Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Agência Carta Maior

03/05/2008

CANADÁ
Flávio Aguiar

Jornalistas em guerra no Canadá, 23/4

‘Caros leitores, caras leitoras, estou de volta ao pago. Digo isso porque, tirante o Rio Grande, Porto Alegre e o bairro do Gasômetro, meu pago é a Carta Maior. Peço desculpas pela longa ausência, devida a questões de natureza particular, mas agora, depois de mês e meio, retomo a presença.

Neste mês e meio, como o mundo mudou! O Paraguai não é mais aquele! Resgatou a dignidade nacional, com a eleição de Fernando Lugo à presidência. É uma derrota para o Partido Colorado, no poder desde 1947? Não só. É uma derrota para os que humilharam o Paraguai na Guerra Grande, (como lá é conhecida a por nós chamada ‘Guerra do Paraguai’), sobretudo nós, do Brasil, matando a grande maioria de sua população masculina. (É verdade, devo dizer, que não tenho a menor simpatia por Solano López, que revelou-se um tirano que conduziu seu país a um beco sem saída. Mas isso não justifica a matança que por lá se fez).

É uma derrota para os que clamam contra os ‘regimes populistas’ que se espalham pela América Latina. É uma derrota para os que se envergonham, na mídia brasileira e fora dela, por sermos ‘latino-americanos’. É uma vitória para o povo, em todas as latitudes e longitudes da América Latina. A antiga ‘América Latrina’ está se tornando o palco de uma discussão mundial, e a partir dela mesma, aquela sobre quais serão as transformações no pensamento libertário e na prática de libertação no século XXI. Além do mais, é a primeira vez que um bispo da Teologia da Libertação é eleito presidente de um país.

Isso tem uma dimensão milenar: é uma derrota para Ratzinger, para João Paulo II, para Pio XII, para todos os dignatários da Igreja Católica que traíram a mensagem libertária dos evangelhos, é uma vitória para João XXIII, para Paulo VI, para João Paulo I. Mas é sobretudo uma vitória para o povo paraguaio, para os humilhados guaranis do continente. Em algum lugar do céu estelar, Sepé Tiarajú deve estar sorrindo para Fernando Lugo.

Mas neste retorno – estou de volta a Berlim, onde passo a residir – o que me chamou mais a atenção (além dos dramas entre Hillary Clinton e Barack Obama, sobre que escreverei mais tarde) foi tomar conhecimento através do jornal Libération do drama pungente e heróico de 252 jornalistas do ‘Journal de Québec’, no Canadá.

O drama é exemplar. Há um ano atrás, em 22 de abril de 2007, em meio a uma negociação (ou conflito…) laboral, a companhia proprietária do jornal, um dos mais importantes do leste do Canadá, simplesmente fechou o jornal (para depois reabri-lo) e despediu os 252 jornalistas que nele trabalhavam.

A companhia chama-se Quebecor World Inc., e é uma das três maiores companhias impressoras e midiáticas do mundo. Tem entre suas asas a TVA, a Sun Media e a Videotron. Opera 111 companhias de mídia e impressão em cerca de 20 países do mundo distribuídos em três continentes. No Brasil, tem uma planta em Recife, onde imprime (ou imprimia) Veja, por acordos com a Editora Abril, e adquiriu a Gráfica Melhoramentos SA, em S. Paulo.

A Quebecor, além dos acordos com a Abril e outras empresas brasileiras, tem um parentesco a mais com o Brasil. É um grupo (no caso, depois da sua fusão com a World Color Press, de alcance mundial) de natureza e controle familiar. Seu fundador foi Pierre Péladeau, um empresário canadense do tipo self-made man, descrito como intuitivo, impulsivo, nascido em 1925 e que a partir de um pequeno jornal – o Journal de Rosemont – foi montando uma cadeia de jornais baseada na oportunidade do tablóide, entre eles o Journal de Montreal e Journal do Quebec.

Além disso, Papá Péladeau tratou – sabiamente – de verticalizar a produção de seus jornais. Nasceu daí a diversificação de seu empreendimento, adquirindo companhias produtoras de papel e gráficas impressoras. Em 1997 Pierre Péladeau faleceu, e o controle de sua empresa, a já gigante Quebecor, passou para o filho, Pierre Karl Péladeau. Mais ou menos como as coisas se passam nas oligarquias jornalísticas do Brasil.

A Quebecor, através de seus executivos, tornou-se uma das lideranças ideológicas da ‘desregulamentação’ das leis de comunicação no Canadá, pregando a abertura dos mercados do setor a grandes investidores internacionais em nome da ‘liberdade’ de escolha e de consumo.

Os negócios cresceram enormemente. Mas houve problemas. Em 2006, em Recife, no Brasil, os trabalhadores conseguiram através de uma greve e da ocupação da companhia impressora – apoiada por sindicatos internacionais de trabalhadores da Quebecor – melhores condições de trabalho.

Mas agora, o que terá levado a grande empresa a essa posição de intransigência diante de seus 252 trabalhadores? É difícil dizer. Pode ser uma questão de ‘dar exemplo’ para o mundo (e para Recife). Mas pode ser também que isso se deva a dificuldades internas da própria empresa, uma vez que no começo de 2008 ela recorreu à LACC (Lei dos Acordos com os Credores) do Canadá para se proteger de suas dívidas e eventuais processos.

A surpresa ficou por conta dos 252 trabalhadores jornalistas. Ao invés de se engavetarem esperando uma solução burocrática ou judicial, eles… fundaram um jornal alternativo! É o Media Matin Québec, com 70 mil exemplares distribuídos gratuitamente, que vem fazendo concorrência ao jornal patronal, que é publicado reproduzindo matérias dos jornais associados à cadeia. A iniciativa só deu resultado, é claro, graças a coisas em desuso, ou seja, a solidariedade dos demais sindicatos, federações e trabalhadores, que ajudam a sustentar o jornal e os trabalhadores em luta, ou em guerra.

Vale assinalar que no Brasil temos exemplo histórico no setor – o ‘Jornal dos Tipógrafos’, fundado em 1858 no Rio de Janeiro, por trabalhadores do setor despedidos da ‘grande imprensa’ depois de uma greve – a primeira que houve no país. O Jornal dos Tipógrafos durou três meses, mais ou menos. O do Canadá já dura um ano. Os tempos se amelhoram.

Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.’

 

 

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