Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > VEJA E O REFERENDO

A vida acima das intenções políticas

Por João Paulo De Luca Júnior em 11/10/2005 na edição 350

No Brasil vive-se a mesma situação existente nos Estados Unidos. Nossos televisores praticamente vertem sangue, tamanha é a permanência deste nos noticiários. O governo, a mídia, e, evidentemente, o marginais, encarregam-se de pregar a cultura do medo para a sociedade. As pessoas dormem todos os dias imaginando quando o ladrão entrará em sua janela e o apunhalará pelas costas. Nesta cultura – implantada diariamente – todos estamos em perigo. E a cada momento surgem novas alternativas para segurança e conforto pessoal: grades reforçadas, câmeras de vigilância de alta tecnologia, et cetera.

Sem saber, as pessoas entram deliberadamente em sua própria jaula, por convicção de que este auto-aprisionamento é a solução para seus problemas. Não é. Armas não matam pessoas. Pessoas matam-se a si próprias. E, para infelicidade daqueles que são contra a venda de armas, estas não matam apenas bandidos. Vão-se também aqueles amigos de anos mortos após uma discussão em partida de futebol; ex-namoradas assassinadas por ciúmes; os filhos tão amados que ao entrarem sorrateiramente em casa de madrugada são confundidos com bandidos.

A grande pergunta é: quem ganha com essa cultura do medo? Ao contrário dos que imaginam que sejam os bandidos, o próprio governo é quem mais ganha com o medo de que o pior estará sempre na próxima esquina e que o caos é iminente. Em discurso, levam a população a crer que uma mudança neste momento representaria recomeçar do zero e enfraqueceria o governo. Noutras palavras, o medo incutido diariamente na sociedade apenas favorece a manutenção do poder para quem já está no poder.

À paz pela guerra

Exemplos reais ilustram melhor do que devaneios argumentativos: inicialmente, basta lembrar que a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu-se graças à convicção da sociedade de que o país poderia regressar ao caos econômico. O pânico social devido ao possível retorno da inflação e a volta das máquinas de remarcação de preços foi a variável que manteve FHC na presidência por mais quatro anos.

Mais recentemente, George W. Bush alarmou quase que diariamente a população norte-americana com a possibilidade de novos ataques terroristas pós-11/9, afirmando ser certo que, caso não fosse reeleito, o país seria constante alvo dos radicais islâmicos e que os cidadãos precisavam de um presidente ‘forte’. Os atentados terroristas ao Pentágono e ao WTC serviram como uma luva aos propósitos de reeleição de Bush.

Para as convicções de alguns, inclusive respeitáveis letrados, de que a proibição da venda de armas caracteriza-se como uma vedação aos direitos constitucionais, apresento apenas uma colocação: a partir de agora será usufruída a verdadeira liberdade.

Acreditar na posse de armar como instrumento de defesa e segurança é como corroborar o pensamento de que é possível chegar à paz pela guerra.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/10/2005 Gustavo Dagostin da Silva

    Como assim ‘a partir de agora será usufruída a verdadeira liberdade’?
    Penso que, acreditar no direito de defender-se da maneira que for adequada a cada um é sim um direito individual inalienável.
    Dá para transportar o conceito dos iluministas para a atual situação. Ele diz: ‘não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defendo até a morte o direito de dizeres’.
    De forma similar, quem não concordar com a auto-defesa armada, que ao menos tolere, porque há pessoas que concordam ou precisam utilizar deste direito, seja qual for o motivo.
    Tem sido um erro, desde o princípio, tratar esta questão como que entre os ‘pró-armas’ e os ‘anti-armas’. O que está em jogo aqui é o direito de auto-defesa (ou, legítima defesa), que deve de fato existir. Quem acha que não adianta se armar para ficar mais seguro, ok, sem problemas! Quem não gostar de armas, pode optar por não tê-las! Só que estes não podem tolher o direito das outras pessoas que acreditam ser capazes de rechaçar ameaças à sua vida e a de seus entes queridos utilizando, por exemplo, armas de fogo.
    Tolhendo este direito, qual será o próximo passo? Proibir o ensino de artes marciais, porque são perigosas? Proibir o uso de facas de cozinha em casa? Outro absurdo qualquer?

  2. Comentou em 11/10/2005 Gustavo Dagostin da Silva

    Como assim ‘a partir de agora será usufruída a verdadeira liberdade’?
    Penso que, acreditar no direito de defender-se da maneira que for adequada a cada um é sim um direito individual inalienável.
    Dá para transportar o conceito dos iluministas para a atual situação. Ele diz: ‘não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defendo até a morte o direito de dizeres’.
    De forma similar, quem não concordar com a auto-defesa armada, que ao menos tolere, porque há pessoas que concordam ou precisam utilizar deste direito, seja qual for o motivo.
    Tem sido um erro, desde o princípio, tratar esta questão como que entre os ‘pró-armas’ e os ‘anti-armas’. O que está em jogo aqui é o direito de auto-defesa (ou, legítima defesa), que deve de fato existir. Quem acha que não adianta se armar para ficar mais seguro, ok, sem problemas! Quem não gostar de armas, pode optar por não tê-las! Só que estes não podem tolher o direito das outras pessoas que acreditam ser capazes de rechaçar ameaças à sua vida e a de seus entes queridos utilizando, por exemplo, armas de fogo.
    Tolhendo este direito, qual será o próximo passo? Proibir o ensino de artes marciais, porque são perigosas? Proibir o uso de facas de cozinha em casa? Outro absurdo qualquer?

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