Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > VEJA E O REFERENDO

De desvios interpretativos a mentiras deslavadas

Por Roberto Takata em 11/10/2005 na edição 350

A Veja tem se superado na arte de falar bobagens. Na matéria ‘O referendo da fumaça’ destilou uma série de absurdos como se argumentos fossem, além de lorotas (ou ignorâncias) travestidas em fatos. Alberto Dines já tratou disso neste Observatório. Desenvolvo o tema.

A matéria começa com uma comparação furada com o sistema suíço de consulta popular:

Por essa razão, os suíços aprenderam a não submeter a consultas populares questões cuja efetivação dependa da concordância de outros países, grupos de interesse capazes de tornar o voto popular inócuo. Para funcionar, o referendo da proibição do comércio de armas no Brasil precisa da concordância de outros países (que vendem armas ilegalmente aos bandidos brasileiros) e de grupos particulares de interesse (os criminosos e seus asseclas na polícia).

Ou seja, a Veja põe na conta de interesses legítimos a conivência de países que permitem o comércio ilegal de armas e as ações de criminosos – ainda que não seja evidentemente essa a intenção da revista. Mas ao tentar ridicularizar o referendo escorrega forte no quiabo. Além de ser mentira que na Suíça não se votem por referendo ou plebiscito questões que dependam da concordância de outros países e de grupos de interesses, haja vista o referendo sobre a abertura do mercado interno aos países então recém-chegados à União Européia (em especial os da Europa Oriental) e o plebiscito sobre a liberação das pesquisas com células-tronco – ambos no ano passado.

Bandidos comem pão

A Veja ainda insiste: ‘Os suíços veteraníssimos dos referendos aprenderam também a não pedir ao povo para votar em questões complexas, que exijam competência técnica e estudos detalhados para saber o que é certo ou errado’.

Ok, desde quando decisão sobre a abertura de mercado e pesquisa com células embrionárias humanas não são questões complexas, não exigem competência técnica nem estudos detalhados?

E diz: ‘A maneira como a pergunta do referendo foi formulada é, em si, desonesta’. E sugere substituir a pergunta: ‘O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?’ por ‘O Estado brasileiro pode tirar das pessoas o direito de comprar uma arma de fogo?’. A formulação adotada é muito mais imparcial do que a sugerida pela revista. A Veja justifica de forma canhestra que a proximidade das palavras ‘armas’ e ‘proibição’ faz com que elas pensem que as armas estão associadas à violência:

Uma das regras é que a questão não pode ter palavras com conteúdo emocional forte. Ao juntar ‘armas’ e ‘proibição’, os autores do referendo cometem esse deslize. Como o brasileiro está acostumado a relacionar armas com a criminalidade que assola o país, sua tendência natural é dizer sim à proibição, sem questionar se a medida serve para reduzir a violência.

O brasileiro está acostumado a relacionar armas com a criminalidade porque as armas estão mesmo relacionadas com a criminalidade ou porque na pergunta se juntam as palavras ‘armas’ e ‘proibição’? Se a pergunta fosse: ‘O comércio de alimentos no Brasil deve ser proibido?’ a população acharia que deveria ser proibido porque bandidos comem pão? ‘Direito’ não é uma palavra de conteúdo emocional forte? ‘Estado’ também não?

E cidadãos armados?

Seguem-se outras tolices:

‘1. Os países que proibiram a venda de armas tiveram aumento da criminalidade e da crueldade dos bandidos’, afirmação que ela mesma desmente em sua generalidade logo em seguida: ‘Tanto é assim que a Suíça, onde a venda de armas é livre e os homens recebem um fuzil do Exército para guardar em casa, e o Japão, onde as armas de fogo são rigorosamente proibidas, estão entre os países com as menores taxas internacionais de criminalidade’ (grifo meu).

‘2. As pessoas temem as armas. A vitória do ‘SIM’ no referendo não vai tirá-las de circulação no Brasil’, tanto quanto a proibição do comércio de animais silvestres não elimina o tráfico. O que se buscaria é uma diminuição do número total circulante. E a revista vai na tese: ‘A culpa pelos altos índices de criminalidade e de homicídios não é da arma, mas de quem a tem em mãos’. Ok, granadas também não destroem por maldade, quem destrói são as pessoas que usam granadas para tanto, assim não precisamos controlar granadas?

‘3. O desarmamento da população é historicamente um dos pilares do totalitarismo. Hitler, Stálin, Mussolini, Fidel Castro e Mao Tsé-Tung estão entre os que proibiram o povo de possuir armas.’ Hitler, Stálin, Mussolini, Fidel Castro e Mao Tsé-Tung também respiravam, logo respirar é um ato de maldade. Facínoras são facínoras porque cometeram atos de crueldade, atos não são cruéis apenas porque foram cometidos por facínoras. Se o desarmamento é ruim é porque ele traz conseqüências ruins, e não porque foi defendido por pessoas ruins. Na própria Veja fala-se que Hitler usou do plebiscito para legitimar seu poder. O plebiscito é ruim por conta disso?

‘4. A polícia brasileira é incapaz de garantir segurança dos cidadãos.’ E cidadãos armados garantem a segurança?

Desvia mesmo?

‘5. A proibição vai alimentar o já fulgurante comércio ilegal de armas.’ Diz a revista: ‘bandidos não compram armas em lojas’ – bem, se não compram armas em lojas, como o comércio ilegal de armas vai ser alimentado? A revista responde de modo torto: ‘A medida, além de contribuir para o crescimento do mercado clandestino, pode colocar o cidadão de bem em situação irregular. Mesmo se tiver uma arma registrada em casa, ele não conseguirá comprar munição, a não ser de forma ilegal’. Ou seja, o cidadão de bem vai alimentar o comércio ilegal de armas. Cidadão de bem? Cidadão de bem vai contra as normais legais da sociedade em que vive? Óbvio que apenas o descumprimento da lei não os torna facínoras, mas a proibição da cópia não autorizada torna irregular a situação dos particulares que compram produtos falsificados – devemos liberar a pirataria para que os que gostam de ter um tênis Nike a preço camarada não fiquem fora da lei?

‘6. Obviamente, os criminosos não vão obedecer à proibição do comércio de armas.’ Sim, os criminosos na verdade não obedecem de modo geral às restrições legais. Isso significa que não deve haver restrição legal? Homicidas matam apesar da proibição do homicídio, devemos liberar o homicídio?

‘7. O referendo desvia a atenção daquilo que deve realmente ser feito: a limpeza e o aparelhamento da polícia, da justiça e das penitenciárias.’ Será que desvia mesmo? O futebol desvia a atenção disso; proibamos o futebol e as telenovelas enquanto tais problemas não forem resolvidos?

Campanhas vazias

Se esses fossem os motivos para votar ‘não’, eu votaria sem pestanejar pelo ‘sim’. O problema é que o referendo vem em má hora – uma infelicidade (dupla) é o estouro do escândalo do mensalão (que, como não poderia deixar de ser, acabou canalizando toda a atenção da mídia e da população) e outra é a absoluta falta de dados confiáveis que permita ao cidadão decidir-se de modo informado.

Se de um lado, a restrição imposta aos meios de comunicação pelo TSE – Resolução 022033/2005 (instrução 90) – não ajuda em nada a esclarecer o cidadão, tampouco reportagens como essa da Veja – repleta de desvios interpretativos, ausência de dados a consubstanciar afirmações volitivas, quando não a mentira deslavada.

As campanhas promovidas pelas frentes parlamentares pelo ‘sim‘ e pelo ‘não‘ também em nada ajudam – restringem-se a apelos à emoção, estatísticas duvidosas e afirmações vazias.

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Mestre em Biologia

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/10/2005 Leonel Amaral

    O que mais me deixa indignado é ler os comentários negativos sobre as críticas feitas a posição parcial da Veja. O desrespeito a democracia da revista está claro. Assim como a revista Época declara seu apoio ao sim. Esses equívocos cometidos pela grande imprensa apenas reforçam a desconfiança n informação publicada por elas.
    Defendendo Roberto Tarkata, não há como não irionizar os argumentos ridículos utilizados pela revista, as apelações políticas e a falta de critérios jornalísticos.
    Agora, resta-me procurar a revista Época e faezr uma leitura crítica do seu texto.

  2. Comentou em 11/10/2005 Antônio Guerra

    Senhor Roberto Takata:

    A respeito de seu longo e tendencioso artigo no OI gostaria de comentar só um desvio interpretativo no seu raciocínio (tem outros!) e que induz as pessoas ao erro.
    No item 6 você escreve, literes:
    ‘´6. Obviamente, os criminosos não vão obedecer à proibição do comércio de armas.` Sim, os criminosos na verdade não obedecem de modo geral às restrições legais. Isso significa que não deve haver restrição legal? Homicidas matam apesar da proibição do homicídio, devemos liberar o homicídio?’
    Caro jornalista, a homicídio está no artigo 121 no Código Penal.
    E, só para lhe lembrar, o código penal não proíbe qualquer conduta do Cidadão. Você pode procurar e Você não encontrará nenhuma vez os vocábulos ‘proibir’, ‘proibido’, ‘proibição’.
    O que o código penal (e qualquer lei de qualquer país civilizado e com estado democrático de direito) faz é descrever condutas indesejadas pela Sociedade/Estado e prescrever penalidades, caso o Cidadão as pratique. JAMAIS a lei proíbe qualquer conduta. Apenas prescreve punições para as hiótes de o Cidadão querer praticar uma conduta prevista como indesejável.
    Não sou a favor de qualquer violência, de qualquer tipo de crime, muito menos de homicídio. Mas não posso tirar de ninguém, muito menos de um Cidadão do Bem, direitos. Não posso tirar dele o direito de consumar a conduta que queira praticar, desde que saiba as conseqüências e que as assuma.
    A maior expressão de liberdade e de democracia está justamente no código penal. Toda tentativa de crime é punida. A tentativa de suicídio não é. E suicídio é homicídio. Por que será? Provavelmente por que o legislador já considerou as conseqüências para o autor do tresloucado gesto muito graves, terríveis. Mas o legislador não o proibiu.
    Proibir, Sr. Takata, é coisa de ditadura, de ditadores, de pessoas como Hitler, Stálin, Mussolini, Fidel Castro e Mao Tsé-Tung, sim senhor. Nunca da Democracia.
    Por favor, senhor Takata.
    Deixe o povo interpretar os assuntos com a sua capacidade interpretativa.
    Não os induza a erro.
    Os japoneses kamikase escolhiam ir para a morte, para o suicídio. E ninguém os proibia.
    Proibir, NÃO. Nunca. Jamais. Nada.
    Penalizar, sim. Sempre. E fortemente.
    Induza as pessoas a fazer o bem. Faça o bem. Dê o bom exemplo.
    De nada adianta proibir o mal.
    Pense nisso.
    E se tiver um tempinho, leia Sócrates, Aristóteles e São Tomás de Aquino.
    E nunca mais o querido jornalista vai querer proibir qualquer coisa.
    Fique com Deus.
    E vote Não!, N.º 1.

    Antônio Guerra

    OBS:. Por favor, mostre este e-mail ao meu ídolo como jornalista, o Alberto Dines.

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