Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 10 E 11/11

Carta Capital

13/11/2007 na edição 459

MUTUM
Ana Paula Sousa

‘Esse troço de cinema é o quê?’

‘Mutum, em cartaz a partir da quinta-feira 15, é um filme-processo. Até por isso, conhecer sua feitura é também uma forma de compreender a história árida e silenciosa que tem o sertão mineiro como paisagem e voz. Para transformar em cinema o verbo de Guimarães Rosa, a diretora Sandra Kogut foi quase expedicionária. Na estréia na ficção, ela agarrou-se à pesquisa, que conhecia dos documentários (como Passaporte Húngaro), e deixou o real penetrar no filme de maneira radical.

O trabalho de adaptação do conto Manuelzão e Miguilin só começou a tomar forma quando Sandra, acompanhada da roteirista Ana Luiza Martins, partiu para o norte de Minas. Levando o filho ainda bebê a tiracolo, ela correu cidades e roças durante seis meses a matutar o seguinte: aquela história seria possível hoje?

‘O propósito não era etnográfico, mas de absorção de um espírito, de um modo de viver. Chegando lá, vi que um certo sertão do Guimarães segue existindo’, diz. Para captar esse sertão quase à maneira do neo-realismo italiano, Sandra uniu atores profissionais, como João Miguel, a moradores locais. A primeira e mais difícil escolha era a do menino protagonista. ‘Fizemos uma lista de todas as escolas do norte de Minas. A algumas, só a cavalo se chegava. Conversamos com mais de mil meninos. Desses, 25 participaram de oficinas preparatórias na cidade de Santa Maria, à beira do Rio São Francisco.’

Entre eles, estava Tiago da Silva Mariz, ator principal de Mutum. ‘Eu precisava de um menino sensível, introspectivo, mas que fosse aberto o suficiente para fazer um filme. O Tiago mora num lugar muito parecido com o do filme. Lembro que o pai dele falou: ‘Tá bom, ele faz, mas esse troço de cinema é o quê?’ A primeira vez em que Tiago entrou num cinema foi no Festival do Rio, de onde o filme saiu premiado. Antes de chegar à sala, Sandra perguntou como ele imaginava o cinema. ‘Uma casinha’, respondeu o menino com seu olhar de suave espanto e a fala encolhida que, no filme, às vezes dificulta o entendimento.

‘O sotaque da roça me preocupou. Mas a gente tinha uma situação híbrida, de ficção e documentário. Quando trabalhamos com não-atores, o resultado é uma mistura do que eles são com o que eu quero’, diz Sandra. No sertão das carências materiais e das longas estradas que separam os sonhos do mar, filme e vida viraram uma coisa só. Vêm daí a delicadeza e, ao mesmo tempo, a aridez de Mutum.’

 

MÚSICA
Pedro Alexandre Sanches

A babel de Brown

‘Um dos rumores que se espalham sempre que Carlinhos Brown lança um disco é o de que as letras do cantor, compositor e ritmista baiano não fazem sentido, não dizem coisa com coisa. Ele, de fato, gosta de usar onomatopéias, dialetos, expressões em iorubá, idiomas misturados, signos do candomblé, nada facilmente decifrável. Concebido numa babel simbólica e geográfica, o novo A Gente Ainda Não Sonhou foi bancado pela Sony BMG espanhola, e chega ao Brasil com alguns meses de atraso, pela Som Livre.

O repórter pergunta do que fala a canção Aroma da Vida, que mistura signos católicos, muçulmanos, africanos. ‘Fiz para minha mãe, Madalena. ‘Aromadá’. O apelido dela é Madá’, explica, de seu jeito peculiar. Sobre Te Amo Família, revela quem é tia Nazaré (‘ela trabalha com Marisa Monte, é a segunda mãe dela, é muito tia’), mas mantém segredo sobre os outros personagens citados na letra, tio João José e tia Salomé.

Marina dos Mares não foi feita para Dorival Caymmi, mas, quando Brown descobriu que foi feita no dia do aniversário do patrono baiano, converteu-se em homenagem automática. ‘O mar gera o samba, a nação e a comida’, espreita uma explicação. E fala sobre o uso da ‘língua’ do candomblé: ‘A única herança ancestral que nós, negros, temos é a dos orixás. Fora isso, não temos nenhuma. Se alguém não tem herança aqui no Brasil somos nós’.

Conta que, para lançar o disco no Brasil, teve de passar por ‘disciplinas’: ‘Fiz media training, instruído pelas lideranças das gravadoras, que são muito sérias. Rapaz, os caras estão ajudando, é legal’. A quem interessar possa, media training é uma espécie de breve curso em que jornalistas contratados ‘ensinam’ o entrevistado a enfrentar a imprensa.

Aparentemente, o tiro saiu pela culatra dos treinadores, pois Brown está mais Carlinhos do que nunca. Responde assim sobre a ligação umbilical entre a música baiana mais populista e a era Antonio Carlos Magalhães: ‘A mídia está toda no Rio e em São Paulo. Quando um baiano defende um dos nossos, o ACM ou outro qualquer, é mais cultural, familiar. Em São Paulo, o cara defende o Maluf’.

Seja compreendido ou não, caracteriza as letras que cria como essencialmente afetivas. Ali, a língua é apenas detalhe, efeito rítmico, ‘um instrumento sonoro’. ‘Vou juntando, pode dar momentos emocionais fortes ou pode ninguém entender nada. O que gosto muito é que as músicas mais tontas são as que o pessoal mais canta. E cada um canta do jeito que quer, é tão legal, tão dadaísta.’

Um assessor intercepta a ligação telefônica, à moda habitual entre astros pop planetários, e avisa que o tempo está esgotado. Brown finaliza, bem particular: ‘Sugiro férias coletivas para músicos no Brasil. Para fazerem letras e músicas lindas. Negócio de show e disco está muito… diferente, né?’’

 

TECNOLOGIA
Felipe Marra Mendonça

Software livre, e também móvel

‘O público espera aplicações para celulares tão simples de usar quanto as ferramentas de busca na internet ©Montagem sobre imagem de Photos.com A chegada do Google ao mundo dos celulares foi anunciada na segunda-feira 5 e provocou uma reação semelhante ao lançamento do iPhone alguns meses atrás. A causa de tanto frisson não é o tão esperado ‘gPhone’, mas um sistema operacional aberto para telefones celulares chamado Android.

A mudança que a empresa criou desde a sua entrada na internet faz parte desse fascínio. O usuário comum espera uma experiência descomplicada ao utilizar os serviços do Google, a começar pelo sistema de busca. A frustração que muitos sentem ao usar um celular explica a expectativa sobre o que os mesmos engenheiros podem fazer com a experiência de utilizar o telefone móvel com o Android.

Ele é desenvolvido em grande parte pela gigante americana, mas tem o apoio de companhias como LG, Motorola e Samsung, e de operadoras como Telefónica, Telecom Italia e a japonesa DoCoMo. As empresas integram a Open Handset Alliance, também lançada no mesmo dia.

O Android é importante pelo que representa para o mundo dos celulares. Existem dois caminhos para criar funcionalidade para usuários. Um é utilizar programas externos, o outro é chegar ao consumidor por meio do navegador presente no aparelho.

Os aplicativos precisam ser baixados on-line e, geralmente, são pagos, com o benefício de funcionar exatamente como os desenvolvedores planejaram. Por outro lado, só os consumidores que possuírem o aparelho certo e o sistema certo podem fazer uso das vantagens dos programas.

A via dos navegadores é mais simples. Qualquer usuário que tenha um telefone com acesso, mesmo que rudimentar, à internet pode acessar o site que contém a função requerida. Nesse caso, a simplicidade torna-se um problema, já que os programadores criam algo pensando num aparelho que tenha os requisitos mínimos para tudo funcionar corretamente. Os usuários que possuem celulares mais poderosos acabam tendo a mesma experiência de quem comprou um telefone básico.

O Android, por ser um sistema operacional de uso livre, pode ser utilizado por qualquer companhia. Assim os desenvolvedores têm mais liberdade para criar programas que rodem em vários aparelhos da mesma maneira, com a mesma experiência para todos os usuários. Um kit para desenvolvimento de software para a plataforma vai ser lançado no dia 12 de novembro e deve facilitar muito o trabalho de quem quiser criar programas para ele.

O curioso é que qualquer companhia ou operadora que adotar o Android como sistema operacional pode lançar um celular bloqueado com ele – exatamente por ser um sistema livre. Durante o lançamento do sistema, o diretor de desenvolvimento, Andy Rubin, e o CEO do Google, Eric Schmidt, disseram que essa possibilidade é factível, ‘mas altamente improvável’, visto que um celular bloqueado frustraria as expectativas de muitos consumidores.

O fato é que poucas companhias querem gastar o dinheiro necessário para desenvolver um sistema operacional proprietário, como fazem a Apple, para o iPhone, ou a RIM, com o Blackberry. Seria bem mais fácil seguir a rota delineada pelo Linux no mundo dos computadores, e é isso o que o Android promete.’

 

DANIEL DANTAS
Carta Capital

Tudo em benefício do orelhudo

‘Na Itália e no Brasil, começou a campanha para tirar Daniel Dantas do buraco Para desvendar o mistério talvez valesse recorrer ao comissário Maigret, a Poirot, a Nero Wolf, sem falar de Sherlock Holmes. Por que neste exato momento as duas semanais de informação italianas voltam a falar da operação de espionagem montada pela Telecom Italia no final da gestão de Marco Tronchetti Provera?

Segundo a edição de Panorama da semana passada e de L’Espresso desta, surgem duas novidades. Uma, o esquema de espionagem transpôs as fronteiras da Península e invadiu o Brasil. Outra, a Telecom Italia teria cuidado de azeitar as negociações relativas à permanência da Tim no País, graças a um sistema de propinas sabiamente distribuídas entre autoridades nativas. Citados especificamente deputados da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara.

Há poucas edições, CartaCapital publicou uma entrevista com Angelo Jannone, um dos responsáveis pelo setor de segurança da companhia no Brasil, na qual ele nega o pagamento de propinas a autoridades e policiais brasileiros. Na terça 6, Jannone foi colocado em cárcere domiciliar pelos promotores milaneses que prosseguem na apuração do caso.

Histórias intrincadas, que dizem muito sobre o método de atuação escolhido por executivos da operadora italiana, mas, como de costume, usadas no Brasil não para esclarecer os fatos e sim para embaralhá-los. Há método e objetivos claros na confusão. O principal deles? Fazer valer a tese de que todos os desmandos e, por que não, crimes cometidos pelo banqueiro Daniel Dantas foram uma ficção armada pela Telecom Italia, em conluio com autoridades, políticos e empresários brasileiros, com o único intuito de prejudicar o dono do Opportunity. Dantas, o perseguido, eis a imagem que se pretende criar. E ela não tem limites. Quem sabe fosse esta a chave oferecida pelos investigadores acima citados para aclarar a situação.

Segundo a teoria, também estariam envolvidos na trama integrantes do Ministério Público, policiais federais e até um juiz da corte das Ilhas Cayman (atenção, o nome do magistrado é Kellock e não Kellog), onde o Opportunity perdeu todas as ações contra o empresário Luís Roberto Demarco, principal desafeto de DD. Toda essa engrenagem funcionaria à base de propina.

De forma consciente ou não, de maneira interessada ou não, jornalistas nativos contribuem para obscurecer os fatos (Dantas agradece). A começar pela quase completa omissão, na reprodução recente dos acontecimentos na Itália, do fato de Nahas ter sido apontado, na Panorama, como um intermediário de propinas a parlamentares. Incrivelmente, os textos publicados aqui conseguem falar da suposta operação sem mencionar Nahas, um dos personagens centrais da reportagem da revista.

Compreender o papel do investidor é essencial para iluminar a estratégia dantesca. Até a ascensão de Tronchetti Provera ao comando da Telecom Italia, os italianos viviam às turras com Dantas. A partir deste momento, e com a intermediação de Nahas, a Telecom começou a se aproximar do banqueiro brasileiro. Em 2005, a operadora de telefonia comprometeu-se a pagar cerca de 1 bilhão de reais pelas ações do Opportunity na Brasil Telecom. O acordo foi desfeito um ano mais tarde. Ainda assim, Dantas embolsou 50 milhões de euros para encerrar as inúmeras pendências judiciais entre as partes (o que, como se viu depois, ele não tinha poder para fazer). Nahas, intermediário, teria embolsado 25 milhões de reais na transação.

O investidor não gosta muito de ver essa relação exposta. Irrita-se, faz ameaças. Na quarta 7, por exemplo, após ver a história da Panorama relatada no Blog do Mino, enviou uma correspondência ‘confidential and personal’, na qual ameaça o diretor de redação deste modesto semanário com ‘medidas judiciais cabíveis’. Por que Nahas está tão nervoso?

E Daniel Dantas? Ele continua alvo de investigações que pouco ou quase nada têm a ver com os crimes cometidos pela operadora multinacional (à parte as semelhanças de estilo em lidar com adversários e desafetos). A grampolândia montada por DD antecede a espionagem efetuada pelos italianos, realizada em geral na Itália. Mas não se exclua a possibilidade de que o próprio orelhudo tenha meios para influenciar jornalistas peninsulares. Aqui ele tem com os nativos.

O dossiê com supostas contas do presidente Lula, ministros, um senador e do ex-diretor-geral da Polícia Federal, como atesta a própria Veja, foi entregue pelo banqueiro e, a mando dele, confeccionado por um ex-agente da CIA e ex-executivo da Kroll. São registros emblemáticos, luminares, capazes de servir de farol, principalmente quando um nevoeiro criado de propósito tenta encobrir o que resta de verdade factual na trama.’

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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