Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Cristiane Costa

06/04/2004 na edição 271

‘Há quatro anos o Exército brasileiro se prepara para reescrever a história. Mais precisamente, aquela que se iniciou em 31 de março de 1964 e terminou oficialmente em 1985, quando um civil voltou a assumir a Presidência do Brasil. Nada menos do que 230 pessoas diretamente envolvidas no processo de preparação do golpe ou na manutenção da ditadura militar durante 21 anos foram ouvidas pelo projeto História Oral do Exército. A íntegra de seus depoimentos foi registrada em 13 volumes, a que o Caderno Idéias teve acesso com exclusividade, antes do lançamento dos 10 primeiros, nesta segunda-feira, pela Bibliex, Biblioteca do Exército Editora.

As entrevistas seguiram a metodologia ditada pelos manuais de história oral e foram também gravadas em vídeo, num estúdio no Palácio Duque de Caxias, no Rio, e em outros montados em São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Recife e Fortaleza. Livres das regras que determinam a classificação e abertura de documentos do período, estão à disposição de pesquisadores e documentaristas que desejem compreender o que moveu, em que acreditavam e como se sentem, hoje, ativos participantes do período militar.

Não faltam novidades, como a declaração do coronel Romeu Antonio Ferreira, que foi convidado para explodir uma bomba no Riocentro um ano antes do atentado de 1981. Ou a do coronel Renato Brilhante Ustra, contando que 40 pára-quedistas só não invadiram o avião que levaria os prisioneiros trocados pelo embaixador americano Charles Ellbrick para o México porque ficaram presos num engarrafamento. Ou ainda a do coronel Luiz Carvalho Avelar Coutinho, relatando uma tentativa frustrada de seqüestro da mulher do então presidente Médici.

Há ainda curiosidades, como a fundamental participação de dona Maria, mulher do general Mourão, na decisão de realizar o levante militar rapidamente. E o passado subversivo da ex-ministra Zélia Cardoso de Melo, responsável pelo apoio logístico do PCB no Rio, segundo o general Léo Guedes Etchegoyen. Se não fosse trágica, seria cômica a história narrada pelo ex-ministro Jarbas Passarinho, acusado de ser uma ‘melancia’ (verde por fora, vermelho por dentro) por um torturador.

A história oral não tem pretensões de estabelecer uma verdade, como a oficial. Ela simplesmente registra as múltiplas versões sobre o acontecimento. Não admira, portanto, que apareçam nos livros versões contraditórias sobre temas polêmicos como a tortura, a influência dos Estados Unidos na decisão de derrubar o governo de João Goulart e a necessidade do Ato Institucional nº 5. O volume 2, por sinal, traz uma reprodução inédita do documento em que Costa e Silva escreveu com seu próprio punho os votos dos participantes da reunião que decidiu pela decretação do AI-5 e mergulhou o país no período mais duro da repressão.

Como os depoimentos foram feitos para o Exército, é natural que os militares entrevistados se mostrem à vontade. Há declarações de espantosa sinceridade, como a do ex-ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves sobre a Operação Condor. Outras surpreendem pela forma como ainda negam a existência de tortura nos porões da ditadura, como a do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

A opinião geral é de que se lutava com todas as armas possíveis contra a implantação de uma ‘ditadura sindicalista’ no Brasil, de inspiração marxista, financiada por Cuba, URSS e China. Por isso, o combate à guerrilha em focos como Araguaia, Caparaó e Xambioá toma contornos dramáticos nos relatos de gente que arriscou a vida nos dois lados do conflito, como o deputado José Genoino, um dos poucos representantes da esquerda a participar do projeto, e o tenente-coronel Licio Augusto Ribeiro Maciel, que, desfigurado por um tiro no rosto, ofereceu seu depoimento por escrito. O presidente do PT, por sinal, não sai bem na fita. Mas é preciso ressalvar que nenhum dos fatos relatados foi checado.

– Com estes passos, adotou-se uma forma relativamente nova de fazer história – explica o general-de-Brigada Aricildes de Moraes Motta, coordenador geral do Projeto de História Oral do Exército. Criado em 1999 pelo então ministro Gleuber Vieira, o projeto já rendeu outros frutos, como os oito volumes da História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial e os três trabalhos ora em execução: engenharia militar, operações de manutenção de paz e valores militares. Idéias não faltam.

– O Exército quer guardar sua história, não apenas sobre 64 – comenta o coordenador assistente, coronel Aurélio Cordeiro da Fonseca. (Colaboraram Ellis Pinheiro, Alexandre Martins, Paula Barcellos e Rodrigo de Almeida)

***

TV Globo é acusada de fraude’, copyright Jornal do Brasil, 3/04/04

‘‘Só ouvem uma versão da história que é contra nós, porque não há acesso a outro tipo de informação. Esse bombardeio tem sido diário, principalmente da Rede Globo, que passou vinte anos ao nosso lado, mudando em 1985, quando deixamos o poder. Tivemos o caso de um prêmio dado ao jornalista Caco Barcellos – prêmio Embratel e depois o prêmio Líbero Badaró – montado em cima de uma farsa. Um soldado, desertor do Exército, fala que participou do assassinato de dois terroristas e quem os matou teria sido um coronel do Exército. Não foi dado o nome de ninguém.

Foi feito um levantamento e provado que era mentira – esses dois terroristas morreram num acidente de carro em Vassouras. Colocou-se na Internet as certidões de óbito assinadas por dois médicos, atestando que eles morreram em conseqüência da explosão, em decorrência do acidente (…). No entanto, esse jornalista recebeu um prêmio por uma farsa montada. Este fato foi rebatido, mas não na grande imprensa. Protestaram o professor Olavo de Carvalho, o jornalista Paulo Martins, da Gazeta do Paraná, e mais um jornalista do Rio Grande do Sul, chamado Diego Casagrande que, também de alguma forma, divulgou o embuste na coluna dele. Mas não tiveram a devida repercussão.

O prêmio foi mantido. Foram mandados ofícios para Embratel protestando, mas, até hoje, a empresa não tomou providência nenhuma. (…) O documento é falso, está tudo documentado. Existem os documentos verdadeiros. E continua premiado e impune este jornalista falsário e farsante!’

Tenente-coronel-aviador Juarez de Deus Gomes da Silva

Em 1964, era Capitão-Oficial de Operações do 2º/ 1º Grupo de Aviação de Caça’



Folha de S. Paulo

40 Anos Depois’, Editorial, copyright Folha de S. Paulo, 31/03/04

Se há algo a comemorar no aniversário de 40 anos do golpe de 31 de março de 1964 é justamente o fato de podermos afirmar que o ciclo militar se encontra hoje encerrado num passado histórico. Se suas repercussões ainda se fazem sentir e se há facetas a merecer esclarecimentos, não há dúvida de que o fantasma da ditadura militar já não mais assombra a vida nacional.

O movimento ocorreu num quadro de forte radicalização da política nacional e internacional, sob o signo da Guerra Fria. Impulsionada pela expansão do império soviético, pelo recrudescimento de lutas de libertação nacional e pela revolução cubana, de 1959, a esquerda brasileira via-se no início da década de 60 na iminência de chegar ao poder. Essa perspectiva tornou-se mais palpável com a restituição dos poderes presidencialistas ao trabalhista João Goulart, em 1963.

Ameaçada e em dificuldades para organizar uma alternativa política própria, capaz de barrar as pretensões da esquerda, parte da elite do país apoiou e se associou ao que considerava a saída possível: uma conspiração militar. Tendo à frente o marechal Humberto de Alencar Castello Branco, as Forças Armadas assumiram o comando do país prometendo uma breve intervenção. Não foi, como se sabe, o que aconteceu.

Hoje, o Brasil que volta suas atenções para aqueles anos de arbítrio é uma sociedade organizada em torno de um regime de liberdades. Vigora o Estado de Direito, realizam-se eleições, a imprensa encontra as condições para exercer seu papel e o pensamento e a cultura livraram-se das amarras da censura.

Foi tortuoso e acidentado o caminho para que se alcançassem esses valiosos objetivos. O declínio militar coincidiu e foi precipitado por uma aguda crise econômica. O modelo de desenvolvimento organizado pelo regime ruiu sob os efeitos de choques internacionais e de um dramático quadro de endividamento.

Ao longo da década de 1980, o país viveu a frustração das reivindicações por eleições diretas e passou por um conturbado período de transição, marcado, no plano político, por agudos conflitos em torno da organização do novo arcabouço institucional e, no econômico, por desequilíbrio fiscal, estrangulamento externo, baixo crescimento e alta inflação.

A eleição pelo voto direto do primeiro presidente civil coincidiu com uma profunda mudança no cenário internacional. Ao mesmo tempo em que Fernando Collor de Mello saía vitorioso das urnas, era derrubado o Muro de Berlim e esfacelava-se o bloco socialista organizado em torno da antiga União Soviética. Encerrava-se a era Guerra Fria e inaugurava-se uma nova ordem internacional, na qual prosperaria a lógica da globalização e da liberalização econômica.

Hoje, salta aos olhos que as fundamentais conquistas democráticas obtidas nas últimas décadas ainda dependem para sua plena realização de que parcelas inteiras da população possam emergir da linha de pobreza. No Brasil democrático, cidadãos pobres continuam subsistindo sem acesso satisfatório à saúde, à educação, ao emprego e à Justiça. Por vezes empurrados para a marginalidade, são presos e torturados em porões em tudo semelhantes aos que se utilizavam nos anos de chumbo do regime ditatorial.

É esse o enorme desafio que se apresenta ao Brasil em seu caminho para se tornar uma nação mais digna e civilizada: promover o crescimento, reduzir as desigualdades e permitir que os seus filhos desfrutem dos benefícios do desenvolvimento e dos direitos da cidadania.’



Cartas, Istoé

Porão do poder’, copyright IstoÉ, 7/04/04

‘Lamento profundamente a matéria intitulada ‘Traição e extermínio’ (ISTOÉ 1799). Baseando-se apenas em declarações sem nenhum valor documental, a reportagem se converteu em um amontoado de frases soltas, conspurcando a imagem de antigos companheiros e a do próprio partido, à época o PCB. Pior ainda, tenta induzir – pela tendenciosidade da manchete – que a ditadura não foi responsável pelas torturas e assassinatos dos nossos dirigentes e militantes. O caso Givaldo é um assunto velho, requentado e já foi tratado com total responsabilidade pela direção partidária. O próprio companheiro fora afastado das suas tarefas e se submeteu, à época, a recolhimento compulsório do ponto de vista orgânico, sugerido pela direção. Após análise rigorosa das denúncias levantadas contra ele em plena ditadura, o partido as considerou perigosas aleivosias e, por improcedentes, deu o caso por encerrado. Em tempo, não foi Prestes quem buscou, depois, informações sobre o assunto junto às autoridades soviéticas, que as garantiu também infundadas. Foi o grande líder do meu partido, falecido, Salomão Malina. De passagem, se lamento a referida reportagem, elogio a da semana passada ‘Os matadores’ (ISTOÉ 1798), que mostra como o regime montou um grupo de sicários para assassinar cruelmente militantes e dirigentes de esquerda e do PCB.

Roberto Freire Presidente nacional do PPS Brasília – DF

‘Givaldo (Siqueira) mandou meu irmão para a morte. O Comitê sabia da carta e mesmo assim foi feita a operação.’ A frase acima, entre aspas, categórica, publicada na reportagem ‘Traição e extermínio’ (ISTOÉ 1799), é a inversão da resposta dada por mim a uma pergunta do repórter que me procurou e, portanto, falsa. O que eu disse, por telefone, no dia 24/3, foi: ‘Não, não foi o Givaldo. A responsabilidade, como eu disse desde o início, foi da direção restrita do partido.’ O jornalista insistiu. Não teria sido Givaldo o portador da ordem do partido para a viagem de Célio Guedes (meu irmão, assassinado ao voltar do Uruguai)? Respondi: ‘Não, não foi Givaldo, não poderia ter sido Givaldo.’ Esclarecer fatos dolorosos como esses ocorridos sob a ditadura militar requer seriedade, responsabilidade, requisitos profissionais do bom repórter e do bom historiador. Abordagens sensacionalistas tendem sempre a desfocar o fato e diminuir a culpabilidade da ditadura militar. Em nenhum momento pretendi transferir para o Partido Comunista a responsabilidade por um ato selvagem praticado pela repressão da ditadura. O que eu condenei foi a irresponsabilidade do partido na questão da segurança, um episódio interno do PCB.

Armenio Guedes São Paulo – SP

Agradeço à revista pela reportagem ‘Traição e extermínio’ (ISTOÉ 1799). Ela, pelo esforço profissional dos jornalistas Amaury Ribeiro Jr., Eugênio Viola e Tales Faria, fez vir a público um responsável, assumido, do aparato de repressão da ditadura militar, pela morte dos meus companheiros do PCB. Lutei por isso durante esses últimos 30 anos, A reportagem possibilita o início da apuração daqueles assassinatos e a localização dos corpos dos 11 companheiros dados, até agora, como desaparecidos.

Hércules Corrêa dos Reis Rio de Janeiro – RJ

Parabéns à revista ISTOÉ pela histórica e importante reportagem ‘Os matadores’ (ISTOÉ 1798), do excelente Amaury Ribeiro Jr.

Aloísio Morais Martins Belo Horizonte – MG

É repugnante que esses senhores, milicos da ditadura militar, que cometeram tantas barbaridades e horrores, torturando e matando todos aqueles que se manifestavam contrários à ditadura na busca de um País livre e justo para os brasileiros, estejam hoje por aí, soltos, vivendo como pessoas de bem e sem qualquer remorso pelo que fizeram. Eu ainda era criança quando esses fatos aconteceram, e só tive idéia de que houve repressão na época após entrar na faculdade. Parabéns ISTOÉ por desempenhar tão bem o papel da imprensa em informar as pessoas sobre os desmandos que aconteceram – e ainda acontecem – no País. É preciso que essa parte lamentável da nossa história fique viva na memória de todos nós, para que nunca mais se repita.

Tania Mariano Vila Velha – ES

Embora esperasse por tão aterradora revelação vinda do porão da ditadura e dos tempos de chumbo, não pude conter minha indignação e revolta. Que essa reportagem tenha a virtude de dar aos leitores e aos povos do mundo mais elementos para que aumentemos nosso compromisso com os verdadeiros valores humanos: amor, tolerância, compreensão e fraternidade. Sem isso, só imperará a barbárie e a injustiça.

Carlos Augusto C. de Lima Natal – RN

O desencadear do movimento de março de 64 não pode ser entendido fora do contexto histórico da guerra fria. Havia uma realidade geopolítica internacional, por completo, distinta da que temos hoje. Uma superpotência militar detentora de armas nucleares apoiava movimentos revolucionários em todo o mundo. Metade da Europa vivia sob a cortina de ferro, e, em Cuba, foram instalados mísseis com ogivas nucleares apontados para os EUA. Havia inegavelmente uma preocupação fundamental, interna e externa, com a transformação de um gigante como o Brasil em um aliado da URSS.

Everton Jobim Rio de Janeiro – RJ

É inadmissível que parte da elite militar brasileira tenha colaborado com a nossa história com assassinatos, tortura, prisões e execuções de pessoas que lutavam por um Brasil melhor.

Raimundo Filho Parnamirim – RN

Diante das acusações, inteiramente infundadas, ao companheiro Givaldo Siqueira, penso ser necessário afirmar que, entrando no partido, no início da década de 50, pelo movimento universitário, ali encontrei o Givaldo já na liderança das nossas lutas. Sua militância em um partido marxista-leninista, como o foi, por anos, nosso Partidão, e, agora, num partido de coração e mente novas e de matriz ideológica plural, serviu (para mim, sem dúvida) para muitos de nós de pá e bússola para entendermos e melhor desenvolvermos os instantes de convivência social, política e cultural. Lamento, ainda, que o repórter tenha estado em minha casa, onde conversamos por bastante tempo, ocasião em que pude tecer outras considerações também positivas quanto ao companheiro Givaldo, e, ao término, percebo que nem uma de minhas palavras foi utilizada na reportagem. É a razão maior que me levou a dirigir esta carta, para que minhas palavras se registrem aqui e possam pelo menos servir, por mais simples que sejam, como um abraço de solidariedade ao velho companheiro de lutas.

Arildo Salles Dória Brasília – DF

Gostaria de registrar minha indignação com a falta de verdade na matéria. Em 1998, este cidadão, chamado Hércules Corrêa, falava alto e bom som no bar do hotel Bistrô, em Brasília, que ia lançar um livro com o título Que merda é essa? e iria vender a matéria com exclusividade para a revista Veja. Ele faz uma acusação ao sr. Givaldo Siqueira sem nenhuma prova e fica no disse-me-disse, tentando procurar um culpado diante da sua revolta com a vida. Ninguém neste país conhece a história do PCB mais do que Roberto Freire e Geraldo Rodrigues dos Santos (Geraldão); por isso este relatório a que Hércules se refere é um documento de ficção, sem nenhuma credibilidade, conforme a sua cabeça, que não anda nos dias melhores de sua lucidez. E esta revista tem responsabilidade com a verdade, pois sempre trilhou pelos caminhos do jornalismo sério, honesto e investigativo com seus leitores.

Juca Carvalho Maceió – AL’



Zero Hora

‘Quatro vozes de 64’, copyright Zero Hora, 2/4/04

‘Os 40 anos do movimento que mudou a história do país foram debatidos ontem por quatro testemunhas oculares do período. Moacyr Scliar, Zuenir Ventura, Luis Fernando Verissimo e Carlos Heitor Cony reuniram-se às 19h no Solar dos Câmara, na Capital, para o lançamento da coleção Vozes de 64.

Cerca de 300 pessoas participaram do debate sobre o golpe de 1964 e os anos da ditadura militar. A coleção, editada pela Companhia das Letras e vendida a R$ 41, inclui quatro pequenos relatos sobre os anos de chumbo – duas ficções (criadas pelos gaúchos Scliar e Verissimo) e dois depoimentos verídicos (Zuenir e Cony). No encontro de ontem, mediado pelo presidente da Assembléia, deputado Vieira da Cunha, os escritores responderam a perguntas sobre censura, participação e posição da imprensa, produção cultural e questões políticas.

– O Cony desempenhou um papel que nos deixou uma lembrança emocionante, porque ele foi o primeiro a botar a boca no mundo e pagou um preço alto por isso – recordou Scliar.’

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PRIMEIRAS EDIçõES >

Cristiane Costa

Por lgarcia em 01/05/2002 na edição 170

ENTREVISTA / ANÍBAL GONZÁLES

"?Ficção e jornalismo se imitam?", copyright Jornal do Brasil, 27/04/02

"Doutor em Literatura por Yale, professor da universidade de Penn State, nos Estados Unidos, o portorriquenho Aníbal González é uma estrela em ascensão no meio acadêmico internacional. Especialista em literatura hispano-americana, González já abordou as relações íntimas dos escritores com a imprensa em Journalism and the development of Spanish American narrative, editado por Cambridge; com a violência, em Killer Books: writing, violence and ethics in modern Spanish American Narrative, editado pela Universidade do Texas, e atualmente prepara, com apoio da Fundação Guggenheim, um estudo sobre a volta dos temas romântico-sentimentais nos romances latino-americanos. Com a mulher, Priscilla Meléndez, que também dá aulas na Penn State, Aníbal passa esta semana pelo Brasil para ministrar um curso no Instituto Cervantes, no Rio de Janeiro, sobre a literatura latino-americana contemporânea, em que comparará, entre outros livros, Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, que define como um típico escritor da pós-modernidade, com Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, exemplo máximo do boom dos autores do continente, nos anos 60. Quem perder os dois dias de curso, que começa hoje, conta ainda com uma mesa-redonda, na terça.

– O tema de seu curso no Brasil é ?modernidade e pós-modernidade no romance hispano-americano?. No que os autores das duas fases se diferenciam?

– Nos anos 60, quando a literatura hispanoamericana viveu um boom, surge ou se torna mais amplamente conhecido um grupo de escritores que alcançaria em pouco tempo renome mundial: a argentino Julio Cortázar, o chileno José Donoso, o colomiano Gabriel García Márquez, o cubano Guilhermo Cabrera Infante, o mexicano Carlos Fuentes e o peruano Mario Vargas Lhosa, entre muitos outros. Também nessa década passam a ter maior reconhecimento figuras precursoras como o argentino Jorge Luis Borges e o cubano Alejo Carpentier. O boom inclui ainda certos autores brasileiros, como Jorge Amado e João Guimarães Rosa.

– O que autores de origens e estilos tão diferentes teriam em comum?

– Os romances do boom, em geral, se caracterizam pela experimentação formal, uma vez que tentam produzir uma visão totalizadora da história e da cultura hispano-americanas. Romances como A morte de Artemio Cruz, O jogo da amarelinha, Cem anos de solidão e Três tristes tigres, entre tantos outros, se inscrevem numa perspectiva irônica de estirpe borgesiana, com uma amplitude de visão que aspira a abarcar, pelo menos simbolicamente, como em O Aleph de Borges, a totalidade vida hispano-americana.

– O que muda no período seguinte?

Desde o final dos anos 60, começa a surgir uma nova geração, cujas obras, escritas à sombra do boom, exibem notáveis diferenças de estilo. Os cubanos Reinaldo Arenas, Miguel Barnet e Severo Sarduy, a mexicana Elena Poniatowska, o portorriquenho Luis Rafael Sánchez, o argentino Manuel Puig, os chilenos Isabel Allende e Antonio Skarmeta, o peruano Alfredo Bryce Echenique, entre outros, integram o conjunto de novos narradores a quem os críticos batizaram (sem grande originalidade) de pós-boom. A grosso modo, seus romances se diferem dos anteriores por sua rejeição à visão totalizante da América Hispânica e por seu enfoque mais local e particular. Enquanto Cem anos de solidão e outros romances típicos do boom tendiam a organizar sua narrativa em torno de grandes teorias acerca da identidade cultural e política da região, as obras mais recentes deixam de lado a tendência a filosofar e a nostalgia da identidade, buscando em troca encarar as experiências concretas e cotidianas. Em meu curso, vamos explorar se existe ou não um paralelismo entre os conceitos mais gerais de ?modernidade? e ?pós-modernidade? e o boom e o pós-boom.

– Existe?

– Minha hipótese é que, efetivamente, pode-se traçar um paralelo entre ambas duplas de conceitos. Os romances do boom exibem, de forma literária, muitas das características da modernidade, segundo as teorias de críticos como Marshall Berman e Matei Calinescu, enquanto que os do pós-boom coincidem, em muitos aspectos, com os da cultura pós-moderna, identificados por críticos como Jean-François Lyotard, John Barth e Frederic Jameson.

– Também seria possível traçar um paralelo entre o desenvolvimento do jornalismo e o da literatura? Entre a modernização de um e o modernismo do outro?

– Minha resposta é totalmente afirmativa. Em meu livro Journalism and the development of spanish american narrative, tento demonstrar precisamente isso: o desenvolvimento da literatura hispano-americana se deu em meio a um enriquecedor e estratégico processo de mímesis mútua, de imitação de um pelo outro, entre a narrativa ficcional e o jornalismo. Impulsionado pela censura e repressão político-ideológica em nosso continente, o processo de intercâmbio retórico entre os dois discursos levou a que ambas formas de manejar a linguagem, que têm origens e fins distintos, se assemelhem cada vez mais. Freqüentemente, as circunstâncias históricas fazem com que a ficção cumpra funções jornalísticas quando o jornalismo não pode fazê-lo. Por outro lado, o jornalismo adota e adapta muitos dos procedimentos estruturais e retóricos da ficção para dar maior interesse às informações ou, em certos casos, para escudar-se na ambigüidade da linguagem literária. Neste contínuo intercâmbio, a literatura absorveu do jornalismo seu afã de modernidade. Se entendemos modernidade não apenas como um período histórico-cultural, como também em termos etimológicos (do latim modo, presente), modernidade é um desejo de estar vinculado ao presente. Desde a época da independência, no princípio do século 19, o jornalismo e a literatura na América Latina tiveram como causa comum a tarefa de promover a modernização geral de nossos países.

– Esse seria um fenômeno típico da literatura latino-americana ou da literatura em geral?

– Sem dúvida, o intercâmbio discursivo entre a literatura e o jornalismo é um fenômeno que se produz em todas as literaturas ocidentais. Talvez o que haja de peculiar em termos de América Latina seja a intensidade e a insistência com a qual ele tenha se verificado ao largo de quase todos os séculos.

– Trabalhar em jornal atrapalha ou não um aspirante a escritor?

– Em meu livro, estudo precisamente o caso dos modernistas hispano-americanos, que, embora devessem ao trabalho jornalístico sua autonomia como escritores, vivendo de sua pena, também se ressentiam ferozmente das imposições de estilo, espaço e tempo que lhes impunha o jornalismo. Essa tensão segue vigente hoje em dia. Embora o jornalismo seja, normalmente, o ofício no qual se afiam as primeiras armas dos escritores e escritoras novos, quase todos chegam à conclusão de que devem afastar-se por um tempo dele se querem seguir uma carreira literária. Por outro lado, um fato muito lamentado pelos escritores é a desaparição parcial ou total das páginas literárias em nossos jornais. Fora as crônicas, a que apenas os autores consagrados são convidados a escrever, e as resenhas de livros, que têm uma finalidade primordialmente comercial, o jornal já não oferece espaço para a criação literária em suas páginas. Para muitos que começam na ficção e na poesia, publicar na internet se tornou quase que a única alternativa.

– O que o jornalismo tem a oferecer a escritores além de um emprego com salário fixo no fim do mês? É possível que, trabalhando com o mesmo material, a palavra, o muro que separa imprensa e literatura eventualmente se torne uma linha tênue?

– O jornalismo tem muito a oferecer aos escritores em termos de contato com a experiência cotidiana e exercício de textualizar a realidade. Mas não há dúvida de que suas exigências, como as de qualquer emprego regular, não raro dificultam o sossego e ócio necessário para todo escritor. Talvez as empresas jornalísticas pudessem adaptar algumas práticas do mundo universitário, por exemplo, como os períodos sabáticos.

– Seu livro Killer books: writing, violence and ethics in modern spanish american narrative, recém-publicado, aborda uma tendência que também se verifica na literatura brasileira contemporânea. Por que a violência vem se tornando um tema cada vez mais literário?

– Killer books surgiu a partir de meu interesse em investigar a relação entre a ética e a criação literária. Neste estudo, assinalo que a violência tem sido um tema de nossas literaturas latino-americanas desde a época da Conquista. A denúncia moral da violência dos poderosos contra os fracos aparece pela primeira vez nas obras do frei Bartolomeu de las Casas, no século 16. Não digo que seja uma característica exclusiva das literaturas latino-americanas, mas acredito, por nossas circunstâncias históricas, que os latino-americanos sentimos a violência de forma talvez mais imediata. O mais interessante é que, no século 20, a reflexão ética sobre a violência, que sempre esteve presente em nossa literatura, se torna mais auto-reflexiva, quer dizer, se volta à escritura mesma, e autores como Borges, Carpentier, Cortázar e García Márquez, entre muitos outros, começam a se perguntar-se se não haveria algo violento na própria escritura, na ação de escrever, que implica fazer uma espécie de marca ou corte numa superfície indiferenciada. Num contexto filosófico, Jacques Derrida postula a mesma pergunta num capítulo intitulado ?A violência da letra?, em seu célebre livro Da gramatologia. Mas os escritores hispano-americanos dramatizam a pergunta ética sobre a violência intrínseca da escritura de modos muito mais urgentes. É possível uma escritura sem violência? É possível escrever sem fazer-se cúmplice dos mecanismos de poder que têm estado entrelaçados com a escritura desde a antiga Mesopotâmia?

– Já o novo livro que você está preparando discute a volta das histórias sentimentais na literatura contemporânea. O que explicaria esse fenômeno? O fim das ditaduras latino-americanas ou a despolitização do leitor?

– Postulo que, a partir dos anos 80, ocorreu uma volta aos temas amorosos na obra de grande número de escritores hispano-americanos, tanto entre os velhos mestres do boom, como entre os jovens do pós-boom. Para mim, este retorno obedece a uma variedade de causas, entre elas a redemocratização de muitos países de nosso continente e os fenômenos da globalização econômica. Com o fim da Guerra Fria e a perda de interesse pela opção revolucionária, surgiu no continente uma preocupação em sanar não apenas os danos causados a sistemas político-econômicos, como também feridas infligidas a comunidades inteiras e também às almas dos indivíduos. Mas não acredito que as novelas sentimentais sejam textos apolíticos. Vejo-as como uma investigação, por parte dos autores hispanoamericanos, acerca da capacidade da escritura literária de seduzir seus leitores e criar um sentido de comunhão e de comunidade entre escritores, leitores e textos. Evocando a dicotomia entre o amor passional e o amor ao próximo, eu diria que a maioria de nossos romances tenta provocar em seus leitores esse último tipo de amor, o amor a nossos semelhantes, o respeito pelo outro."

 

ENTREVISTA / ZILDA IOKOI

"Escreveu, não leu…", copyright IstoÉ, 29/04/02

"Um cartaz chama a atenção de quem visita o prédio do departamento de história da Universidade de São Paulo. Escrito em letras coloridas, um velho ditado popular: ?Escreveu, não leu, o pau comeu.? A frase se dirige à chefe do departamento, Zilda Grícoli Iokoi, 55 anos, alvo de críticas na imprensa desde o dia 31 de março. Naquela edição da Folha de S. Paulo, a coluna do jornalista Elio Gaspari listou pela primeira vez 14 erros encontrados em um dos livros de Zilda, O Brasil atual e a mundialização (Edições Loyola, 1997), quinto volume da coleção paradidática História temática retrospectiva. No livro, os nomes do senador americano McCarthy e do ex-presidente Eisenhower foram grafados McArthur e Eisenhauer e a anistia política aparece como se tivesse sido assinada em 1988 (o correto é 1979). Estes erros não impediram que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo indicasse a obra para um concurso de admissão de professores.

Assim que leu a coluna, Zilda colocou o cargo de chefe à disposição do departamento – o que foi recusado pelos colegas – e acertou com a editora o recolhimento da publicação. O episódio mostrou o perigo que livros mal revisados trazem para a formação do aluno e os critérios duvidosos que movem as instituições responsáveis por zelar por sua qualidade. De volta à rotina, Zilda ainda não se refez do ?linchamento público? de que foi vítima, como gosta de dizer. ?É moda bater nos professores. Não precisava chamá-los de idiotas?, repreende.

ISTOÉ – Como surgiu a coleção História temática retrospectiva?

Zilda Iokoi – Percebemos que um dos maiores obstáculos para o ensino de história era o racismo. Na rede pública, os negros são considerados baderneiros, enquanto os descendentes de imigrantes são vistos como detentores de cultura. Estudamos os negros, os índios, os movimentos sociais e a conquista dos direitos e fizemos quatro livros. O quinto, O Brasil atual e a mundialização, seria a síntese e eu me encarreguei de escrevê-lo. Em vez de apresentar a história cronológica do Brasil, traz uma análise da influência no País dos acontecimentos internacionais.

ISTOÉ – Traçar a história a partir dos movimentos sociais é positivo?

Zilda – Este é o modelo da nova historiografia, desenvolvida sob uma concepção marxista. Não devemos estudar o passado pelo passado nem simplesmente apresentar informações. A base da história está nos movimentos sociais. Não foram os parlamentares que incentivaram a assinatura da Lei Áurea. A abolição da escravatura nasceu de uma luta popular que obrigou o governo a criar a curadoria dos negros e deu a eles muitos ganhos de causa. Esta forma de trabalhar a história tem uma proposta política: dar à população da periferia uma expectativa de futuro. Não dá para estudar o governo Fernando Henrique sem estudar o MST. Ele só assenta gente porque existe um movimento social pressionando.

ISTOÉ – A maioria dos livros didáticos de hoje faz isso?

Zilda – A maioria ainda segue a história do ponto de vista das elites. Inovar é muito difícil. A indústria de livros didáticos é poderosíssima. Para muitos autores, é mais cômodo agradar ao Ministério. Alguns vendem um milhão de livros quando indicados. Mas os parâmetros curriculares estão cada vez mais positivos. Promover conexões com diferentes áreas do conhecimento é uma de suas propostas. Elio Gaspari cismou com um trecho do livro em que afirmo que Gláuber Rocha era mais tolerante com os militares do que com a esquerda. Ele fez uma revolução no cinema, mas demonstrava simpatia pelo projeto militar, principalmente por Geisel. E achava que a esquerda fazia patrulha ideológica.

ISTOÉ – Como aconteceram os erros?

Zilda – Ainda estávamos escrevendo quando as Edições Loyola toparam publicar os livros e estipularam um prazo curto para entrega. Tive de me debruçar sobre os outros quatro e o meu ficou sem revisão. Na hora de editar, muita coisa foi cortada e os erros apareceram. Foi uma maldita infelicidade. Tenho 30 anos de atividade e já escrevi 500 coisas. Notei que havia problemas assim que o livro saiu. Íamos corrigir para a segunda edição, mas a Secretaria da Educação indicou o livro como bibliografia para um concurso de ingresso de professores e mais de dois mil livros foram comprados.

ISTOÉ – Por que a editora preferiu vender os livros assim mesmo?

Zilda – Não sei. Denota, talvez, uma certa inexperiência do grupo. A Loyola foi muito positiva, mas, em determinado momento, permitiu falhas.

ISTOÉ – Como Gaspari soube?

Zilda – Alguém deve ter sugerido a pauta. Vamos supor que ele tenha espontaneamente resolvido ler um paradidático. Normalmente, quando os leitores percebem erros, escrevem para a editora. Ele preferiu produzir um artigo, fazendo dos erros uma campanha, que seria muito positiva se realmente contribuísse para melhorar a avaliação dos materiais de ensino, o que é necessário. Eu estava em um congresso nos Estados Unidos e soube da coluna lá. Fiquei incomodada por ele promover um linchamento público sem avaliar o conjunto da obra.

ISTOÉ – A sra. não acha justo que ele questione a escolha de um livro com erros para um concurso?

Zilda – Deveria perguntar para a comissão o motivo da escolha. Cada livro tem um problema. Um é muito factual, outro é abstrato. Mas não precisava chamar os professores de idiotas. É moda bater neles. O artigo de Gaspari desqualificou toda a rede pública.

ISTOÉ – Qual foi sua atitude após ler o texto?

Zilda – Ainda dos Estados Unidos, liguei para o diretor da faculdade e coloquei meu cargo à disposição. Ele não aceitou. Discutimos o assunto em plenária e novamente abri mão da chefia. Os professores recusaram e redigiram um documento manifestando confiança na minha integridade. Até os alunos, com quem travo constantes conflitos por conta de temas como a proibição de bebida alcoólica no departamento, demonstraram repúdio ao tratamento dado ao caso.

ISTOÉ – Na faculdade há uma faixa com a frase ?Escreveu, não leu, o pau comeu?.

Zilda – Esta foi uma minoria na plenária realizada pelos estudantes. Em nenhum momento eles foram tolerantes comigo dizendo que podia haver erros. Mas, na assembléia, houve 80 votos de apoio e 20 contrários.

ISTOÉ – A sra. nunca notou um erro em um livro e teve o impulso de chamar o autor de estúpido?

Zilda – Estúpido é o autor que não consegue formular uma proposta. No curso de história, a gente aprende a ler todos os autores para descobrir os pontos com os quais concordamos ou discordamos. Os adversários nos ensinam a argumentar. No meu tempo, tínhamos o vício de não ler os adversários. Eu leio Gaspari."

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