Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Foco na educação para conectar os pobres à internet

Por Evelyn M. Rusli em 28/04/2015 na edição 848

Quando Sumarni, uma mulher de 39 anos de uma vila rural da Indonésia, pegou um smartphone pela primeira vez, reagiu dizendo “bingung,” que significa “confusa” em indonésio.

Olhando para superfície preta polida do telefone Android, ela perguntava: “Onde estão os botões?” Ela teve medo de segurar o aparelho, que custou muito mais que sua renda mensal de cerca de US$ 60, que obtém vendendo biscoitos e salgadinhos num cômodo de sua casa.

Agora, Sumarni é uma participante entusiástica da economia digital mundial. Ela usa o navegador do smartphone com competência, o serviço de mensagens WhatsApp e o site de rede social do Facebook Inc., onde ela tem 40 amigos e lançou uma loja on-line de roupas e acessórios femininos.

Sumarni é a realização do sonho das empresas de tecnologia, que tentam alcançar os cerca de 65% da população mundial que ainda não têm acesso à internet. A possibilidade de conectar esses 4 bilhões de pessoas ao resto do mundo tem levado as empresas a agir e ajudado a elevar às nuvens o valor dos aplicativos e aparelhos preferidos dos investidores.

Fabricantes de aparelhos na China e na Índia estão produzindo em massa dispositivos de baixo custo, enquanto o Google Inc. e o Facebook têm chamado a atenção com um trabalho com drones e balões de alta altitude que transmitem a internet.

Na pequena vila onde Sumarni mora, a cerca de duas horas de Jacarta, e em zonas rurais no mundo todo, a realidade é menos animadora. Barreiras sociais que fogem ao controle das empresas estão mantendo as pessoas off-line. A corrida para colocar o próximo bilhão de pessoas on-line pode demorar mais do que muitos executivos preveem.

“É fascinante dizer: ‘Eu vou aos mais distantes rincões do mundo para conectar pessoas.’ Mas há tanta gente que tecnicamente poderia acessar a internet e não o faz”, diz Ann Mei Chang, ex-diretora sênior para mercados emergentes do Google, hoje diretora executiva do Laboratório de Desenvolvimento Global dos EUA, parte da Agência para o Desenvolvimento Internacional do governo americano.

Apenas 16% dos 250 milhões de habitantes da Indonésia acessam a internet regularmente, segundo o Banco Mundial. Os principais obstáculos são os salários baixos, falta de conhecimento digital e de conteúdos atraentes para a população.

Muitos usuários podem pagar pela internet, mas têm dúvidas sobre se vale a pena.

A introdução da web na vida de Sumarni levou três anos com estímulo e apoio financeiro da Ruma, uma “startup” de Jacarta que tenta tirar as pessoas da pobreza através do uso de dispositivos móveis.

A Ruma ensinou Sumarni a operar uma empresa a partir de um celular básico através da revenda de créditos. A empresa também emprestou dinheiro para que ela comprasse seu primeiro smartphone e deu aulas sobre como usá-lo.

Antes, ela não pensava e nem via razão para estar conectada.

Aprender com as pessoas

Em 2013, Eric Schmidt, presidente do conselho do Google, previu que o mundo todo estaria on-line até o fim da década. Mas a expansão da internet para novos usuários está na verdade caindo.

Segundo a consultoria McKinsey & Co., a expansão no número usuários da web no mundo todo desacelerou para um crescimento de 10,4% de 2009 a 2013, comparada a 15,1% entre 2005 e 2008.

Até 2017, 900 milhões de pessoas devem se conectar à internet, o que elevaria o total para 3,6 bilhões. Isso ainda deixaria cerca de 4 bilhões de pessoas off-line.

Kara Sprague, executiva da McKinsey que conduziu a pesquisa, diz que inicialmente esperava encontrar um grande número de pessoas muito pobres e sem educação e conhecimentos para acessar a internet. Mas isso se aplicava apenas a uma pequena fração das pessoas que optam por permanecer off-line. O estudo foi realizado em conjunto com o Facebook.

O diretor-presidente do Facebook, Mark Zuckerberg, pensava que a pobreza era a principal barreira quando lançou a Internet.org dois anos atrás. A entidade pretende ampliar o acesso mundial à internet.

Representantes da Internet.org fizeram pesquisas em mercados emergentes, indo de casa em casa na Índia para conhecer os hábitos tecnológicos das famílias. “Perguntávamos: ‘Qual é o seu plano de dados?’“, lembra Zuckerberg. “A resposta era muito simples, mas meio arrebatadora”, diz ele. A maioria das pessoas respondia: “O que é um plano de dados?”

Agora, Zuckerberg diz: “Eu achava que, para conectar todo mundo, era preciso uma nova tecnologia e uma mudança na estrutura econômica. Ao contrário, é tudo uma questão de conteúdo e conscientização.”

A Indonésia personifica a vasta oportunidade e os desafios complexos de conectar as pessoas.

O Google o Facebook chegaram ao país recentemente, e a chinesa Xiaomi Corp. começou a vender seus smartphones lá em 2014. Mas cerca de 100 milhões de pessoas vivem com menos de US$ 2 por dia, e a Indonésia tem a terceira maior população off-line do mundo, atrás da Índia e da China, segundo a McKinsey.

Um smartphone Android básico chinês pode custar só US$ 50, mais créditos. Os preços em queda ajudaram a impulsionar o acesso on-line, segundo a Ruma.

Anos atrás, o Google fez uma pesquisa na Índia com pessoas que nunca tinham usado a web, diz Chang, a ex-executiva do Google. A empresa mostrou a uma mulher o site do Google e disse que ela poderia procurar qualquer coisa escrevendo no campo de busca. A mulher respondeu: “Eu queria saber o que o futuro nos reserva.” A lição, diz Chang, era: “Precisamos ajudar as pessoas a partir do nível [de entendimento] em que elas se encontram.”

O esforço para conectar as pessoas é altamente fragmentado. No Google, as iniciativas de acesso à internet estão espalhadas em diversos grupos. O projeto Loon, o programa do Google para enviar balões pelo mundo para levar acesso à internet, é parte do laboratório de pesquisa Google X. Outros projetos de conectividade são tocados por equipes de mercados emergentes e escritórios regionais.

O Facebook e o Google têm aumentado os esforços para derrubar as barreiras sociais ao acesso à internet, especialmente criando mais conteúdo local.

No começo, a Internet.org se concentrava em melhorar a eficiência tecnológica dos aplicativos do Facebook e em acordos com operadoras para reduzir custos. Agora, isso foi combinado com um esforço para unir o Facebook a serviços locais. No ano passado, a rede social fez um app com a Internet.org para a Zâmbia que inclui informação sobre o tempo, vagas de emprego locais e organizações de mulheres, além da prórpia rede social do Facebook.

Na Índia, o Facebook promoveu um concurso no ano passado para estimular grupos locais a desenvolver conteúdo e aplicativos para populações excluídas. A missão de conectar pessoas é dificultada pelas cerca de 100 línguas faladas na Índia.

Na semana passada, o Facebook lançou a Internet.org oficialmente na Indonésia, em parceria com a operadora Indosat para oferecer internet grátis para a população local.

O Google, que chegou à Indonésia há mais de um ano, promove conferências para empresas em diversas cidades, com cerca de 2.000 empresas por evento.

“O que precisamos aprender é que tipo de coisas as pessoas querem saber”, diz Andrew McGlinchey, o gerente de produto do Google para a Ásia e Oceania. “Estamos fazendo nosso melhor esforço para entender o próximo grupo de usuários da internet.”

A Internet.org calcula que já ajudou a 7 milhões de pessoas a usar a transmissão móvel de dados pela primeira vez.

Zuckerberg, do Facebook, diz que nos próximos anos a Internet.org vai enfatizar a educação de campo, embora os esforços devam ser eclipsados por drones e satélites. A iniciativa de educar “não é um tema tão sexy” quanto o de conectar as pessoas, diz ele.

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Evelyn M. Rusli, do Wall Street Journal

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