Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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INTERESSE PúBLICO > CONFERÊNCIA DO CLIMA

Ainda um assunto marginal

Por Luciano Martins Costa em 08/12/2012 na edição 723

Comentário para o programa radiofônico do OI, 7/12/2012

Os principais jornais brasileiros dão pouca atenção à 18ª Conferência do Clima, que se realiza em Doha, no Qatar. Os três maiores diários considerados de circulação nacional mandaram repórteres para cobrir os debates e as deliberações, mas o noticiário tem obtido pouco destaque nas edições da semana. Além disso, os editores voltaram ao antigo vício de isolar o material sobre a questão ambiental bem longe do noticiário sobre economia e política, que são as matrizes por onde devem passar as decisões governamentais e empresariais que podem ajudar a minimizar o efeito das mudanças climáticas.

A marginalização do tema em cadernos e seções gloriosamente intituladas “Vida”, “Ciência e Saúde” ou “Planeta” contribui para manter esse desafio longe do noticiário sobre os centros de decisão.

Sobre o Brasil, ficamos informados da boa repercussão obtida pelos relatórios que mostram a redução do desmatamento na Amazônia e o cumprimento, por parte do país, do compromisso da meta voluntária de diminuir as emissões de gases nocivos entre 36,1% e 38,9% até 2020. Também foi noticiado, por exemplo, que a Noruega vai contribuir com o equivalente a cerca de R$ 180 milhões para programas de preservação da floresta tropical brasileira. Essa ajuda foi acertada em 2008, e o dinheiro vai sendo liberado conforme o país demonstra seu esforço para reduzir o desmatamento.

Falta amarrar

O conhecimento de certos mecanismos de financiamento das ações ambientais ajudaria empresários e outros cidadãos a tomarem consciência do problema. No entanto, o noticiário separa os relatórios sobre a preservação da floresta de outros assuntos correlatos, o que certamente reduz a compreensão de muitos leitores sobre a relevância da questão ambiental, de maneira mais ampla.

Para buscar uma visão mais próxima da complexidade do grande desafio contemporâneo, os leitores precisariam acompanhar os relatos das redes de ativistas, que cobrem o evento com grande riqueza de detalhes.

Mas, devido a certas especificidades típicas do próprio tema, que inclui o uso de expressões e siglas ainda pouco conhecidas, também a leitura desse material mais detalhado não é capaz, por si só, de revelar a abrangência do problema ambiental.

Assim, entre a abordagem genérica da chamada grande imprensa e as questões específicas analisadas por ativistas e especialistas nos meios digitais, o cidadão comum que não acompanha atentamente a evolução das conferências sobre o clima nem tem conhecimento dos acordos prévios e posteriores a esses eventos, segue no escuro. No máximo, acaba declarando seu apoio a medidas de defesa do meio ambiente porque isso lhe parece politicamente correto.

Falta ao conjunto do noticiário uma amarração que aproxime a questão ambiental dos grandes temas da imprensa, em geral política e economia. Essa convergência só acontece nos momentos de grandes catástrofes como inundações e tempestades, quando a imprensa consegue mobilizar um grande número de pessoas pela emoção.

Lágrimas viram notícia

Nesse contexto, é interessante observar como a maioria dos jornais destacou, nas edições de sexta-feira (7/12), a cena protagonizada pelo chefe da delegação das Filipinas na conferência de Doha, Naderev Saño, que chorou ao descrever os efeitos de um tufão que matou cerca de mil pessoas, deixando 250 mil desabrigados em seu país nesta semana.

A voz embargada de Saño calou os delegados que debatiam na última sessão plenária e certamente sua imagem e seu discurso emocionado cobrando a extensão do Protocolo de Kyoto e medidas concretas de defesa contra as mudanças climáticas vão se transformar em sucesso imediato nas redes sociais.

Sua imagem já estava no Youtube antes de se encerrar a sessão.

Esse episódio ilustra bastante bem como a imprensa, de modo geral, induz a uma abordagem emocional e pouco racional à questão do meio ambiente.

O Estado de S.Paulo, um dos jornais que relatam o desabafo do representante das Filipinas, traz reportagem sobre o tufão que atingiu aquele país, no primeiro caderno, com mais destaque do que o que é dado à cobertura da conferência do clima.

As vozes dos céticos que tentaram desmoralizar os cientistas que alertaram o mundo para a gravidade e urgência da questão ambiental já não contam com o mesmo espaço de antes nos jornais. Mas a imprensa ainda está longe de entender a importância desse tema.

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