Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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Carta Capital

22/09/2009 na edição 556

POLÍTICA
Paulo Cezar da Rosa

Fogo no Rio Grande do Sul

‘Esta semana, quando se comemora a Revolução Farroupilha, em 20 de Setembro, a governadora por pouco não foi incinerada, literalmente, pela Chama Crioula, na abertura das comemorações.

Aparecer vestida de prenda provavelmente tenha sido ideia dos marqueteiros que o PSDB importou para cuidar da imagem de Yeda. Mas não precisava pegar fogo.

Dois estados

Como se nada grave estivesse acontecendo, o governo do Estado resolveu colocar em marcha uma campanha de propaganda que, a não ser pelo fato de tentar dourar a realidade, não tem grande relação com ela. Esta semana a Assembleia aceitou o pedido de impeachment de Yeda Crusius, apresentado por 12 entidades de servidores públicos estaduais. Na abertura das solenidades da Semana Farroupilha, o deputado Ronaldo Zulke (PT) fez um discurso que vale a pena conhecer um trecho:

‘Pela primeira vez, em mais de um século de república, um governante vai ter iniciado contra si um processo de impedimento no parlamento. Não porque, como insistem em dizer os governistas, a oposição é golpista ou coisa que o valha, mas porque as evidências de que a governadora tem vínculos sólidos com aqueles que, ao que tudo indica, são responsáveis por mais de R$ 300 milhões em desvios de recursos públicos nos últimos seis anos, estão explícitas nos resultados das investigações que levaram a cabo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal.’

A realidade negada

De fato, é disso que se trata. Conforme os relatórios da PF e do MPF, Yeda sabia da corrupção no Detran, participou e interviu na reorganização do esquema e nada fez para apurar denúncias e corrigir desvios éticos de assessores diretos de seu governo. São acusações que têm ficado sem resposta.

O comportamento da imprensa gaúcha neste momento é lamentável. Todo o esforço é para sonegar da sociedade os motivos pelos quais a governadora é acusada e dizer de antemão que a CPI instalada na Assembleia ou o pedido de impeachment não vão levar a nada porque a governadora possui uma maioria no parlamento….

Sinceramente, tem horas que dá vontade de ir pro Uruguai. A crise política no Rio Grande do Sul está se transformando em ópera bufa. Nem teatro gaudério o pessoal acerta.

Vale o trocadilho aquele: se não fosse trágico, seria cômico!’

 

ALLAN SIEBER
Redação CartaCapital

Olhar sarcástico

‘É TUDO MAIS OU MENOS VERDADE

Desiderata, 128 págs., R$ 49,90

Para grandes cartunistas, a verdade é mais interessante que a ficção. Se aproveitada de maneira correta, a narrativa de um fato banal pode se tornar atraente, engraçada, à maneira do que fizeram os americanos Robert Crumb e Harvey Pekar. Inspirado no trabalho desses artistas e de outros, o gaúcho Allan Sieber olha em volta em busca de observações cotidianas que o fazem refletir sobre uma boa história.

Sarcástico e inteligente, o humor de Sieber aproveita as brechas sujas e incoerentes da sociedade para nos fazer rir. É, acima de tudo, atento a detalhes, às piadas prontas. Em seu novo livro, É Tudo Mais ou Menos Verdade, reúne histórias mais longas que as usuais tiras, algumas inéditas, outras encomendadas por diversos veículos. ‘Os detalhes bobos, quando contados de maneira interessante, se tornam interessantes’, diz à CartaCapital.

‘Jornalismo investigativo, tendencioso e ficcional de Allan Sieber’ é o subtítulo que entrega ao leitor o tom das narrativas. Mais como um observador, ele vai cobrir eventos como o Fashion Rio, onde observa o backstage de desfiles, penetra em festas fashionistas e conta piadas que ninguém entende. Também no Rio de Janeiro, cidade onde mora hoje, acompanha um tour pela favela. No grupo, argentinos irritantes e uma guia turística sem noção.

Foi no Rio, também, que Sieber descobriu o paradeiro de Adolfo Hitler, o Seu Dodô, morador do bairro do Leblon, fã das rodas de samba da Lapa. ‘As pessoas tendem a achar que as histórias são muito exageradas, mas 90% das coisas aconteceram. Mas sempre há pequenas omissões’, diz Sieber. Na série Memórias Alheias, cria pequenas histórias inspiradas por casos impensáveis de amigos, ou inimigos. ‘É uma motivação poder me vingar dessa maneira’, diz, sobre os últimos. ‘Sei de pessoas que se reconheceram nas histórias, mas nunca me falaram nada e não tive nenhum tipo de problema.’

Sieber é fruto de uma geração criativa, ao lado de outros bons cartunistas e amigos como Arnaldo Branco e André Dahmer. Ao contrário dos dois, porém, não gosta de passar horas no twitter e sabe, muito mal, atualizar seu blog, onde posta com certa frequência. ‘É uma ferramenta genial, mas ainda acho estranha. Parece que as pessoas perderam a divisão entre o público e o privado’, diz o cartunista, que tem como personagem principal ele próprio.’

 

HUGO CHÁVEZ
Orlando Margarido, de Veneza

O santo e o demônio

‘Ídolos dizem muito de um homem. Seus vilões também. Se analisados sob esse prisma revelador, os diretores norte-americanos Michael Moore e Oliver Stone teriam poucas semelhanças além do ponto de partida documental que alimenta o cinema de cada um. Quis o destino, ou quem sabe a persistência, que seus filmes mais recentes pudessem ser confrontados com poucas horas de separação sob um ambiente favorável tanto à mera badalação como ao debate. Mas foi o primeiro tom que se firmou no Festival de Veneza quando Stone promoveu seu personagem eleito para o documentário South of the Border. Uma promoção não apenas sacramentada no filme, mas também ao vivo, quando o presidente venezuelano Hugo Chávez fez uma chegada digna de movie star, descendo de helicóptero, não de barco, como é praxe na ilha do Lido, que sedia o evento.

Popular, ou populista como preferem seus inimigos, Chávez cumprimentou curiosos, deu autógrafos e saudou bandeiras vermelhas que surgiram na multidão. E se fez acompanhar de Stone, seu hagiógrafo, segundo denominou um arguto crítico italiano. Michael Moore, por sua vez, fez sozinho o papel que lhe cabe há pelo menos uma década. Um tipo solitário e picaresco que acredita incomodar carregando sozinho a bandeira contra as mazelas americanas, do terrorismo ao sistema de saúde. Desta vez seu embate é mais ambicioso e se chama Capitalism: A Love Story.

Corre o risco de ser inexato quem achar que é apenas Chávez o ídolo de Stone. Ao lançar-se sobre o polêmico chefe de Estado venezuelano para descobrir se é verdade tudo aquilo dito sobre ele, o diretor faz um percurso muito maior do que precisaria para chegar à conclusão dos méritos de seu eleito. Entrevista os vizinhos que comungam dos mesmos valores chavistas, por sua vez bebidos das ideias libertadoras do herói latino-americano Simón Bolívar, a confirmar o que os espectadores abaixo da linha do Equador, também aquele de Rafael Correa, já sabem. Evo Morales da Bolívia, Christina Kirchner da Argentina, Fernando Lugo do Paraguai, Raúl Castro, de Cuba, e, claro, Lula, são instigados a dizer que há algo de um poder transformador no reino da América Latina. E o fazem para um diretor deslumbrado, como um navegador diante de um novo continente avistado da caravela. Entre um depoimento e outro, temos um retrato pontual das etapas que o Chávez de origem humilde seguiu na escalada para o poder, de uma visita ao povoado onde nasceu e no reencontro com a casa de sua família aos golpes fracassados e mais tarde bem-sucedidos.

Stone só não é menos condescendente quando busca no recurso da montagem de diversos programas americanos de TV a peça-chave para justificar seu credo. Para ele, cabe a certa imprensa de seu país o papel de vilão que demoniza São Hugo. Encontra-a no canal assumidamente conservador do magnata Rupert Murdoch, a Fox News, no qual uma apresentadora de jornal se escandaliza com a revelação de que o presidente venezuelano masca coca. Ao que seu colega questiona: qual o problema de experimentar ‘cocoa’?, pergunta, confundindo cacau com a erva danosa a figuras públicas. Mais tarde, num de seus encontros com Chávez, o realizador será visto petiscando uma boa quantidade do produto tipo exportação venezuelano.

Nesse ponto, e em outros do filme, estabelece-se uma sintonia com o estilo picaresco de Michael Moore, comportamento no qual, reconheça-se, é bem mais desenvolto que seu colega. Como se sabe de filmes anteriores, Fahrenheit e Sicko, por exemplo, fazem parte da construção de sua persona cinematográfica o recurso do humor um tanto ‘clownesco’ e as atitudes de efeito que o consagraram. A maneira de encarar seus adversários a ponto de constrangê-los, persegui-los correndo na rua ou lançando mão de expedientes que seguramente terminarão fracassando, prosseguem agora sob novo pretexto.

Capitalism Is Evil, o capitalismo é o mal, decreta Moore. E lá vai ele, nas cercanias de Wall Street, atrás de um demônio vestido de terno e gravata, valise na mão, a verificar a cotação da Bolsa nas páginas econômicas. Ou ainda, numa paródia à moda de Charles Dickens, como bem notou um crítico da Time, entrevistar adolescentes de uma pequena cidade que foram parar na cadeia por ordem de um juiz ao cometerem infrações como dirigir o carro do pai. Tudo para justificar a construção de uma penitenciária milionária. Quando bate à porta de americanos afundados em hipotecas e obrigados a entregar suas casas recém-adquiridas, não tem outra intenção senão condenar o nome precedente a Barack Obama na Presidência, responsável por favorecer uma política de consumo desenfreado. Aquele W. para Stone, um drama político de intenção biográfica e documental realizado em 2008, é o mesmo de Moore e nessa questão o ponto de vista de ambos os realizadores convergem.

Não se enganará, desta vez, quem apostar que o novo presidente americano seria o cara para Moore. Mas o cineasta é precavido e ainda acha cedo proclamar que Obama possa ter o mesmo crédito para os americanos do que Franklin Roosevelt, este sim, o paradigma do documentário por seu pensamento e prática. Certa vez, enviou durante o seu governo tropas não para reprimir operários em greve numa fábrica, mas para garantir que ali permanecessem.

Moore busca parte da história americana a seu favor, e como faz com quase todo o material de que se serve para comprovar sua tese anticapitalista, também busca nos luminares testemunhos garantidos e os manipula. Faz isso com Thomas Jefferson. Ele teria sentenciado a um amigo que ‘acordos bancários são mais perigosos que exércitos em prontidão’. Quando não os encontra na memória americana, Moore produz momentos com tanto empenho que chega a ser risível, como na passagem em que pede a um professor de Harvard que explique o mercado de derivativos e ouve o outro apenas gaguejar. Se a intenção é o apelo da graça e da excentricidade, são mais felizes as passagens com ataques premeditados, mas que geram um constrangimento inesperado, como quando sai com um saco vazio na mão tentando reaver na porta dos bancos o dinheiro dos contribuintes. Ou quando circunda Wall Street com a faixa amarela que a polícia americana utiliza para delimitar os locais de crime.

Interessante verificar a posição diversa da imprensa diante da presença dos dois realizadores em Veneza. O diário italiano Corriere della Sera elege Moore pela ironia e desbanca Stone porque acredita ser seu filme uma mera ‘declaração de princípios’. Já o La Repubblica aponta o exagero do anticapitalismo de Moore, que ‘procura suspeitos sacerdotes católicos para condenar o sistema como demônio’ ou generaliza as empresas americanas que embolsam o seguro de morte de seus funcionários e dependentes, deixando para esses somente as lágrimas. Mas trata Stone como controverso, batalhador e nunca banal.

A Time, polindo a prata da casa, disse que a saga anticapitalista de Moore ‘é, em sua carreira, o maior e mais impactante discurso do que acredita, que a alta roda dos negócios do país está destruindo o pequeno trabalhador, enquanto o governo é conivente com a atrocidade’. Ao que o inglês The Guardian rebate: ‘Capitalism… é cru e sentimental, desapaixonado e sem vigor; traz um universo moral simples, habitado por homens humildes e bons e por grandes malvados, o que faz com que seja duro resistir à confiança de seus argumentos’. Uma maior atenção dedicada a Michael Moore pelos veículos presentes em Veneza talvez signifique ligeira vantagem, já que a controvérsia é sua pedra de toque. Mas ainda é cedo para fechar um balanço e debitá-lo na conta de um ou outro realizador. É dentro das salas de cinema, longe dos holofotes e da badalação de um festival, que o veredicto final se dará.’

 

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