Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A saúde nos tribunais

Por Alberto Dines em 30/05/2014 na edição 800

Editorial do Observatório da Imprensa na TV n. 726, exibido em 27/5/2014

A medicina está ajudando a humanidade a chegar bem perto do sonho da imortalidade. Enquanto não a alcançamos, estamos muito felizes com a longevidade cada vez mais possível.

Mas esta maravilhosa medicina está arruinando muitas famílias e, pelo estresse, encurtando a vida de muita gente. O que seria uma dádiva, é hoje maldição. O problema não é apenas brasileiro, é global. Mas, em nosso país, o almejado padrão Fifa em matéria de saúde é uma miragem – mais fácil é conquistar o hexa.

Sob a ótica social, temos dois modelos básicos de medicina: a pública e privada. O nosso SUS, consagrado na Constituição de 1988, graças a uma frente multipartidária de legisladores da linha socialdemocrata, está longe de atender ao grosso da população.

Por outro lado, a medicina privada, que busca a impossível socialização através do mercado de planos de saúde, tornou-se ela própria uma implacável enfermidade. O governo, através das agências reguladoras, procura um equilíbrio institucional entre custo e benefício, enquanto o Ministério Público e as entidades de defesa do consumidor tentam barrar os abusos, mas a realidade é catastrófica: entre dezembro do ano passado e março deste ano registraram-se cerca de 13.079 conflitos entre as empresas e seus usuários. Neste ritmo, o ano terminaria com quase 53 mil ocorrências. Preocupada com esta calamidade, a Agência Nacional de Saúde foi drástica: determinou a suspensão de 161 planos operados por 36 empresas.

E o resto é satisfatório? O Brasil é campeão em número de planos, operados por 1.700. se o atendimento fosse satisfatório, a medicina privada no Brasil ficaria circunscrita aos consultórios, clínicas e hospitais. neste momento, quem cuida da nossa saúde são os tribunais. 

 

A mídia na semana

>> A primeira mulher a ocupar a chefia da redação do New York Times, um dos diários mais importantes do mundo, a enérgica Jill Abramson, de 60 anos, foi demitida depois de apenas dois anos e meio no cargo. Mudança abrupta, algo violenta, ao contrário das trocas solenes e discretas e atribuída a um suposto machismo da direção. Hipótese não confirmada: Jill Abramson era conhecida por decisões arbitrárias, pessoais, sem qualquer preocupação com aqueles que trabalhavam ao lado. Inclusive no tocante ao seu auxiliar imediato, indicado aliás para substituí-la. Dean Baquet, de 57 anos, será o primeiro negro a dirigir a redação mais importante dos Estados Unidos.

>> Dias depois, do outro lado do Atlântico, a história se repetiu: Natalie Nougayrède, 48 anos, primeira mulher-jornalista a dirigir a redação do Le Monde o mais respeitado jornal francês que completou 70 anos, viu-se obrigada a pedir demissão porque 8 dos seus 11 redatores-chefes demitiram-se em protesto contra a política de contenção de custos imposta pelos principais acionistas. No Le Monde, ao contrário do que acontece fora da Europa, a direção do jornal costuma ser escolhida ou sancionada pelo comitê de jornalistas. Natalie caiu por que estava com a redação ao seu lado.

>> Pela primeira vez em 50 anos circula em Cuba um jornal independente e a autora da façanha é a blogueira Yoani Sanchez, que lançou pela internet o seu portal 14ymedio.com. Três horas depois, os cubanos que começaram a acessar o jornal eram remetidos a um site que coleciona textos ofensivos contra Yoani. Foi intensa a reação internacional contra censura imposta pelo Estado cubano ao jornal de Yoani, mas ela confia na força do jornalismo não-partidário, a serviço dos reais interesses da população. Fora da ilha o acesso ao jornal é livre.

>> Best-seller instantâneo nas principais centros financeiros do mundo, um livro de mais de 600 páginas recheado de tabelas não está fazendo muito barulho na França. Ironicamente, o autor Thomas Piketty, professor de economia, 43 anos, é francês. Escreve há alguns anos uma coluna sobre economia no segundo mais importante jornal parisiense, o Libération. E a razão desta frieza é fácil de entender: Picketty é um marxista brando e na França quem faz sucesso são os radicais, de esquerda ou direita. No resto do mundo, os arautos do conservadorismo muito excitados desancam um livro que não apenas atualiza as idéias de Karl Marx como confirma suas teses sobre a inevitabilidade do crescimento da desigualdade no regime capitalista. O Financial Times chegou a apontar erros nos números e cálculos. Paul Krugman, Nobel de economia e ativo jornalista e apoiador de Barack Obama, saiu em defesa do colega francês. O mais surpreendente é a opinião do reacionário e pragmático Wall Street Journal, que considera Piketty um marxista brando que merece ser levado a sério.

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