Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº930

INTERESSE PúBLICO > Polêmicas na internet

A violência contra a mulher nos hashtags natalinos

Por Carlos Marciano em 04/12/2015 na edição 879
Publicado 0originalmente no blog Objethos, em 30/11/2015, sob o título "Quando a simbologia natalina fere o ego"

O natal já dá as caras nas redes sociais, só que dessa vez não é de presentes agradáveis e palavras acalentadoras que vem recheado o saco do Papai Noel, principalmente aos machistas que sentem o ego ferido por não terem sido bons meninos.

Na última semana, para algumas pessoas, as revelações do #meuamigosecreto parecem ter sido um par de sapato apertado, mas essenciais para brindar de reflexões uma sociedade em que reina a desigualdade.

Aproveitando o engajamento do Dia Internacional de Luta contra a Violência sobre a Mulher, instituído em 1999 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e celebrado no dia 25 de novembro, o uso da hashtag #meuamigosecreto visa estimular que mulheres denunciem comportamento incoerentes, machistas ou preconceituosos de pessoas que com elas convivem. Como era de se esperar, o movimento disseminado principalmente por mulheres ligadas ao feminismo cutucou o calo inflamado daqueles que falam o que querem, mas não gostam de ouvir o que não querem.
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Quase sempre atingidos indiretamente pelas palavras, homens e mulheres que compartilham a carapuça tem-se manifestados de duas maneiras significativas. Elas costumam criticar o fato de não serem dados nomes aos bois, caracterizando o movimento como insignificante por não atacar diretamente o acusado. Eles colocam-se como vítimas e não vilões. Reconhecidos nas palavras e imersos em arrogância e preconceito, culpam as mulheres pelos desfechos (principalmente quando os relatos envolvem violência física ou psicológica) e aconselham as adeptas a escolherem melhor suas amizades.

#minhaamigasecreta

A incoerência é outro presente aqui trocado. O posicionamento das mulheres que participam do #meuamigosecreto volta e meia é colocado em xeque por aqueles que se sentem atacados. Vitimizados, salientam que o movimento já passou dos limites, afinal para eles o feminismo já alcançou os objetivos e machismo não existe; estão apenas manifestando opinião contrária.

Ironicamente a manifestação #minhaamigasecreta tem o intuito de contrapor a campanha primária no pressuposto de que vivemos em uma sociedade com liberdade de expressão. Porém os adeptos a ela cometem o mesmo “deslize ético” de mandar indiretas, além de reforçar o “não há machismo” sugerindo frases, atitudes e situações criadas para as mulheres pelos princípios machistas.
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Nesses desdobramentos sobre o #meuamigosecreto o sentimento de revolta e egocentrismo parece falar mais alto que o discernimento, quando alguma palavra ou fato quebra os dogmas particulares até então desconhecidos. O #meuamigosecreto é um dos movimentos que dá voz aos oprimidos pelo racismo, misoginia, LGBTfobia e heteronormatividade, porém tal ponderação não parece ser levada em consideração pelos críticos, obviamente por tais argumentos baterem de frente com seus preconceitos velados.

Em um corpo social onde impera o individualismo, ególatras consideram justo participar do sistema de cotas, estacionar em vagas de deficientes ou sentar nas cadeiras amarelas dos ônibus; independente se caminham normalmente; não sejam idosos ou gestantes; e nunca tenham sofrido preconceito pela cor de sua pele.

Um ambiente igualitário em direitos e deveres, emancipado de credo, raça, sexualidade ou gênero é cada vez mais utópico quando atitudes que pretendem quebrar essas barreiras são vistas como incômodo e não estimuladoras de reflexão. As mulheres não são as vilãs aqui, em uma sociedade opressora e vingativa elas apenas utilizam o #meuamigosecreto para terem voz com um mínimo de segurança. Direito que mesmo no anonimato gera desconforto e processos.
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São atitudes como estas, com a força das palavras e ações, que aos poucos tem fortalecido o feminismo e garantindo um mínimo de direito às mulheres. Como na Árabia Saudita onde nesse último domingo (29/11) candidatas iniciaram as campanhas eleitorais para postos nos conselhos municipais, na primeira eleição[1] em que mulheres poderão votar e serem votadas.

Seja homem ou mulher, ao invés de criticar e menosprezar o #meuamigosecreto, vale mais a pena colocar a mão na consciência e aceitar nossas limitações, corrigir nossas falhas caso vistamos a carapuça de algum post. Existem sim postagens que podem parecer chocantes, mas será que teríamos reparado nelas se fossem relativizadas? Por isso é promissor refletirmos sobre os aspectos positivos que tais apontamentos podem trazer ao nosso crescimento particular e social. Pelo bem da sociedade as mulheres hão de continuar assim, exercendo o poder da palavra e desconcertando os machões com seus pensamentos conservadores e repressores.

Existe anonimato, mas não há ficção. São situações presentes no cotidiano que, na nossa ignorância, tornam-se comportamentos ou práticas machistas ofuscadas. Se essa omissão foi involuntária e uma postagem a despertou, é a chance de pensar sobre o erro e tentar ser uma pessoa melhor. Se foi voluntária e a raiva te consome por você se ver refletido em um post indireto, faz-se crucial rever suas atitudes e pensamentos.

É preciso lutar por uma realidade na qual as meninas possam usar roupas curtas e maquiagem sem risco de serem estupradas, pois os meninos, educados moralmente, compreendem que sexo sem consentimento é repugnante e criminoso. Caso você seja bronco demais para aceitar isso, retire-se a sua existência de vazio e fel, pelo seu próprio bem e de toda sociedade.

Para reflexão:

Dados estatísticos sinalizam que a cada dois minutos, cinco mulheres sofrem agressões no Brasil e o país é o sétimo dentre 84 nações mundiais com mais casos de mulheres mortas. O vídeo a seguir mostra uma câmera escondida colocada para gravar a reação das pessoas diante de uma mulher sendo violentada.

https://www.facebook.com/coerenciafeminina/videos/1025758034132624/

Não deixe uma agressão ser apenas “mais uma agressão”. Disque 180 e denuncie.

***

Carlos Marciano é mestrando e pesquisador no POSJOR/UFSC

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