Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > MÍDIA RADIOFÔNICA

Como eu queria mudar o rádio

Por Francisco Djacyr S. de Souza em 01/12/2009 na edição 566

Talvez por puritanismo ou até por muito idealismo cheguei a vislumbrar uma mudança no meio rádio, mas sinto plenamente que não consegui chegar aos intentos que desejava, pois a força do dinheiro que hoje envolve este meio é muito forte e dá muito pessimismo aos que propugnam um rádio plural, ético e cidadão. O processo de destruição do rádio encontra guarida em vários setores e, infelizmente, os seus usuários (ouvintes) ainda não têm condições de formação de um processo de mudança que realmente dê ao rádio o lugar que merece. A luta pelo rádio tem sido árdua onde a Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará tem promovido debates, encontros, homenagens a radialistas, exposições sobre o rádio e tem tentado ocupar espaços em muitos momentos negados nos nossos grandes meios de comunicação, que fazem de tudo para negar o espaço que o rádio merece em outras mídias.


Já me pediram para não mais criticar o rádio e durante muitos momentos tentei mostrar coisas boas deste meio de comunicação para tentar abrir espaços para momentos de discussão, debates e envolvimento dos vários personagens envolvidos na mecânica de funcionamento e programação do meio rádio. Tentando contribuir para tais debates, sinto que minhas idéias são pouco absorvidas pelos que fazem a comunicação, o que tem demonstrado que o debate sobre o rádio é praticamente nulo ou inexistente. Um exemplo disso é que em todos os textos publicados pelo Observatório geralmente não têm um só comentário. Uma pena que muito poucos se interessem pelo rádio que, mesmo assim, é a mídia de mais credibilidade e audiência. O rádio precisa ser melhor debatido, precisa de aprofundamento sobre sua situação, sobre a invasão da política e da religião em seus processos de emissão, sobre a política de concessões e sobre os problemas que o envolvem. Por que preferem varrer o lixo para debaixo do tapete?


Durante várias vezes, tentamos criar espaços nos meios de comunicação escrita de nosso estado (o Ceará) sobre o rádio mas nossos jornais e seus jornalistas parecem que não entendem a importância do rádio nem compreendem sua missão na democratização da comunicação. O meio rádio é deixado de lado pelos jornais do nosso estado – basta saber que um dos maiores jornais do Ceará despreza as notícias da Associação e as atividades promovidas pelo mesmo no sentido de enaltecer o rádio. Há uma chefia de edição que boicota todas as notícias sobre o rádio e sequer publica textos e artigos de origem do grupo dos que fazem a Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará. Talvez não seja importante para o jornal debater o rádio, pois o grupo mantém uma rádio afiliada a uma grande rede de comunicação e tem problemas sérios em sua programação que prefere ignorar.


Luta é de toda a sociedade


A grande problemática do rádio é não se reconhecer com problemas, seus proprietários (concessionários) pouco se importam com a opinião dos seus usuários e estes próprios não procuram se organizar numa ação firme no sentido de resgatar o glamour e a importância do rádio de outrora. Nossos ouvintes de rádio simplesmente se sentem satisfeitos com os míseros minutos que lhes dão para falar e pouco têm se ligado na necessidade de organização para melhoria do rádio e para gerar ações de respeitabilidade neste meio de comunicação. Ainda há muito a se fazer para gerar no povo visões de organização, de coesão, de pensamento mútuo e de associativismo em busca de uma comunicação ética, segura e verdadeira.


Na classe de radialistas falta organização, pois há ainda muito corporativismo nos jornalistas que não vêem os radialistas com bons olhos nem aceitam fielmente os direitos adquiridos pelos locutores na lei que regulamente a profissão. O problema do rádio passa pelos jornalistas como um sintoma de seu fim e uma situação benéfica para eles próprios, que passarão a lucrar com a derrocada do rádio em outras mídias. Os cursos de jornalista desprezam o papel do rádio, que se resume a uma mera cadeira acadêmica sempre deslocada da realidade e totalmente motivadora aos futuros profissionais. O rádio não atrai os jornalistas talvez pela necessidade de uma boa voz ou um linguajar claro e correto.


O resgate e a valorização do rádio precisam tornar-se uma bandeira de toda a sociedade que é consumidora contumaz do rádio, mas infelizmente não se deu conta ainda de sua importância e da necessidade de valorização. A luta por um rádio melhor, ético e cidadão não deve ser uma proposta de um grupo de pequenos abnegados, mas de toda a sociedade. Talvez por isso os que fazem a aouvir pouco ou quase nada farão pelo rádio, pois não têm dinheiro, poder político nem a sintonia de suas idéias com as organizações sociais do mundo moderno. O que fazer? Desistir , jamais…

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Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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