Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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E depois do futuro?

01/09/2009 na edição 553

A TV diminuiu, saiu da sala e não é mais refém do horário nobre. A telinha agora está presente em todos os lugares o tempo inteiro. É parte do nosso corpo, quase uma segunda pele digital. Sempre no ar, transmite tudo para todos ao vivo, em cores e até mesmo em 3D. Estamos diante de um novo conceito de televisão. Depois do tubo e do chip surge a TV Tudo. A TV everything, everywhere, all the time (tudo, em todo lugar, todo o tempo).

A televisão deixou de ser somente som e imagem. Não é mais uma mídia analógica ou digital. A TV agora é um novo universo, experiência virtual cada vez mais próxima de uma nova realidade. Graças ao acesso à internet em banda larga, a TV também passou a contar com oferta ilimitada de conteúdo. E que conteúdos! Os custos mais baixos de produção e a guerrilha tecnológica criam novos formatos de TV.

Esses foram alguns dos principais temas discutidos no 6º Fórum Internacional de TV Digital que ocorreu no Arte Sesc Flamengo, no Rio de Janeiro, na sexta-feira (28/8). O evento realizado pelo Instituto de Estudos de TV foi um grande sucesso. Lotação esgotada para discutir o presente e dar uma espiada no futuro da TV digital.

Quem não foi não sabe o que perdeu.

Telespectador idiota

Pelo jeito, ao contrário das previsões, a TV digital não virou cinema. A TV quer ser móvel. Assim como o homem, não quer ficar parada no tempo e no espaço. Assim como homem, a TV quer circular, ser celular.

Participei da mesa de abertura com o jornalista e diretor de TV Nelson Hoineff e o secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura Silvio Da-Rin. Logo no início perguntei aos mais de 300 participantes do fórum por que estávamos reunidos em mais um evento sobre a TV digital brasileira? ‘Creio que queremos entender o presente e prever o futuro’, disse. E para entender o presente, selecionei algumas manchetes recentes que demonstram os problemas enfrentados pela nossa TV.

De um lado, ‘Lula critica qualidade da programação da TV brasileira’ e o ministro da Cultura Juca Ferreira acrescenta: ‘TV aberta não pode ser a única atividade cultural’. Do outro lado, o radiodifusor Hélio Costa, atual ministro das Comunicações, contesta: ‘Juventude tem que despendurar da internet e voltar a ver TV’.

‘Confuso? Parece que os responsáveis pelo nosso futuro não sabem onde estão e para onde vão? Talvez seja por isso que estamos aqui reunidos nesse fórum’, disse na minha apresentação.

Na mesma mesa de abertura, Nelson Hoineff, presidente do IETV, procurou esclarecer algumas dúvidas sobre o atual estágio da TV brasileira: ‘O novo espectador de televisão não é o `você que está aí em casa´. É o individuo que está em qualquer parte e que não compartilha o que está vendo. É principalmente o jovem, que abandonou a televisão porque aquilo que está pendurado na parede lhe trata como débil mental. Os responsáveis pela nossa TV podem continuar tratando-o como um idiota, mas se alguém quiser um conselho de graça, é bom que não o faça’.

Não é à toa que os governantes e radiodifusores brasileiros estão tão confusos e temem tanto a popularização das broadband TVs ou TVs com acesso à internet. Talvez estejamos diante do fim do telespectador idiota. Ainda mais se considerarmos que somente as novas TVs digitais têm lançado conteúdos originais e inovadores. E os melhores programas de TV estão sendo transmitidos com exclusividade para celulares.

Para deixar os radiodifusores ainda mais preocupados, hoje o Brasil já tem mais celulares do que aparelhos de TV. No modelo atual de televisão, as redes comerciais não podem perder audiência para outras mídias. Ainda não perdem receita publicitária, mas é mera questão de tempo. O problema é que elas já estão perdendo audiência – principalmente nos segmentos mais importantes – para as novas mídias.

O futuro chegou

E como citou Ricardo Mucci, diretor de Novas Mídias da Fundação Padre Anchieta, ‘pela natureza do negócio, as redes comerciais abrem somente as portas dos shopping centers. A TV Cultura de São Paulo, no entanto, prefere abrir as portas das bibliotecas’.

Foi uma bela defesa dos princípios da TV pública de verdade. A apresentação de Mucci no 6º Fórum de TV Digital teve a cara da melhor e mais inovadora emissora de TV do Brasil: clara, simples e informativa. Com o título de ‘A TV Cultura na era da transmissão participativa, da difusão de conteúdos multiplataforma e da TV digital’, Mucci descreveu em detalhes inúmeras inovações da emissora paulista através dos anos.

A destacar a primeira transmissão ao vivo via internet da TV brasileira no programa Vitrine, com Marcelo Tas, dirigido pelo Gabriel Priolli. Mucci também relembrou inovações de linguagem televisiva em programas infantis como o Vila Sésamo e o Castelo Ra-Tim-Bum, além da produção da primeira novela educativa brasileira, João da Silva.

A TV Cultura sempre foi sinônimo de inovação tecnológica e de criatividade na produção de uma nova linguagem televisiva. Infelizmente, também enfrenta constantes problemas com a falta de recursos, greves, intromissões sindicais, partidárias, governistas e a baixa audiência. Agora na era digital, a TV Cultura de São Paulo prepara novas surpresas para os telespectadores mais exigentes.

Ricardo Mucci anunciou o lançamento do Programa Novo, uma produção juvenil de duas horas de duração, ao vivo que estréia em setembro. O programa terá na interatividade o seu grande diferencial. O público será convocado a escolher quase tudo, inclusive o nome do novo programa.

Mais uma vez, a TV Cultura de São Paulo, a melhor TV do Brasil, investe na inteligência do telespectador. Investe na sobrevivência de um modelo de TV publica de verdade.

Objeto do desejo

A grande surpresa do 6º Fórum de TV Digital do IETV em vários e peculiares sentidos foi a apresentação do CEO da M1nd, Alberto Magno. É assim mesmo que se escreve. Mas se pronuncia Mind – ou ‘mente’, em inglês. Também levei tempo para perceber e entender a pequena diferença. Coisas da revolução digital.

Mas não deveria ser uma surpresa. Alberto Magno é filho do igualmente talentoso e polemico ator Jece Valadão. Foi o momento de descontração e ousadia do fórum. Convidado para falar sobre a ‘TV do Amanhã’ e descrever as suas experiências com a produção e transmissão de conteúdos exclusivos para a TV no celular, Magno anunciou de forma enfática que ‘o celular é o novo objeto de desejo das pessoas’.

Esqueçam o automóvel, o aparelho de TV ou o computador de última geração. Para Magno, a TV aberta ou por assinatura já morreu. ‘A TV do amanhã está no celular’, previu Magno. Ele também defendeu o conteúdo e softwares gratuitos. ‘Tudo de graça para todos. No futuro todos vão assistir todos’, afirmou. O CEO da M1nd também exibiu um vídeo com as suas principais realizações. A destacar a transmissão ao vivo e exclusiva para celulares de um grande evento musical da TIM. Com mais de 100 técnicos, jornalistas e apresentadores, a superprodução da M1nd não deixou nada a dever às realizações das grandes emissoras de TV. Para Magno, e para surpresa de muitos participantes do fórum, ‘a qualidade da cobertura do evento comprova a chegada do futuro da TV nos celulares’.

Realidade virtual

Mas o 6º Fórum de TV Digital não se resumiu a discutir novas tecnologias e conteúdos originais para uma televisão móvel. De forma muito criativa e irreverente, o roteirista e diretor de cinema Newton Cannito contestou alguns mitos sobre o presente e o futuro da TV. Ele se dirigiu à platéia e perguntou: ‘Como vai ser o futuro da TV? É o fim das narrativas e das grades de programação? Individualização da experiência coletiva de assistir TV? Interatividade total? Todos vão produzir TV? Mas, afinal, o que é essa tal de interatividade na TV?’

Para Cannito, interatividade é muito simples. Já existe, sempre existiu e não passa da nossa vontade ou necessidade de conversar com amigos sobre a novela, as notícias do telejornal ou o último programa a que assistimos. TV dá assunto, é debate coletivo, é o espaço público do país. Para ele, as mídias não surgem do nada. Elas existem para potencializar as demandas. Cannito também tem dúvidas se todos querem ou vão ser realizadores no futuro da TV. ‘Todos seria um exagero’, afirma. TV ainda é – e no futuro próximo ainda continuará sendo – uma experiência passiva. A maioria dos telespectadores ainda liga a TV para não pensar, não fazer nada. TV não é internet.

Ao defender as transmissões ao vivo, o grande diferencial da TV, Cannito fez questão de dizer que TV é mídia de fluxo. Não é mídia de arquivo. Nos anos 1950, a TV era muito criativa talvez porque – por limitações tecnológicas – era somente ao vivo. Tinha cara de rádio. Agora, digital, a TV volta às suas origens. Para Cannito, no entanto, a principal característica do digital é que não estamos diante de uma nova mídia. ‘O digital é todas as mídias’, disse o criador da série para TV 9mm.

Assim foi o 6º Fórum Internacional de TV Digital. Lembramos o passado, refletimos sobre o presente e tentamos imaginar o futuro. Mas, e depois do futuro? Quais serão os novos desafios das mídias digitais e da TV do amanhã? Citei a transmissão das primeiras imagens holográficas pela CNN durante a cobertura da eleição do presidente Barack Obama, em 2008. Também procurei provocar o público a imaginar uma TV além dos limites do digital. No futuro muito próximo, ao invés de assistir a programas de televisão em alta definição ou em celulares, vamos vivenciar novas experiência em uma TV com ‘realidade virtual’.

Não custa sonhar. Afinal, o futuro é hoje, o ‘depois do futuro’ promete muitas surpresas e está cada vez mais próximo.

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Jornalista, doutor em Ciência da Informação, professor da UERJ

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