Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

CBN, simpatias e antipatias

Por Washington Araujo em 02/03/2010 na edição 579

A CBN tem ótima programação e realmente oferece o que alardeia: notícia. E é o dia inteiro ouvindo notícias do Brasil e do mundo. Dificilmente dirijo o carro sem o auxílio da CBN. O carro precisa de gasolina, eu preciso de informação. Em 1991, nasceu a CBN e seu diferencial é a produção de jornalismo 24 horas com o padrão Globo de qualidade em emissora FM. Conquistar ouvintes ‘plugados’ deve ser seu desafio imediato.

Até aqui, o leitor incauto deve entender que se trata de texto francamente favorável à CBN. Mas há um porém. A motivação para esse texto passa longe de trilha louvaminheira até porque ainda há muito para que a emissora me faça a cabeça. Por ouvir muito a CBN, desenvolvi simpatias e antipatias. Vamos às antipatias que, no mais das vezes, são gratuitas mesmo.

Os comentários de Lúcia Hippolito parecem-me inteiramente feitos por sensações. Não é à toa que sua frase para o âncora Heródoto Barbeiro – ‘sabe quando você tem aquela sensação’ – parece já sua marca registrada. Há o jeito professoral, polido, um contido vestido de aparente descontração. Não precisamos ser muito argutos para entender que seus comentários fazem tortuoso caminho para deixar ao largo a visão partidária. É assim que seu raciocínio irá sempre rotular qualquer ação da bancada governista no Congresso Nacional como sendo ‘da tropa de choque do governo’. E não haverá comentário seu envolvendo Eduardo Azeredo (PSDB) ou José Roberto Arruda (DEM) sem que antes haja extensa referência ao chamado mensalão petista. Novos escândalos só servem como escada para reacender na memória a indignação suscitada por velhos escândalos. Não tarda para que Hippolito veja as digitais de Marcos Valério no caso Coroa-Brastel dos anos 1980.

Impropérios a desafetos

É a forma como ela trata de relativizar qualquer escândalo político da hora, do momento. E tome pito pra cá e pra lá. José Dirceu é sempre repreendido pela professora da CBN. É chamado de desastrado, um nível apenas abaixo de aloprado, em suas movimentações políticas. Dilma Rousseff é a própria ‘criatura’ e nunca deixará de ser citada pela vetusta comentarista sem advertências do tipo ‘ela precisa ir se acostumando, uma campanha presidencial pressupõe debate acalorado, temas quentes e não se pode afobar’. Usa e abusa de jargões pra lá de surrados como ‘é o fim do mundo’, ‘é um espanto a capacidade de fulano fazer isso e aquilo’.

Divulgação de pesquisa é outra especialidade em seus comentários. Coloca na vitrine os resultados se estes forem favoráveis a seu espectro político. Do contrário, ficam ali escanteados na prateleira lateral que é para não dar muito na vista, se é que me entendem. Lúcia Hippolito transita com segurança por vãos e desvãos do Brasil Império e da Velha República e tem o dom de nos fazer íntimos de personagens como Carlos Lacerda, Getúlio Vargas, João Goulart, Adhemar de Barros e Leonel Brizola. À parte tudo isso, tem uma voz que gosto de ouvir.

Os comentários de Artur Xexéo causam-me sono. Há um descompasso gritante entre o brilhante cronista que ele é e o comentarista que acompanha Carlos Heitor Cony e Viviane Mosé no programa Liberdade de Expressão. Implico logo de cara com o nome: por que ‘liberdade de expressão’? À época de sua estréia na CBN, pensava que era um espaço para se falar qualquer coisa livremente por mais desatinado que parecesse. Depois das primeiras semanas escutando Cony e Xexéo (Mosé é aquisição recente), me dei conta que estava comprando gato por lebre.

Cony tem uma prosa boa que, no entanto, fica a anos-luz do Cony escritor, do Cony jornalista. Suas histórias são saborosas e os fatos do dia servidos por Barbeiro nada mais são que escadas para adentrar sua prodigiosa memória: histórias de internato, marchinhas de carnaval das antiqüíssimas, histórias de políticos dos anos 1950, citações a Nelson Rodrigues, Otto Lara Rezende e toda a confraria mineira e paulistana. Mas o que me desagrada são as intervenções do Xexéo que, sempre desinformado, parece não saber o que está em debate. E seus comentários refletem o mais completo sortimento de senso comum da história do rádio brasileiro. Não deixa de ser irônico que, numa escala de 0 a 10, comentarista com grau 2 de capacidade de surpreendimento nos brinde com pedidos de mais informações ao âncora e nos ofereça sempre mais do mesmo. É, Xexéo causa-me sono. Apenas no rádio, diga-se.

Os comentários de Arnaldo Jabor parecem-me sempre exagerados e pretensiosos. Tudo nele é hiperbólico, passional, pessoal e parcial em excesso. Quem escuta um comentário que seja do Jabor já fica com o sentimento que ouviu todos como se surgissem em pencas. É um cacete só: Lula, Fidel, Chávez, Dirceu, Evo, Lugo, Kirchner, MST, CUT etc. Frases feitas e polêmicas, tão artificiais quanto estéreis. Algumas frases de Jabor ilustram este ponto. Sobre homossexualismo: ‘Antigamente, o homossexualismo era proibido no Brasil. Depois passou a ser tolerado. Hoje é aceito como coisa normal. Eu vou-me embora antes que passe a ser obrigatório.’ Sobre Roberto Marinho: ‘A importância dele vai além do jornalismo e da televisão. Ele influenciou nossa vida, a linguagem e a cultura do povo brasileiro.’ Sobre premiação de filmes: ‘A Vida é Bela levou o Oscar porque americano gosta de filme que tenha judeu, criança e cachorrinho.’

Se Lúcia Hippolito é contida, Jabor é desabrido. Se Lúcia Hippolito busca enfeixar os pensamentos dentro de uma lógica, os do Jabor andam sempre em bandos, ruidosos e estridentes guardando parentesco em primeiro grau com o hoje mal-afamado bordão do Boris Casoy (‘Isto é uma vergonha!’). Mas é conjugando uma ou outra frase de efeito, arremessando dois ou três impropérios a seus desafetos no campo ideológico, que seus comentários sobrevivem na grade da CBN.

Obsolescência não tem a ver com idade

Os comentários de Mauro Halfeld emulam ambiente de confessionário católico. A voz grave, as sílabas bravamente escandidas, uma a uma, sem qualquer atropelo, consegue logo de entrada criar empatia entre o comentarista e a audiência. Halfeld lembra aquele irmão mais novo dois anos, sempre às voltas com livros e pouco afeito a qualquer atividade desportiva. De forma clara e didática, Halfeld parece ensinar a tabuada (aquela antiga tabuada dos anos 1960) a alunos com máquinas HP12C. No dia em que Cid Moreira desistir de gravar em áudio os 66 livros que formam a Bíblia, penso em recomendar Mauro Halfeld para concluir a tarefa. Tem todo o jeitão. E inspira confiança.

Também, se o pessoal do colégio fosse encenar peça sobre a Grécia antiga, não pensaria duas vezes em indicar Halfeld para fazer a voz do oráculo de Delfos. Leva jeito. Até o humor é elevado a outras esferas, e quando rimos há algo de comportado nisso, como se ríssemos com o canto da boca ou, como se diz, como se ríssemos para dentro. Gosto do Mauro Halfeld. Penso que seria também excelente comentarista de literatura. Por que não pensaram nisso?

Os comentários de Max Gehringer causam boa impressão à primeira vista. São inteligentes e contribuem para elevar nosso conhecimento sobre a origem das palavras. Ficamos sabendo que a palavra ‘educar’ pela sua etimologia (educere), significa ‘conduzir a partir de’. A origem etimológica da própria palavra ‘trabalho’ é tripalium, um antigo instrumento de tortura. A palavra ‘emprego’ deriva do latim implicare, que significa ‘confundir’. E a palavra ‘sucesso’ vem de succedere, que antigamente tinha a conotação neutra de ‘acontecimento’: alguma coisa ou acontece ou não acontece. Se acontecer, é um sucesso. Furar o pneu do carro, por exemplo, é um sucesso.

Suas explicações, como vemos, têm a profundidade de pires. É também o rei do senso comum gerando o almejado clima de cumplicidade com os ouvintes. Gehringer se despe de qualquer cerimônia ao inferir que o trabalhador é a própria mercadoria a ser vendida e para tal usa o linguajar comercial em seus comentários. Algo como: ‘O maior risco que um profissional corre hoje é o de ficar obsoleto. E obsolescência não tem nada a ver com idade. Tem a ver com adequação às necessidades, como qualquer produto de consumo.’

É bem triste ver um dos mais bem-sucedidos especialistas da atualidade em recursos humanos do Brasil considerar sem qualquer pudor a experiência humana apenas como coisa que pode ser trocada e vendida, empregada, subempregada, paga, mal paga, reciclada e sujeita a ter seu tempo de vida útil expirado.

Mais exigente

Aproveito para alinhavar dois os três pensamentos sobre o veículo rádio e seu futuro.

Qualquer mídia tradicional se sente desafiadora pela amplitude e sedução mostradas pela internet. O rádio precisa tornar-se ainda mais relevante e, ao momento, precisamos distinguir nossa preocupação com o veículo de nossa preocupação com as pessoas que trabalham na rádio tradicional e que não despertaram para o desafio que a rádio digital lhes impõe. A internet, quanto mais abarca o espaço comunicacional, guarda grande similitude com aquele tradicional canivete suíço, só que em sua forma digital. Ocorre que muitos sabem utilizar apenas o saca-rolha do canivete digital.

Especialistas no assunto garantem que, no futuro, o negócio do rádio será como um iceberg, um terço estará à vista, enquanto dois terços estarão submersos. O que já está à vista: podcasts, comentaristas temáticos, elevada interação emissora/audiência, acessibilidade a uma infinidade de emissoras de rádio. O que está submerso: criar oportunidades para os novos formatos, ao mesmo tempo que os formatos tradicionais perdem em importância e fazer uso de tecnologias sem fio (WiFi), tornando possível e rentável a criação de produtos de rádio com acesso a qualquer roteador sem fio conectando-se à internet, por exemplo, dentro de sua casa ou no ambiente de trabalho.

O ponto é que, do fundo de seu quintal numa cidade paraense como Marabá, você poderia sintonizar perfeitamente a pequena estação local de sua cidade natal, como a gaúcha Esteio, contando com a mesma qualidade de som que teria se estivesse a poucos quilômetros da emissora.

Ah, por que não comento nada sobre emissoras de rádio tradicionais, aquelas com muita música, muita participação de ouvintes e muitos comerciais intercalando a programação? Porque fiquei mais exigente com o hábito de ouvir música e prefiro abastecer meu iPod com listas cuidadosamente montadas, com versões desta ou daquela música, com interpretação x, y ou z. E tudo isso sem publicidade de loja de material de construção nem de supermercado e suas duvidosas promoções de hortifrutigranjeiros. Rádio, só escuto dentro do carro porque posso fazer as duas coisas com boa margem de segurança: dirigir e ouvir.

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Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

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