Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

INTERESSE PúBLICO > FOGO SOBRE GAZA

A mídia tomou partido

Por Deonisio da Silva em 20/01/2009 na edição 521

Barack Obama, tratado pela mídia como uma espécie de messias negro, ganhou um presente fantástico: em Gaza, Israel e o Hamas suspenderam a guerra. Oxalá ele possa liderar forças que garantam pátria livre e sem ataques mútuos a judeus e palestinos. A questão é repleta de sutis complexidades, mas grandes estadistas podem e devem fazer isso mesmo: liderar a solução de problemas complexos.


Esta guerra causou um estrago danado também no Brasil, mas ainda é cedo para avaliar por que razão a mídia brasileira, com raras exceções, tomou descarado partido em sua cobertura. Você conversa com gente do povo e a maioria foi informada que o demônio Israel enfrentou o santo Hamas. Cora Rónai publicou um artigo imperdível sobre o tema em O Globo (‘A guerra perdida‘, 15/1/2009).


Neste pequeno artigo, quero lembrar uma coisinha: esta cultura de condenar sem conhecer não é nossa, não é brasileira, não está na tradição de nossas letras e de nossa cultura. Aliás, não deve estar na cabeça de escritor algum.


A partilha da Palestina


Pesquisei a Guerra do Paraguai (todas as guerras se parecem, na essência, em qualquer época e em qualquer lugar) para escrever meu romance Avante, Soldados: Para Trás (no Brasil, em décima edição; publicado também em outros países, saiu em Portugal em 2005, e na Itália, no final do ano passado) e consolidei antiga convicção pacifista, resumindo assim meu modesto discernimento: nenhuma guerra é travada entre mocinhos e bandidos. Eles estão dos dois lados em luta. E em geral nos dois lados predominam os bandidos, o Mal predomina. O Bem é o grande derrotado, como sempre.


O tema foi conduzido de tal modo pela mídia brasileira – sempre, reitero, com notáveis exceções – que fomos inconscientemente convidados a olhar de soslaio para nossos amigos de ascendência árabe ou judaica, conforme o caso. Salim e Jacó sempre viveram em paz aqui no Brasil, ambos amados pelos brasileiros. Já houvera coisa parecida imediatamente antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial, quando os alemães executavam o seu projeto de limpeza étnica, principalmente de judeus, mas não deles apenas, no mundo. Brasileiros de ascendência alemã eram tratados com desconfiança ou mesmo perseguidos, como se integrassem os exércitos de Hitler.


Nessas horas, é bom lembrar a luz de Osvaldo Aranha que, em 29 de novembro de 1947, presidiu a histórica 49ª sessão da Assembléia Geral da ONU, quando foi aprovada a partilha da Palestina. Votaram 56 membros: 13 foram contra, 10 se abstiveram e 33 aprovaram. Nascia ali o Estado de Israel.


Alarguemos o olhar


Osvaldo (Euclides de Sousa) Aranha nasceu em Alegrete (RS). Tem Euclides no nome, homenageando o pai, coronel e estancieiro. Luíza de Freitas Valle Aranha, sua mãe, foi quem o alfabetizou.


Lia muito o nosso Aranha. Deixou uma biblioteca de 4.585 livros, depois aumentada para 11.485 com doações da própria família. Na prosa de língua portuguesa, seus autores preferidos eram Eça de Queiroz e Machado de Assis.


Em 27 de janeiro de 1960, no Rio, minutos depois de sentar-se, voltando do médico, e apresentar um boletim que dizia estar tudo bem com o seu coração, morreu de enfarte.


Não é de hoje que Israel nos fala de perto na via dolorosa do regresso à pátria. E nós, brasileiros, temos vínculos de fogo com a cultura judaica. E com o Estado de Israel, principalmente com a referência solar de Osvaldo Aranha.


Temos também vínculos de fogo propriamente ditos, tão bem expressos no título do livro-referência de Alberto Dines sobre Antônio da Silva, o Judeu, o escritor brasileiro nascido no Rio e executado pela Inquisição, em Lisboa, quando uma peça de sua autoria estava em cartaz a algumas quadras da fogueira. Que trágica e pavorosa ironia. Tinha 34 anos.


Muito antes do nosso dramaturgo, Camões fez estes versos em Sôbolos Rios:




‘Ó tu, divino aposento,/ Minha pátria singular,/ Se só com te imaginar/ Tanto sobe o entendimento,/ Que fará, sem em ti se achar?’


Alarguemos, pois, o nosso olhar. Temos bons exemplos entre os que nos antecederam, nas Letras e na Política.

******

Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da ed. Novo Século); www.deonisio.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/04/2009 Wendel Anastácio

    …/… cont.
    de classes do operariado? Por que outras monarquias “sobreviventes”, sobretudo a inglesa que tinha pacto de não-agressão com a Rússia, não se insurgiu para salvar o Czar? Por que os movimentos comunistas se espalharam por toda Europa arrasada, sobretudo na Alemanha, quando os países mais precisavam da burguesia endinheirada? Por que essa burguesia endinheirada se interessou em vender seus produtos armamentistas, enriquecendo como nunca, tanto do lado da Entente como do lado da Aliança?
    Após essa Revolução de 1917 o que se viu foi barbárie levada ao extremo na História da raça humana. Dois livros proibidos: “O Complô contra a Igreja” de Maurice Pinay e o “Livro negro do comunismo” narraram o que esse Monstro Comunista causou nos países onde, “inexplicavelmente”, espalhou seus tentáculos. Segue um pequeno trecho do livro “O Complô contra a Igreja” narrando o que os russos fizeram quando invadiram a Ucrânia e a Hungria em 1919: Na Ucrânia: “no pátio da garagem havia um vala de 25cm por 25cm de profundidade e 10m de comprimento. Estava cheia de sangue. As paredes estavam cobertas de tiros e pedaços de miolos humanos. Pernas e braços decepados se empilhavam no fundo da garagem”. Na Hungria temos a narrativa: “quando os coletores de cadáveres adentraram ao sótão da igreja Wilczec se depararam com cena inacreditável: corpos de padres e freiras empilhados com o
    cont..

  2. Comentou em 30/04/2009 Wendel Anastácio

    …/… cont.
    de classes do operariado? Por que outras monarquias “sobreviventes”, sobretudo a inglesa que tinha pacto de não-agressão com a Rússia, não se insurgiu para salvar o Czar? Por que os movimentos comunistas se espalharam por toda Europa arrasada, sobretudo na Alemanha, quando os países mais precisavam da burguesia endinheirada? Por que essa burguesia endinheirada se interessou em vender seus produtos armamentistas, enriquecendo como nunca, tanto do lado da Entente como do lado da Aliança?
    Após essa Revolução de 1917 o que se viu foi barbárie levada ao extremo na História da raça humana. Dois livros proibidos: “O Complô contra a Igreja” de Maurice Pinay e o “Livro negro do comunismo” narraram o que esse Monstro Comunista causou nos países onde, “inexplicavelmente”, espalhou seus tentáculos. Segue um pequeno trecho do livro “O Complô contra a Igreja” narrando o que os russos fizeram quando invadiram a Ucrânia e a Hungria em 1919: Na Ucrânia: “no pátio da garagem havia um vala de 25cm por 25cm de profundidade e 10m de comprimento. Estava cheia de sangue. As paredes estavam cobertas de tiros e pedaços de miolos humanos. Pernas e braços decepados se empilhavam no fundo da garagem”. Na Hungria temos a narrativa: “quando os coletores de cadáveres adentraram ao sótão da igreja Wilczec se depararam com cena inacreditável: corpos de padres e freiras empilhados com o
    cont..

  3. Comentou em 26/01/2009 Thiago Marques

    O autor escreveu um artigo claramente propagandístico e nos pede que alarguemos o olhar. Vamos imaginar uma coisa. Hitler dizendo que invadiu a Polônia para se defender. E foi o que ele disse. Agora vamos imaginar que a Alemanha tivesse vencido a guerra.Ele poderia justificar o Holocausto invocando um grande poeta? Poderia. E contaria a saga dos arianos, seus sofrimentos infligidos por povos inferiores. Em tudo isso, o que o artigo do professor e escritor foge ao panfleto propagandístico? Francamente, ficou longe de ser convincente.

  4. Comentou em 23/01/2009 Jorge Mercadante

    Marta Camilo, você deveria ter muita vergonha de postar tantas sandices e passar recibo tão grande de ignorância. Ao invés de ficar lengo lixo marxóide nas páginas da internet e ficar repetindo-os aqui, por que não lê os livros de história mesmo? Panfletarismo não leva a nada. Mentiras e tolices idem. Vamos lá, estude um pouco. Vai te poupar de passar tanta vergonha.

  5. Comentou em 23/01/2009 Felipe Faria

    O stalinistas estão chegando….

  6. Comentou em 22/01/2009 Wendel Anastácio Anastácio

    …continuação:

    Dessa vez, temos de pensar não nos banhos de sangue normais no Oriente Médio. Dessa vez é preciso pensar em massacres na escala das guerras dos Bálcãs, dos anos 90. Ah, sim.
    Quando os árabes enlouquecerem de fúria e virmos crescer seu ódio incendiário, cego, contra o Ocidente, sempre poderemos dizer que ‘não é conosco’. Sempre haverá quem pergunte ‘Por que nos odeiam tanto?’ Que, pelo menos, ninguém minta que não sabe por quê.

    (*) Texto publicado por Robert Fisk em 07/01/2009 no jornal britânico The Independent (original aqui).

    Aos amigos, desejo boa leitura, e peço encarecidamente: continuem pesquisando.
    Shalon

  7. Comentou em 21/01/2009 Felipe Faria

    Alexandre, muitas palavras depois de sua origem mudam de significado. Eu e vocë sabemos muito bem o que significa antissemitismo, independente de como a PALAVRA tenha se originado. Logo, não venha com chorumelas.

  8. Comentou em 20/01/2009 Noel Nascimento Filho

    Mas, fato é que quem ás vezes viaja ou pouco pelo mundo, pouco se incomoda em ver um rabino ou uma Kipá adentrando um avião, mas um traje árabe faz pensar em coisas que o cérebro traz à tona! Me reprimo, e por isso, procuro até sorrir e cumprimentar a infeliz vítima dessa suspeita infame, se consigo superar o pensamento estúpido e levantar a cabeça. Guerra santa e aniquilação total do ‘inimigo’. Que outra religião no mundo chegou a este ponto? O cristianismo, há mil anos. Viva Ficcino, Pico de la Mirandola, Bruno, Da Vinci, Spinoza! Deus? Bem, vamos recapitular, dar um tempo. Humanismo, Iluminismo, industrialização, capitalismo, materialismo dialético. Hume, Locke, Bacon, Saint Simon, Nietszche, Sartre, Russel, Teillard! Einstein, Niels, Bohr. Contraditórios. Que maravilha! Ainda bem que não é tudo igual, todos se curvando ao meio dia e se deitando após o canto de um minarete. Vive la Renaiscance. Civilização ocidental.

    O UNIVERSO um dia vai morrer! O que isto nos diz respeito? Foi o homem quem descobriu, meu Deus! Meu Deus? Bem, Spinoza…respondo ao teu vento de energia universal, ao teu panteismo, humildemente. Estavas certo. Bem ou mal? Zaratustra, incrível, acertaste. Se não superarmos, viveremos até a morte com esse império nefasto de bons e maus, dependendo da perspectiva de cada um. Cada um com seu ‘Deus’ na barriga, semeando mais ódio e rancor.

  9. Comentou em 20/01/2009 Daniel F. Silva

    Em todas as manifestações pró-palestinas ocorridas no Brasil (e em que geralmente havia atos de vandalismo, como queima de bandeiras e bonecos), existiu ampla cobertura da imprensa. Neste domingo, em São Paulo, houve uma ampla manifestação pró-Israel, com cerca de quatro mil pessoas, comportando-se da forma mais pacífica possível (como, aliás, é a regra em qualquer manifestação pró-israelense). Alguém viu alguma notícia a respeito dela na imprensa? Pois é, nem eu. Ah: mal as tropas israelenses saíram de Gaza, os integrantes do Hamas começaram a perseguir e torturar (inclusive em escolas e hospitais) pessoas ligadas ao Fatah, a quem acusam de espionar para Israel. Querem apostar quanto que nenhum de nós verá alguma nota a respeito disso na imprensa? E ainda tem gente que fala que a mídia brasileira é pró-Israel…

  10. Comentou em 20/01/2009 everaldo keppe

    O leitor atento e que não se prende tão somente as imagens de crianças e mulheres mutiladas pela guerra, principalmente por elas estarem servindo de escudos humanos compreendeu muito bem o que nosso Deonísio Silva quis dizer. Com muita clareza ele está a conclamar os lideres do planeta para que se envolvam cada vez mais nos conflitos,e assim possamos realmente encontrar paz, senão definitiva. pelo menos duradoura.Julgar sem conhecimento é para aquele de índole pouco pacifista. Alargar nosso olhar para além de uma mídia tendenciosa é um ótimo conselho do escritor.

  11. Comentou em 20/01/2009 André Silva

    Metade da Palestina para 1/3 da população (i.é., judeus)! Bela solução apresentada pelo sr. Aranha! Bela p/ os sionistas, mas e os palestinos? Deveriam aceitar tamanha ofensa? É, tem o dedo do Brasil nessa história mesmo. Tem horas que o silêncio é melhor do que falar asneiras, meu caro. E o editor aceitou um texto destes, que se justifica única e exclusivamente pelo jaba? A simplificação da mídia, meu caro Silva, não se combate com simplismos.

  12. Comentou em 20/01/2009 Roberto Ribeiro

    Sim, o artigo não diz nada, absolutamente nada. Que a história não é preto e branco, todo mundo um pouco esclarecido sabe. Que Zumbi ou Tiradentes não eram 100% santos, ou que Gandhi gostava de prostitutas, é cabalmente sabido. Certo, o Hamas não é composto de santos, mas quem disse isso? O pai de Cora Rónai viveu em campo de concentração nazista, ela é uma judia de quatro costados, ninguém melhor para criticar Israel, que faz uma guerra absurda e joga fora a criança com a água do banho. Afinal, o artigo parece apenas querer promover o livro escrito pelo autor (editado na Europa, ora pois pois!) fora isso, nada diz de novidade.

  13. Comentou em 19/07/2007 Nitiayne Mille Takemoto

    Olá.
    Estou fazendo uma matéria para o jornal laboratório da Unesp e preciso de ajuda. A matéria se trata da entrada de capital estrangeiro nos meios de comunicação brasileiros. Preciso de fontes primárias par enriquecer o texto. Se vocês puderem me passar informações ou me indicar uma fonte eu ficarei grata.
    O que preciso é saber a situação atual das empresas que receberam capital estrangeiro, se houve influência em seu conteúdo, se houve benefício para a modernização do veículo.
    obrigada

  14. Comentou em 19/07/2007 Nitiayne Mille Takemoto

    Olá.
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    obrigada

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