Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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A vida acima das intenções políticas

Por João Paulo De Luca Júnior em 11/10/2005 na edição 350

No Brasil vive-se a mesma situação existente nos Estados Unidos. Nossos televisores praticamente vertem sangue, tamanha é a permanência deste nos noticiários. O governo, a mídia, e, evidentemente, o marginais, encarregam-se de pregar a cultura do medo para a sociedade. As pessoas dormem todos os dias imaginando quando o ladrão entrará em sua janela e o apunhalará pelas costas. Nesta cultura – implantada diariamente – todos estamos em perigo. E a cada momento surgem novas alternativas para segurança e conforto pessoal: grades reforçadas, câmeras de vigilância de alta tecnologia, et cetera.

Sem saber, as pessoas entram deliberadamente em sua própria jaula, por convicção de que este auto-aprisionamento é a solução para seus problemas. Não é. Armas não matam pessoas. Pessoas matam-se a si próprias. E, para infelicidade daqueles que são contra a venda de armas, estas não matam apenas bandidos. Vão-se também aqueles amigos de anos mortos após uma discussão em partida de futebol; ex-namoradas assassinadas por ciúmes; os filhos tão amados que ao entrarem sorrateiramente em casa de madrugada são confundidos com bandidos.

A grande pergunta é: quem ganha com essa cultura do medo? Ao contrário dos que imaginam que sejam os bandidos, o próprio governo é quem mais ganha com o medo de que o pior estará sempre na próxima esquina e que o caos é iminente. Em discurso, levam a população a crer que uma mudança neste momento representaria recomeçar do zero e enfraqueceria o governo. Noutras palavras, o medo incutido diariamente na sociedade apenas favorece a manutenção do poder para quem já está no poder.

À paz pela guerra

Exemplos reais ilustram melhor do que devaneios argumentativos: inicialmente, basta lembrar que a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu-se graças à convicção da sociedade de que o país poderia regressar ao caos econômico. O pânico social devido ao possível retorno da inflação e a volta das máquinas de remarcação de preços foi a variável que manteve FHC na presidência por mais quatro anos.

Mais recentemente, George W. Bush alarmou quase que diariamente a população norte-americana com a possibilidade de novos ataques terroristas pós-11/9, afirmando ser certo que, caso não fosse reeleito, o país seria constante alvo dos radicais islâmicos e que os cidadãos precisavam de um presidente ‘forte’. Os atentados terroristas ao Pentágono e ao WTC serviram como uma luva aos propósitos de reeleição de Bush.

Para as convicções de alguns, inclusive respeitáveis letrados, de que a proibição da venda de armas caracteriza-se como uma vedação aos direitos constitucionais, apresento apenas uma colocação: a partir de agora será usufruída a verdadeira liberdade.

Acreditar na posse de armar como instrumento de defesa e segurança é como corroborar o pensamento de que é possível chegar à paz pela guerra.

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Jornalista

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