Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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A última cartada

Por Celso Lungaretti em 19/05/2009 na edição 538

Meninos mimados nos irritam, mas lhes damos um desconto por serem imaturos. Já septuagenários mimados são insuportáveis. Mino Carta acostumou a ver-se como os bajuladores o apresentam, ou seja, algo entre Júpiter Capitolino e um imperador da Roma dos césares.


Então, as evidências de que o caso Cesare Battisti marcha para o único desfecho possível à luz da lei e jurisprudência brasileiras – o arquivamento do processo de extradição movido pela Itália e a imediata libertação do escritor italiano – fizeram Mino Carta perder as estribeiras e até o senso de ridículo: acaba de cometer um artigo, sarcástico na aparência, furibundo na essência, cujo principal objetivo é induzir os leitores a associarem a imagem de Battisti à de Osama bin Laden (‘Asilo político a Bin Laden‘).


Secundariamente, ele desfere o que pensa serem raios, mas não passam de resmungos de mau perdedor, contra o ministro da Justiça Tarso Genro, a quem culpa pelo fracasso de sua cruzada rancorosa.


Guerra particular


Segundo Mino, há uma ‘doutrina, clara e insofismável, a assemelhar profundamente Cesare Battisti e Bin Laden, ambos combatentes de uma causa bélica’. Este sofisma infame o acompanhará ao túmulo, como contraponto aos méritos que acumulou na defesa da liberdade de expressão durante a ditadura militar.


É o simplismo habitual dos caçadores de bruxas: 1) pega-se um demônio; 2) forçam-se comparações fantasiosas entre ele e um ser humano; 3) condena-se o último à fogueira.


Então, como Bin Laden hoje é o estereótipo do terrorista aos olhos do cidadão comum, Mino Carta atropela a verossimilhança para equipará-lo a Battisti, comportando-se como um aprendiz de Maquiavel a aplicar a lógica de Torquemada.


Bin Laden tem o perfil clássico do terrorista. É um cidadão que, exasperado com as matanças infligidas à população civil dos países árabes, resolveu pagar na mesma moeda: ao invés de lutar ao lado do povo, isolou-se numa clandestinidade extrema e foi travar sua guerra particular contra o eixo Israel-EUA.


Delações premiadas


Ao erigir os civis em alvo de uma vingança genocida, Bin Laden fez-se merecedor da execração universal, da mesma forma como deveria ser execrado o terrorista George W. Bush pelos massacres de civis no Iraque (praticados sob falso pretexto, o que o igualou a Hitler no episódio do incêndio do Reichstag) e Afeganistão.


Já Battisti integrou, na década de 1970, um dos aproximadamente 500 grupúsculos de esquerda que pegaram em armas contra o terrorismo da extrema-direita (muito mais letal!) e a aliança espúria do Partido Comunista Italiano com a mafiosa Democracia-Cristã, que levou ao desespero os autênticos revolucionários, ao garantir a sobrevida do capitalismo até onde a vista alcançasse.


Foi um fenômeno político, indubitavelmente um desatino, mas não uma escalada de marginalidade. Assim a Itália o entendeu na época, ao introduzir uma legislação de exceção para combater a subversão contra o Estado (enquanto a tortura grassava solta e impune nos porões, seguindo as pegadas das ditaduras sul-americanas).


E assim reza a sentença expedida contra Battisti em processo de cartas marcadas, sem provas materiais, lastreado unicamente em delações premiadas e com lei aplicada retroativamente para agravar a pena.


Hora de se resignar à derrota


Ao perceber que, face às especificações da Lei do Refúgio brasileira, jamais obteria a extradição de Battisti pelo que ele é e pelo que reconheceu ser ao condená-lo, a Itália tentou mesmerizar os tupiniquins com uma mágica canhestra, maquilando crimes políticos como comuns.


Mino Carta e Wálter Maierovitch engajaram-se de corpo e alma na campanha goebbeliana de satanização de Battisti. Não só deturparam os fatos referentes à sua militância nos Proletários Armados para o Comunismo, como repassaram aos brasileiros as mentiras italianas sobre o passado de Battisti, apresentando como marginal quem era esquerdista desde criancinha, seguindo a tradição familiar.


Agora, vendo seu castelo de cartas ruir, Mino ousa comparar um homem que recuou horrorizado diante das matanças cometidas por seus companheiros a outro, que as considera justificadas pelos objetivos maiores; um homem que depôs as armas há três décadas e desde então leva existência pacata e produtiva, com um guerreiro que jamais desistiu da luta; um homem que desempenhou papel dos mais secundários nos anos de chumbo e só atingiu a notoriedade ao ser erigido em bode expiatório pela Itália, com um dos carbonários que mais impactaram a História em todos os tempos.


Aqueles a quem os deuses querem perder, primeiramente enlouquecem. Mino acaba de atingir o ponto mais baixo da longa carreira. Em benefício de sua biografia, é hora de resignar-se à derrota iminente como o adulto amadurecido que deveria ser, ao invés de continuar reagindo com pirraças de criança mimada.

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Jornalista e escritor, mantém blogs aqui e aqui 

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