, e se eternize, graças à imunidade dos parlamentares.


Nossa Suprema Corte já decidiu: candidatos só podem ser impedidos de concorrer quando forem condenados sem condições de apelar às instâncias superiores.


Mas a Associação Brasileira de Magistrados tem uma visão diferente: a presunção de inocência não vale para o exercício de uma função pública.


O que fazer? Esperar? Perder a oportunidade de iniciar o saneamento do Legislativo já nas próximas eleições, quando se renovam os mandatos dos vereadores? O ministro Ricardo Levandowski, do STF, sugere uma alternativa. Os partidos políticos deveriam fazer a primeira depuração na lista dos candidatos. Cabe a eles saber quem merece representar a sua sigla. O ministro está certo. Mas será que os nossos partidos políticos estariam dispostos a perder os votos de candidatos que, embora suspeitos, são muito populares?


Então, chegamos à imprensa. Deve ela contentar-se em veicular este debate sem atuar afirmativamente no processo? Se a imprensa goza de privilégios outorgados pela Constituição, ela não estaria obrigada a uma contrapartida oferecendo à sociedade sua capacidade de investigar suspeitos?


Uma coisa é certa: não podemos perder tempo.


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A mídia na semana


** Neste quarto dia [terça, 12/8] das Olimpíadas de Pequim, já é possível entrever as deficiências da cobertura. O resultado é ruim, o cidadão está mal servido, qualquer que seja a mídia. A culpa não é da diferença de fuso horário nem do excesso de competições. Os defeitos são abrangentes, incluem a mídia impressa, a internet, a TV aberta e a TV paga, os canais esportivos e os generalistas. Repete-se a ótica nacionalista: só se cobrem as modalidades que disputamos e nestas só vemos os triunfos. A exceção fica por conta das vedetes internacionais, como Michael Phelps e Rafael Nadal. De nada servem os grandes investimentos em tecnologia sem o contrapeso do bom conteúdo. O cidadão quer assistir à Olimpíada e não apenas aos brasileiros em Pequim. Justamente nos grandes eventos internacionais nossa mídia parece mais caipira do que nunca.


** Estamos prestes a repetir o erro da Escola Base, apontando um inocente como culpado. E a imprensa novamente aparece como vilã porque repete denúncias das autoridades sem antes investigar. Desta vez, o acusado é um dos maiores especialistas brasileiros em transplantes de fígado. Preso pela Polícia Federal no Rio de Janeiro porque teria furado a fila regulamentar em três ocasiões, o dr Joaquim Ribeiro Filho foi solto por força de um habeas corpus. Se as acusações não forem confirmadas, quem pagará pelos prejuízos à sua imagem?

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