Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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Considerações sobre o rádio no Brasil

01/09/2009 na edição 553

Alguns fatos importantes marcaram o ano de 1922, como a realização da Semana de Arte Moderna, a criação do Partido Comunista do Brasil, o levante dos 18 do Forte e o centenário de independência do Brasil. Para a comemoração deste acontecimento, no dia 7 de setembro, foi organizada a Exposição Internacional, em cuja abertura o então presidente Epitácio Pessoa teve seu discurso reproduzido por um sistema de radiotelefones em forma de cornetas. Era a primeira transmissão radiofônica no país.

A demonstração foi organizada pela Western Electric, a Westinghouse e a Rio de Janeiro e São Paulo Telephone Company, por meio de uma pequena estação de 500W, instalada no alto do Corcovado. Além do discurso de Epitácio Pessoa, houve a execução da canção ‘O aventureiro’, da ópera O guarani, de Carlos Gomes. Os sons ouvidos na exposição também foram captados no Palácio Monroe, no Palácio do Catete, nos Ministérios, em Niterói e na Prefeitura de Petrópolis, devido a 80 receptores que vieram dos EUA e foram distribuídos para políticos e personalidades da época.

O veículo reinou absoluto entre os brasileiros durante a primeira metade do século passado, atingindo o auge nas décadas de 30 e 40, até perder espaço para a televisão a partir dos anos 50. No rádio, as transmissões de jogos de futebol e corridas de cavalos, os programas de calouros, as radionovelas e as notícias das guerras arrebanhavam audiência por todo o país.

Um modelo que persiste imutável

Na narração esportiva, além de Oduvaldo Cozzi, Gagliano Neto, Antônio Cordeiro e Jorge Cury, um dos grandes destaques nessa época foi Ary Barroso, embora alguns digam que não tinha talento, a não ser como compositor. O que fazia o sucesso dele, flamenguista doente, era não somente a audiência da torcida rubro-negra, que tinha em Ary seu mais fanático representante, como também a das torcidas dos demais clubes cariocas, que se divertiam ao ver a reação do radialista quando seu time ia mal. Ary demonstrava acintosamente sua paixão pelo Flamengo durante as transmissões, tendo abandonado o microfone para tirar satisfações com o juiz durante algumas transmissões.

Ary também se destacou como revelador de talentos em seu programa de calouros, onde tocava um gongo japonês interrompendo a apresentação daquele que julgava não ter talento. Isso não aconteceu com Elza Soares, quando foi ao seu programa tentar a sorte. A cantora narrou o episódio durante o programa Sarau, que foi ao ar no último dia 12 de junho pela Globo News. Elza contou que quando ouviu seu nome ser anunciado por Ary Barroso, foi para o auditório sendo recepcionada pela risada generalizada do público e pela indagação do compositor: ‘O que você veio fazer o aqui’? Elza usava um vestido de sua mãe, todo enrolado até os joelhos, e tinha um aspecto visivelmente maltratado, já que nessa época morava na rua. ‘Vim cantar’, respondeu Elza. A cantora lembra que terminou sua apresentação sendo ovacionada pela plateia e abraçada com Ary Barroso, que sentenciou: ‘Nasce uma estrela!’

Mas nenhum outro fenômeno teve tanto impacto sobre o público como as radionovelas, que tiveram início na década de 40 e revelaram grandes artistas, como Mário Lago, Dayse Lúcidi, Paulo Gracindo e os integrantes da família Faissal. Em busca da felicidade, primeira radionovela que foi ao ar, no dia 12 de julho de 1941, permaneceu na programação da Rádio Nacional durante três anos. Contando a história dos protagonistas Alfredo e Alice Medina, interpretados por Rodolfo Mayer e Ísis de Oliveira, o fenômeno de audiência assegurou um modelo que persiste imutável até hoje na televisão, garantindo alguns milhões de reais por ano para a Rede Globo.

Novelas, calouros, festivais…

Conforme o rádio construía uma audiência sólida, foi despertando interesse da imprensa. A primeira seção jornalística especializada no meio de comunicação foi publicada nas páginas da Gazeta de Notícias, em 19 de abril de 1923, com o título ‘Radiophonia’. Em 13 de outubro do mesmo ano, editada pela Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, surgiu a primeira publicação dedicada inteiramente ao veículo, a Revista Rádio. Publicada bimestralmente, podia ser adquirida também em Buenos Aires e Montevidéu e tinha como anunciantes empresas produtoras ou revendedoras de equipamentos de rádio.

Mais tarde, outras publicações especializadas se destacaram, como a Revista do Rádio – que circulou de 1949 a 1970, com tiragem média de 50 mil exemplares – e a Radiolândia, lançada em 52 e editada durante dez anos. Em São Paulo, merecem destaque o Guia Azul, que circulou de 1939 a 1948, e a Radar, que teve mais curta duração, de 51 a 53.

Outro grande sucesso da Rádio Nacional nas décadas de 30 e 40 eram os discursos do presidente Getúlio Vargas, que criou o programa A voz do Brasil para divulgar seus feitos durante o governo populista. Getúlio, conhecido na época como ‘o pai dos pobres’, utilizava o rádio nos anos 30 com uma habilidade política que invejaria Obama nos tempos de campanha online. Fato político que também teve ampla repercussão no rádio brasileiro, foi a transmissão das notícias que vinham dos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Civil espanhola.

No entanto, a partir dos aos 50, a televisão foi se popularizando no Brasil, atraindo a atenção dos ouvintes, que passaram a ser conhecidos como telespectadores. Fora as imagens, nada de novo. Os programas de sucesso na televisão nada mais são do que cópias do que acontecia no rádio antes de sua chegada. Novelas, concurso de calouros, festivais de música…

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Repórter do ABI Online e do Jornal da ABI, Rio de Janeiro, RJ

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