Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

INTERESSE PúBLICO > ONDAS CURTAS

A Voz da África do Sul, do apartheid à Aids

Por Célio Romais em 31/10/2005 na edição 273

Durante muitos anos, um país discriminou oficialmente os negros. Entre os anos de 1911 e 1994, na África do Sul vigoravam leis que segregavam os cidadãos da raça negra. Era a política do apartheid, palavra que, no idioma africâner, significa ‘separação’. Os negros precisavam mostrar seus passaportes quando buscavam trabalho nas grandes cidades sul-africanas. Relegados aos ‘guetos’, eles não tinham o direito de adquirir terras. O casamento e o sexo entre pessoas de raças diferentes eram proibidos por lei. Cerca de 13% do território da África do Sul eram ocupados pelos discriminados negros, enquanto os outros 87% estavam nas mãos dos brancos.

Neste ambiente, na década de 80, tomei contato com a programação em língua portuguesa da Rádio RSA – A Voz da África do Sul. Eram os tempos em que Pieter Botha presidia o país, eleito pela legenda segregacionista, o Partido Nacional. Em 1984, época em que eu já acompanhava a emissora, a África do Sul impunha a lei marcial, com o objetivo de conter os diversos protestos de negros contra o regime. Alguns países vizinhos, como Angola, viviam o horror da guerra. A possibilidade de implantação do comunismo em solo africano fez com que as grandes potências apoiassem a África do Sul, elevando-a à condição de país-líder daquela região.

O regime sul-africano financiou guerrilhas, como a de Jonas Savimbi, em Angola. Entrementes, um regime racista não tinha a simpatia da opinião pública internacional. Tanto é assim que, em 1986, foram impostas sanções à África do Sul, o que fez com que Botha acenasse com tímidas alterações no regime. Nessa época, uma forma de angariar simpatia no mundo era usar o rádio em ondas curtas. Com certeza, a década de 80 marcou o auge das emissões da Rádio RSA – A Voz da África do Sul. Anos mais tarde, o sucessor de Botha, Frederick de Klerk, no ano de 1990, anunciaria o fim do regime. Em 1992, de Klerk pediu perdão pelo apartheid. Com o pedido de desculpas do então presidente, a emissora de ondas curtas sul-africana deixou de ter objetivo, assim como uma infinidade de estações internacionais que sentiram o fim da Guerra Fria.

As agruras do povo

Nos anos 80, a programação em português da Rádio RSA – A Voz da África do Sul incentivava os ouvintes a escutarem as diversas emissões internacionais em ondas curtas. O jornalista brasileiro Ricardo André apresentava, nas quintas-feiras, o programa Onda Curta. Na pauta, dicas de receptores, como construir antenas e notícias do mundo das ondas curtas. Os clubes de escuta brasileiros participavam ativamente. Na época, eram remetidas prosaicas fitas-cassetes com gravações para o programa.

A grade de programação da emissora incluía espaço para falar dos países africanos, da música, do turismo e do cotidiano daquele país. Além de Ricardo André, trabalhavam na redação em português Zulmira Braga, Paulo Jorge, Ronald Rutter e Maria Eduarda. No ano de 1986, a Rádio RSA transmitia 56 minutos de programação em português, entre 19h e 19h56min, nas freqüências de 6065 e 9580 kHz. Aos domingos, por exemplo, a programação era constituída dos seguintes espaços: Noticiário, Fim de Semana, África Austral e Meditação. Para facilitar o contato com os ouvintes, a emissora utilizava a caixa postal do consulado sul-africano de São Paulo. As correspondências demoravam pelo menos três meses para serem lidas, com muita festa, diante dos microfones, em Joanesburgo. Mesmo que de forma subliminar, era evidente que o objetivo da programação era conquistar a simpatia dos ouvintes formadores de opinião para a causa do governo sul-africano da época.

Com a queda do apartheid e a chegada de Nelson Mandela ao poder, a Rádio RSA – A Voz da África do Sul mudou de nome, privatizou parte de seu parque técnico e direcionou as antenas que sobraram para o continente africano. Atualmente, batizada de Canal África, a emissora ainda transmite alguns programas em português, mas visando os ouvintes de Angola e Moçambique. Com muita sorte, ajuda da propagação e boa antena, a emissora ainda pode ser captada na América do Sul. A programação, no entanto, em vez de falar em turismo e política, aborda as agruras e a dura realidade do sofrido povo africano. A pauta, nos dias atuais, fala do avanço da Aids e das diversas dificuldades que os africanos enfrentam.

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Jornalista; (www.romais.jor.br)

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