Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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INTERESSE PúBLICO >

A quem lamentar pela crise?

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 18/11/2008 na edição 512

Não querendo ser alarmista nem fazendo parte do rol de ‘pregoeiros do pessimismo’, é vital afirmar que existe, sim, uma crise no rádio cearense que se alastra a olhos vistos e traz muita indecisão em relação ao seu futuro. O preocupante quadro se delineia a partir de constatações de anomalias nas mensagens radiofônicas, no processo de concessões e na relação com o ouvinte, que vem sendo cada vez mais diminuta, pois parece que os ‘donos da comunicação’ acham que estes não têm sentimentos, não pensam e não sabem analisar o que se passa no rádio.

Para se ter uma idéia desta crise, em Fortaleza, do total de rádios AM que atuam na cidade, há três monopolizadas quase totalmente pelas redes nacionais. Nós, ouvintes, somos obrigados a ouvir notícias que não têm nada a ver com a nossa realidade e a maioria delas são pasteurizadas e repetidas. Por outro lado, existem também três emissoras dominadas por grupos religiosos que fazem da programação uma linguagem única, desprezando a pluralidade de nosso povo. Será que os umbandistas não têm direito a falar de seus dogmas? Será que os espíritas não podem emitir mensagens? Ou será que instalamos o fundamentalismo no rádio? Os órgãos ligados às comunicações fingem que não há problema em esse ou aquele grupo religioso passar o dia todo colocando suas mensagens, geralmente por pessoas que não são profissionais de rádio, e dogmatizando o povo. Onde está o Sindicato dos Radialistas? Onde está o Ministério do Trabalho? Nessas rádios, temos profissionais?

Profissionalismo e investimento

Por outro lado, vem também cada vez mais se intensificando a prática do arrendamento, onde qualquer um pode falar no rádio desde que tenha dinheiro. Resultado desta prática é que alguns políticos hoje fazem do rádio palanque e dominam a programação. Não é possível que isso continue assim sem fiscalização, sem reação, sem o mínimo de discernimento por parte dos ditos proprietários de emissoras. Hitler, Mussolini, Idi Amin Dada e outros ditadores poderiam ter programas de rádio no Ceará desde que tivessem dinheiro para pagar o horário. Este processo é grave, pois o rádio perde o profissionalismo, o trabalho verdadeiro ou seu papel de fomentador da cultura, da cidadania e dos valores de uma sociedade que quer dizer o que pensa e exigir o que lhe é merecido.

A crise no nosso rádio se avoluma, pois temos também qualidade técnica ruim em algumas emissoras que passam para os ouvintes som inaudível com chiadeira, abafado, e muitas vezes horas de emissora fora do ar por defeito nos transmissores e na própria estrutura das emissoras, onde há casos em que o entrevistado é que tem de ligar para a emissora para falar sobre o tema em questão.

Não é esse o rádio que o povo quer, não é esse o papel das comunicações. Nosso rádio precisa de profissionalismo, precisa de investimento, precisa de reconhecimento da sociedade de seu papel e de cumprimento da lei da concessão pública por uma sociedade melhor e mais justa.

Questionar e agir

Os ouvintes são talvez as maiores vítimas do processo e os mais desrespeitados, pois não podem dizer nada, não podem se organizar, não têm direito a falar dos problemas do rádio, não têm relações com a emissora e são desrespeitados em termos de palavras, mensagens e qualidade técnica. Por que não se criam espaços para o ouvinte dizer o que pensa? Por que não se constrói uma comunicação de dupla face onde o usuário tenha direito a questionar o processo? Há diretores de rádio que dizem que os ouvintes não pagam suas contas… Será que não pagam mesmo?

Há, sim, crise no rádio cearense, mas o pior da crise é que ela é varrida para baixo do tapete, não há consistência no processo de reação, os radialistas não se organizam para questionar, os ouvintes têm posição temerária e simplória e são vítimas de chacota no momento em que se organizam. No meio desta crise, o que constatamos claramente é que o fim do rádio AM no Ceará está próximo, caso não haja uma reviravolta no processo e um processo de decisão em todos os que estejam ligados direta ou indiretamente ligados ao rádio. Não podemos calar, porém temos de ser ouvidos, pois o rádio precisa de questionamento, sim, porém não adianta só questionar, mas agir para que a mudança venha e seja melhor para todos.

Uma força aglutinadora

No processo de crise, não é demais também questionar os Cursos de Comunicação da cidade que desprezam o rádio, não incentivam seus alunos a ocuparem o espaço neste meio de comunicação e lutarem por um meio de comunicação sério, verdadeiro e aglutinador de cidadãos em busca de um mundo melhor. O processo de formação de jornalistas deve enaltecer o papel do rádio, e não transformar numa mera disciplina sem conexão com o real. Há espaços no rádio que poderiam ser ocupados por jornalistas que perdem seus lugares para emissores de palavrão, piadistas sem graça e fomentadores da violência ou utilizadores do rádio como plataforma eleitoreira.

A crise no rádio cearense é resultado de uma crise maior da comunicação, que insiste em não ser democrática e não valoriza seus usuários, que ficam sempre à mercê de interesses que certamente não são seus. A crise existe, o problema é sério e somente uma força aglutinadora de ouvintes, radialistas ou, quem sabe, de concessionários de rádio poderá reverter o quadro e devolver ao povo a comunicação que tem de ser democrática e cidadã.

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Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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