Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A TV pública sem publicidade

Por Leneide Duarte-Plon em 27/10/2008 na edição 508

O big bang do audiovisual francês está em marcha. Foi nesses termos que um jornalista classificou o avanço da reforma do audiovisual apresentada no Conselho de Ministros, semana passada. O projeto qualificado de ‘histórico’ pelo presidente Nicolas Sarkozy visa a suprimir a publicidade dos diversos canais públicos franceses. O texto do projeto vai ser votado no Parlamento em novembro. Entre outras mudanças, a reforma prevê a nomeação do diretor-geral da holding France Télévisions pelo próprio presidente da República.


Na opinião da maioria dos jornalistas, os perdedores com a supressão de publicidade dos canais públicos de TV são os próprios jornalistas e demais profissionais, inseguros quanto ao futuro de seus empregos. Os ganhadores são bem conhecidos: os canais privados, TF1 e M6, que vão ‘herdar’ um volume de 850 milhões de euros de publicidade, computado apenas o período depois das 20 horas. Esse volume de publicidade vai migrar potencialmente, já em janeiro próximo, dos canais públicos para os privados.


O ano de 1987 já havia visto uma primeira mudança no modelo audiovisual francês. Naquele ano, foi privatizado TF1, o primeiro canal a sair das mãos do governo. Neste 2008 o presidente Sarkozy não anunciou mais privatizações, mas lançou seu plano ‘histórico’ que institui, a partir de janeiro de 2009, que os canais públicos não terão mais publicidade depois das 20 horas, e a partir de 30 de novembro de 2011 terão publicidade zero em todos os horários.


De acordo com o Sindicato Nacional dos Jornalistas, o estrago causado pelo governo de Sarkozy ao audiovisual público de rádio e TV, mesmo antes de a publicidade ter sido eliminada, já é considerável ‘por causa dos cortes drásticos que comprometem a qualidade da informação pela supressão de reportagens consideradas muito caras’.


Amigos do peito


No dia da apresentação do projeto ao Conselho de Ministros, na quarta-feira (22/10), a oposição derramou uma avalanche de críticas. A reforma do audiovisual ‘é o início do fim do audiovisual público’, no entender do atual primeiro-secretário do Partido Socialista, François Hollande. ‘Privando totalmente os canais públicos de publicidade, isto é, de recursos externos, estes ficam nas mãos do Estado, o que não é bom do ponto de vista político nem é seguro do ponto de vista financeiro’, avalia Hollande.


Para compensar a perda da publicidade, o governo previu três fontes de financiamento: a manutenção da taxa paga por todos os franceses que têm um aparelho de televisão (redevance), com sua indexação à inflação. Ela pode passar de 116 euros para 118 euros em 2009, mas cobriria apenas uma parte irrelevante dos custos do audiovisual público.


Outra fonte de financiamento virá de uma taxa de 3% cobrada sobre o faturamento de publicidade dos canais privados (estimada pelo governo em 80 milhões de euros) e outra taxa de 0,9% sobre o total dos ganhos das operadoras de telefonia.


Acusado pela oposição de não ter outro objetivo a não ser favorecer o audiovisual privado, cujos patrões são seus amigos do peito, Sarkozy tenta vender sua reforma como uma modernização do panorama audiovisual francês.


Mas suas verdadeiras motivações são insondáveis.


 


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