Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

INTERESSE PúBLICO > COLÔMBIA

Carta ao presidente da República

Por Comitê para a Proteção dos Jornalistas em 16/10/2007 na edição 455

[O Comitê para a Proteção dos Jornalistas enviou hoje uma carta ao presidente colombiano, Álvaro Uribe Vélez, para que se retrate de acusações a jornalistas]

Nova York, 11 de outubro de 2007

Senhor Álvaro Uribe Vélez

Presidente da República da Colômbia

Casa de Nariño

Bogotá D.C., Colômbia

Por fax: 011-571-337-5890

Exmo. sr. presidente:

Nós nos opomos energicamente às suas recentes acusações feitas contra dois importantes jornalistas. Seus comentários estridentes e pessoais resultaram em múltiplas ameaças de morte contra ambos os jornalistas, o que provocou o exílio de um deles. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) considera que sua intolerância ante a crítica nos meios de comunicação abala seu compromisso com a liberdade de expressão.

Na manhã de terça-feira, V.Ex.ª solicitou à apresentadora do programa de notícias matutino da estação de rádio La FM que telefonasse para o reconhecido jornalista Daniel Coronell, diretor de notícias do Canal Uno e colunista da revista Semana. V.Ex.ª indicou que queria refutar informações da última coluna do jornalista na Semana, na qual Coronell menciona recentes acusações feitas por Virginia Vallejo, amante do falecido narcotraficante Pablo Escobar, em seu novo livro Amando a Pablo, odiando a Escobar.

Depois de negar com vigor ter tido vínculos com Escobar, V.Ex.ª entabulou uma áspera discussão – de uma hora no ar – com Coronell. V.Ex.ª qualificou o jornalista de covarde, mentiroso, canalha e difamador profissional. Ainda que reconheçamos seu direito de discordar de seus críticos, consideramos que sua reação foi irresponsável e imprudente. Preocupa-nos sua retórica agressiva e seu costume de desacreditar os repórteres que apresentam pontos de vista críticos.

Responsabilidade é do governo

V.Ex.ª está consciente, sem dúvida, que no ambiente polarizado em que vive a Colômbia seus comentários podem inspirar os que utilizam a violência ou ameaças de violência para reprimir o trabalho da imprensa. Efetivamente, horas depois de suas acusações contra Coronell, o Canal Uno recebeu uma ameaça de morte contra ele por correio eletrônico: ‘Nós o avisamos que a próxima vez que se metesse com o chefe, cavaria a própria cova’ dizia a mensagem. ‘Todos os que atacam nosso presidente assinarão suas sentenças de morte’.

Gostaríamos de recordá-lo que Coronell regressou recentemente para a Colômbia depois de mais de um ano no exílio. Após receber ameaças contra ele e sua família, Coronell aceitou uma bolsa de um ano para estudar na Universidade norte-americana de Stanford e abandonou a Colômbia em 2005. O jornalista havia descoberto que as mensagens ameaçadoras eram provenientes de um computador na mansão do ex-congressista Carlos Náder Simmonds, com quem V.Ex.ª possui uma relação pessoal e que foi condenado por narcotráfico nos Estados Unidos. A investigação sobre as ameaças não apresentou nenhum progresso evidente. O governo colombiano é responsável por assegurar que os que violam a lei por meio de ameaças sejam levados à justiça sem demoras.

Outro conhecido jornalista colombiano, o correspondente do diário El Nuevo Herald de Miami, Gonzalo Guillén, se viu obrigado a abandonar sua residência em Bogotá esta semana, depois de receber mais de 20 ameaças de morte após comentários feitos por V.Ex.ª em duas rádios nacionais. V.Ex.ª acusou Guillén de colaborar com Vallejo na redação do livro e sustentou que o jornalista é um difamador. Guillén desmentiu categoricamente suas acusações.

Acusações sem fundamento

A Colômbia continua sendo um dos países mais perigosos do mundo para a imprensa. Nos últimos 16 anos, 39 jornalistas morreram no cumprimento de seu trabalho informativo na Colômbia – o terceiro número mais alto de qualquer país nesse período. Sua administração tem falhado na tarefa de proteger os jornalistas, que são alvo de diferentes grupos ilegais armados em uma guerra civil que dura mais de 40 anos. Esta situação tem perpetuado um clima de impunidade que deixa todos os jornalistas colombianos vulneráveis a ataques e intimidações.

Em reunião com uma delegação do CPJ, em março de 2006, V.Ex.ª respaldou o trabalho dos jornalistas que informam sobre corrupção ao enfatizar que qualquer funcionário que interfira com o trabalho da imprensa ‘está cometendo um crime contra a democracia e isso é gravíssimo’. Acreditamos firmemente que sua intolerância contra a crítica na imprensa abala seu compromisso anterior, contribui para o clima de temor que os meios de comunicação enfrentam na Colômbia, e representa um golpe para a democracia em seu país.

Suas acusações sem fundamento colocaram em perigo a vida desses dois jornalistas. Nós o exortamos a, como presidente, se retratar publicamente dos recentes comentários sobre estes dois jornalistas, a respeitar o dissenso nos meios de comunicação e a se abster de atacar publicamente repórteres que apresentam pontos de vista críticos.

Agradecemos sua atenção a estes assuntos urgentes e aguardamos sua resposta.

Atenciosamente,

Joel Simon

Diretor-executivo

Com cópia para:

Carolina Barco, embaixadora da Colômbia ante os Estados Unidos; Fundação para a Liberdade de Imprensa; Fundação Nuevo Periodismo Iberoamericano; Centro de Solidariedade da Federação Internacional de Periodistas; Ignacio Alvarez, relator especial para a liberdade de expressão da OEA; American Society of Newspaper Editors; Amnesty International; Article 19 (Reino Unido) ; Canadian Journalists for Free Expression; Freedom Forum; Freedom House; Human Rights Watch; Index on Censorship; International Center for Journalists; International Federation of Journalists; International PEN; International Press Institute; Louise Arbour, alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos; The Newspaper Guild; The North American Broadcasters Association; Overseas Press Club; Reporters Sans Frontières; The Society of Professional Journalists; World Association of Newspapers; World Press Freedom Committee

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O CPJ é uma organização independente, sem fins lucrativos, sediada em Nova York, e se dedica a defender a liberdade de imprensa em todo o mundo

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