Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

INTERESSE PúBLICO > MÍDIA COLABORATIVA

Adeus ao consumidor passivo

Por Gabriel Priolli em 04/02/2008 na edição 471

Notícia importante para a comunicação brasileira vem da mais tradicional das mídias audiovisuais: o cinema. Informa o boletim Tela Viva News que três empresários importantes do ramo – Fabio Lima e José Eduardo Ferrão, sócios da distribuidora de cinema digital Rain, e Marco Aurelio Marcondes, ex-sócio da Europa Filmes – estão abrindo a Moviemobz.com, um site que permite aos cinéfilos escolher os filmes que querem assistir.

‘A plataforma permite que os exibidores programem suas salas de acordo com o desejo de seus consumidores, aumentado a taxa de ocupação’, diz o texto de Fernando Lauterjung. ‘Além disso, é possível explorar os nichos, com a formação de cineclubes virtuais, que podem agendar sessões de filmes específicos. O site será colaborativo, agregando críticas de jornais e as críticas do próprio público, formando assim comunidades interessadas em gêneros e temáticas específicas, diretores, atores etc.’

O site da MovieMobz estará disponível a partir de abril. Nele, o usuário poderá escolher opções dentro de um acervo de filmes já licenciados ou poderá sugerir títulos a serem agregados. Os filmes serão distribuídos exclusivamente por meio digital, usando a rede da Rain, que alcança atualmente salas de cinema em 20 cidades. A garantia de público para as sessões, aliada ao baixo custo operacional da distribuição, são atrativos para os exibidores.

Pouca interatividade

Esse projeto é mais um recado para quem custa a entender o que já é evidente. Neste mundo da internet – que, se não inaugurou, consagrou a interatividade e que, se já não é, tende a ser a mais importante das plataformas de comunicação –, as mídias tradicionais só têm um caminho, para satisfazer plenamente o seu público: torná-lo parceiro na produção e na programação dos conteúdos que veiculam. Foi-se o tempo do mero espectador/consumidor de informação. Agora, as pessoas querem consumir algo em que possam interferir. Querem ser o público e o autor da obra ao mesmo tempo. Querem ver e se ver.

O recado não é novo. Ele ecoa desde o final do século passado, em busca de ouvidos sensíveis, mas vem sendo captado apenas parcialmente pelos dirigentes de veículos tradicionais. Eles implantaram ferramentas de interatividade em seus sites de internet para que o público opine sobre os conteúdos veiculados ou peça alguma coisa: um conteúdo novo, uma mudança editorial, o atendimento a alguma demanda bem específica.

Foram medidas importantes, tanto para a integração entre veículos e consumidores, como para a democratização e a diversidade da informação. Mas hoje são insuficientes porque o nível de interatividade é baixo e, sobretudo, o aproveitamento das contribuições do público no conteúdo dos próprios veículos – e não só de seus sites – é muito limitado.

Fim da unidirecionalidade

Jornais e revistas tradicionais exaltam o ‘jornalismo cidadão’, mas ainda não ousaram abrir suas páginas, decididamente, para os materiais produzidos pelos leitores – muitos deles de alta qualidade, a julgar pelo nível de inúmeros blogs em operação na internet. Uma experiência relevante é a da Editora Abril, que lançou o título Sou + Eu! como ‘a primeira revista 100% interativa do Brasil’, para testar a possibilidade de empacotar conteúdos enviados pelos leitores.

Na televisão, o grau de interatividade a ser atingido é aquele da chamada web 2.0, do qual o portal YouTube é o produto talvez mais conhecido e certamente o mais badalado. Como ele, existem hoje no mundo cerca de 2.000 (sim, dois mil!) sites de compartilhamento de vídeos, onde amadores com câmeras de celular dividem espaço com grandes redes de TV ou estúdios de cinema.

Esses sites já abrigam canais específicos, tanto de empresas quanto de artistas, caso recente de Gilberto Gil no YouTube. Permitem que o usuário selecione o tipo de conteúdo que deseja assistir, montando a sua própria grade de exibição. Liquidam, numa palavra, a velha unidirecionalidade da televisão, com seu arbítrio exclusivo de selecionar o que exibe, implantando o compartilhamento, a colaboração, tanto no provimento dos conteúdos exibíveis quanto na forma de programá-los e veiculá-los.

Atrair ouvintes internautas

A questão, para a TV, é integrar a sua plataforma clássica de difusão unidirecional (por VHF, UHF, cabo ou satélite) a esse novo mundo da produção e do consumo multilateral. A primeira tentativa foi a da AllTV, organizada em 2002 como emissora exclusivamente de internet, que buscou atrair o público da TV a cabo ocupando um canal da TVA. Não teve êxito na operação em duas plataformas e retornou à internet, onde se expande com parcerias dentro dessa mídia.

No ano passado, a Abril Vídeo lançou o canal Fiz TV, anunciando desde o nome a proposta de veicular conteúdos integralmente produzidos pelo público. Aqui, a idéia é unir um ambiente de web 2.0 a um canal de TV. Os vídeos são postados pelos usuários do site, que votam em todos os títulos exibidos. À medida em que sobem no ranking de aprovação e atingem um número substantivo de votos, são programados no Canal Fiz, disponível na TVA e nas plataformas da IPTV da Telefônica e da CTBC.

Também em 2007, a Fundação Padre Anchieta, em São Paulo, seguiu o mesmo caminho. Lançou no início de dezembro o ambiente colaborativo RadarCultura, utilizando-o inicialmente como ferramenta para reposicionamento da Rádio Cultura AM. Com capacidade de transmissão pequena e restrita a uma freqüência estagnada, a emissora tem um público muito limitado, de 3.000 ouvintes/hora nos momentos de pico. Nessa situação, apresenta condições ideais à idéia de atrair os ouvintes internautas para programarem conjuntamente a sua grade, voltada para a música popular brasileira.

Pacotes muito caros

Em dois meses de teste, a audiência do site RadarCultura já é de 1.000 pessoas/dia, que dinamizam a Cultura AM dando sugestões de música, votando nos playlists de programação propostos, enviando podcasts com materiais variados em áudio e fazendo todo tipo de comentário. Esse conteúdo é aproveitado numa faixa de programação que vai ao ar das 20 às 22 horas. Em breve, outras faixas da emissora serão incorporadas a esse esquema, de modo que toda a programação converta-se em colaborativa. A intenção é fazer o mesmo com a Rádio Cultura FM e com a própria TV Cultura, onde o Jornal da Cultura já tem diálogo com o público do RadarCultura.

Nas grandes redes comerciais, a janela da programação colaborativa vai se abrindo aos poucos, mas as perspectivas são imensas. Basta ver o quadro ‘Boleiros do Fantástico’, um sopro de frescor na veterana revista dominical da TV Globo. Lances espetaculares de craques amadores, assim como as jogadas bisonhas dos pernas-de-pau, são postados no site do programa e veiculados semanalmente na TV, com grande interesse do público. O cidadão comum mostra que é muito bom na produção de ‘lances da rodada’. Imagine-se o que pode fazer em show, humor, reportagem, dramaturgia, se a televisão abrir espaço para ele.

Dissonante mesmo, nesse contexto, é a televisão por assinatura, que não chegou sequer ao estágio de permitir ao assinante que programe o seu próprio ‘cardápio’ de canais. O interessado tem de optar entre os pacotes oferecidos, que são evidentemente montados a partir das negociações entre as operadoras e os programadores de canais, sobretudo os estrangeiros. Ocorre, então, que o consumidor paga por um bom número de canais a que jamais assiste, porque não o interessam, e deixa de assistir outros tantos, que não estão incluídos em seu pacote. Para ter acesso a tudo, tem que assinar o pacote mais caro, num mercado em que mesmo o pacote básico está acima dos padrões internacionais e da disponibilidade financeira de muitos brasileiros.

Quem viver, verá

Mas é exatamente o contrário disso que sustenta a inacreditável campanha institucional produzida pela entidade de classe do setor, a ABTA, em combate ao Projeto de Lei 29/07, do deputado Jorge Bittar (PT/RJ). Esse PL quer obrigar as operadoras de TV por assinatura a carregar, em seu line-up, 50% de canais com conteúdo nacional, impondo ainda que todo e qualquer canal, brasileiro ou estrangeiro, veicule no mínimo 10% de conteúdo nacional. A medida atende plenamente o desejo do público, que anseia por ver mais Brasil na TV paga.

Para um setor que é refém dos programadores estrangeiros, entretanto, isso é inaceitável. As peças publicitárias da ABTA dizem que, se aprovado o PL, ‘não será mais você quem vai escolher a programação da sua TV por assinatura’, como se o público, de alguma forma, participasse dessa escolha. Pedem que o assinante ‘não deixe que prejudiquem a sua liberdade de escolha’, como se ela existisse. E concluem com slogan tão peremptório quanto falso: ‘Eu pago, eu escolho o que quero assistir na minha TV por assinatura’. Numa hora dessas, onde está o Conar para julgar tão evidente caso de propaganda enganosa?

Ainda que na TV paga ele seja desdenhado e até ofendido em sua inteligência com uma campanha dessas, o telespectador quer participar. Quer menos prostração na poltrona e mais interação no controle remoto. A TV digital reúne as condições técnicas necessárias para que o incremento da participação do público. Basta que seja introduzida nela a interatividade que o governo e as grandes redes prometeram, e que da qual só se ouve falar nos discursos ufanistas e na publicidade cor-de-rosa.

Mídia colaborativa é o futuro e ele já começou. Quem se atrasar, vai perder. Quem não acreditar, vai rodar. E quem viver, verá.

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