Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

INTERESSE PúBLICO > INFOCOMMODITIES

As commodities modernas que se reproduzem

Por Nilson de Carvalho Lattari em 14/08/2007 na edição 446

Commodities são produtos básicos, necessários à nossa vida. Atualmente, o mercado que as opera extrapola a imaginação e em seu comércio inclui-se até o ar que respiramos: o mercado de carbono. Basicamente, um mercado que está calçado no tema: os outros poupam e nós podemos respirar.

Se procuramos ar para sobreviver, também procuramos a informação para entender o mundo em que vivemos. Por esse motivo, ela é também uma commodity, também básica à nossa existência: a infocommodity. Tem o seu embasamento temático: informe-se do nosso jeito e garanta nossa sobrevivência.

A verdade liberta. Resta saber se a verdade que vai libertar é aquela que nos interessa para continuarmos no mundo em que estamos.

Produtos se alternam em novidades. Produzimos, hoje, velozmente, tudo que necessitamos. No entanto, essa velocidade pode ser prejudicial para uns e libertadora para outros. A velocidade se torna importante na infocommodity, principalmente a sua disseminação, a sua reprodução. Em muitos casos, um estoque delas é a garantia de negócios ou trocas futuras e sua reprodução, longe do layout original, se torna pirataria, contrabando, negócio escuso – como qualquer mercadoria que tem um proprietário, mas a sua qualidade está de acordo com os interesses dele, e não do consumidor.

‘Soluções’ e ‘culpados’

Diferentemente dos outros animais, o homem não utiliza os instintos naturais para sobreviver e se sobrepor ao oponente. Ao contrário dos animais, o homem não combate seu semelhante usando as armas naturais que lhe são dadas – o favorecimento genético da força, que faz com que sobreviva aquele que é mais forte e pode liderar e garantir a sobrevivência da espécie.

O homem, mais do que qualquer outro animal, não utiliza as táticas permissíveis. Ele utiliza mais do que nunca a burla, o engodo, a mentira, as fraquezas do outro, basicamente informações para o exercício do seu poder e do seu território.

A melhor tática para a manutenção desse poder e desse território é a tática do medo, a tática da desesperança e do desconforto. Para isso, é necessário o convencimento, a falta de alternativas, o estado geral de que as coisas não estão no rumo certo por algum motivo.

É precisamente nesse ponto que a tática do medo funciona porque começam a se apresentar as ‘soluções’ e, principalmente, os ‘culpados’. Afinal, quando as coisas não funcionam, perguntam-se todos quem foi o idealizador daquilo tudo, quem foi o responsável para que tenhamos chegado até aquele ponto. O instinto natural é acordado e o líder é questionado como o garantidor da espécie.

Boatos e fatos

Nunca a sociedade se pergunta os motivos que levaram à sucessão de acontecimentos e qual o seu grau de responsabilidade. A culpabilidade de alguém é o motivo, a razão, a panacéia das soluções. E, cada vez mais, as infocommodities se alternam na qualidade e na forma de apresentação, como garantidoras da ordem. E quem é capaz de organizá-las, ou se arvora como? O seu dono.

A prateleira de opções que se oferece no infomercado vai ao gosto variado do freguês e as infopromoções se dividem na apresentação do folheto explicativo. As manchetes, em chamarizes sofisticados, clamam pela atenção do consumidor, confundindo o foco de atenção numa razão inversa da política de venda tradicional dos produtos.

A colocação da infomercadoria obedece aos requisitos da época do plantio e, é claro, à produção da colheita, como qualquer commodity.

Na razão inversa do mercado futuro de opções, as infocommodities têm o foco na vantagem da compra mais cara e da venda mais barata.

O lucro da operação está na expectativa que se desencadeia. O mercado tradicional se ambienta no boato e realiza no fato. O infomercado se ambienta no fato e realiza no boato.

O especulador desse mundo

Na manipulação da commodity tradicional, a venda ao consumidor se baseia na intenção de criar necessidades e, dentro delas, as reproduções atendem aos mais diferentes requisitos de uma mesma necessidade. Ela atende ao cidadão de primeira, segunda e terceira classe, com produtos tipo 1, 2 ou 3. E o gestor de todo processo mercadológico é a propaganda e a reprodução das imagens, ininterruptas, de forma a criar no inconsciente do consumidor o atendimento a uma necessidade que não percebera.

O mesmo mecanismo opera no mercado da commodity moderna. A infocommodity é um produto com conteúdos diferentes para uma marca final igual. Ou seja, as várias maneiras de se vender a mesma coisa. Despertar a necessidade e vender a solução.

No mercado da infocommodity, a reprodução se faz com a linguagem da repetição. Essa reprodução incessante, cada vez mais num ambiente competitivo de opiniões – um bombardeio tenaz sobre o fato, de forma a que o cruzamento de informações, muitas vezes inadequadas, despropositadas, metafóricas, traduzíveis para as diversas faixas de consumo, fora de contexto, permita que a reprodução se faça pelas esquinas, ocasionando um festival de interpretações que desfavoreça o aparecimento do verdadeiro objeto do desejo: a verdade.

De forma tal que esta mesma verdade se torna mais uma reprodução dela mesma, diluída, que perde a sua aura ritualística, gerando o personagem especulador desse mundo: o oportunista.

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Aposentado, pós-graduado em Estudos Literários, Juiz de Fora, MG

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/08/2007 João Peçanha

    Até que ponto esse bombardeio de informações não constitui instrumento ideológico? Afinal de contas, uma das formas de a ideologia falsear uma realidade é saturar o real com as informações que deseja que se pareçam com ele. Nesse sentido as infocommodities poderão ser objetivo a ser alcançado por qualquer governo do mundo…

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