Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

INTERESSE PúBLICO > PRECONCEITO & APELAÇÃO

Holocausto dá samba?

Por Alberto Dines em 04/02/2008 na edição 471

O Holocausto, até agora não deu samba, mas já produziu duas comédias extraordinárias, comoventes (La Vita è Bella, de Roberto Benigni e Train of Life, de Radu Mihaileanu, de 1997 e 1998, respectivamente).


Antes de exibidas provocaram reações indignadas das comunidades judaicas do mundo inteiro. A qualidade artística de ambas, a mágica de manter juntos o riso e a lembrança da dor, calou os inconformados e intolerantes. Uma década depois, ninguém fala em desrespeito ao luto.


O filme A Queda, sobre os últimos dias de Hitler no bunker em Berlim, também foi precedido de críticas às tentativas de humanizar a besta. Depois verificou-se a sua inestimável contribuição para retratar as deformações mentais produzidas pelo nazi-fascismo.


O carro alegórico da Escola de Samba Viradouro (Rio) sobre o Holocausto dos judeus na Segunda Guerra Mundial dentro do enredo ‘É de arrepiar’ converteu-se numa ode à insensatez, à qual a mídia ofereceu significativa contribuição.


O episódio começou de forma civilizada. O carnavalesco Paulo Barros procurou a Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj) para explicar a sua idéia e garantir a sobriedade da sua criação. Não haveria mulatas, alegria, ziriguidum. As conversas prosseguiram neste nível e tudo indicava um desfecho consensual. Até a mídia entrar em ação por intermédio do colunista Adriano Silva (Época, edição 506, pág.110).


Seu artigo ‘Ninguém deve censurar o Carnaval’, aparentemente bem-intencionado, porém tomado por aquela indignação fácil que hoje domina nossa mídia (nela compreendidos os mediados), contém uma coleção de atrocidades que provocou extremada reação de certas alas da Fierj. A justiça foi acionada, embargou o carro alegórico e Paulo Barros fez exatamente aquilo que se espera de quem é vítima de uma censura: driblou-a. Substituiu a alegoria contra o Holocausto numa alegoria a favor da liberdade de expressão.


Enredo ousado


O que escreveu o colunista de ‘Época’?


** ‘Os judeus não são os donos do Holocausto.’ – Correto: dono do Holocausto é o nazifascismo e seus diferentes subprodutos que continuam espalhando o ódio racial e religioso em todos os quadrantes do mundo.


Os judeus são as maiores vítimas do Holocausto. Nesta condição, os judeus – observantes ou seculares, ortodoxos ou agnósticos, sionistas ou internacionalistas, de direita ou de esquerda – têm o direito e o dever moral, como seres humanos atingidos pelo sofrimento, de reagir às tentativas de negar, minimizar ou ridicularizar a catástrofe que atingiu suas famílias. Foi esta compreensão que levou Paulo Barros à Fierj.


** ‘Quem tem de decidir se o Holocausto pode ser tema de desfile são os carnavalescos, não a Federação Israelita.’ – Errado: os carnavalescos não têm legitimidade para representar a sociedade. Sua criatividade como artistas não pode colocá-los na contramão dos sentimentos gerais. Sobretudo porque um enredo de escola de samba não é obra individual, mas coletiva, montada (teoricamente) à custa do município. O carnavalesco Paulo Barros compreendeu isso de forma nobre, superior. Já o jornalista optou pela retórica fácil do trombone.


** ‘Ninguém deve censurar o Carnaval’ (título do artigo) – A afirmação será validada no dia em que um carnavalesco ousar um enredo sobre a íntima relação de contravenção, corrupção e narcotráfico. Até lá a liberdade de expressão dos carnavalescos ficará no plano ideal.


Dá samba


Quanto este observador soube da alegoria da Viradouro imaginou que nós, brasileiros, mais uma vez encontraríamos uma forma engenhosa, consensual e criativa de contornar eventuais divergências. Quando leu o texto de Época achou-o carente da indispensável delicadeza que o tema e a situação exigiam.


Este observador não se considera dono do Holocausto, é um dos enlutados por esta incomensurável violência. Perdeu na Ucrânia, em 13 de julho de 1942, cerca de 20 parentes de primeiro grau (avó paterna, tios e primos), 30 ou 40 no total, se computados parentes um pouco mais distantes. Não se revoltou contra a alegoria.


Já os radicais da Fierj leram o texto de Época como se fosse um desafio do carnavalesco Paulo Barros. O resultado é conhecido. O Holocausto vai dar samba.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/02/2008 Fernando Schweitzer de Oliveira

    Thiago Conceição, que saudade das suas contradições de [ ] de direita. No dia que padres pararem de serem acusados de pedofilia com os coroinhas, aí você repita essa frase… E no meu tempo e no de Stânislavisk se contavam histórias sob o naturalismo através da interpretação dos artistas, e porque esse falso moralismo? Falar sobre a história do chocolate sem alegorias que representem o chocolate seria nota zero de alegoria. Falar do Holocausto sem alegorias sobre o Holocausto seria nota DEZ? Ou tudo que aprendi sobre interpretação ao estilo naturalista mudou, ou o povo não entende nada de arte! A 2ª opção está gritando!!! Por favor… Porque os americanos podem usar asiáticos eternamente como vilões em filmes? Olha o PIGA – Partido da Imprensa Golpista da Arte… Retratar fatos históricos pode servir num país onde o ensino tem livros didáticos manipulados e escritos na década de 70 pelos militares, para que as pessoas descubram finalmente que Hitler e Che Guevara não são a mesma pessoa, que um era de ultra-direita e outro extrema-esquerda. Só que ia ser difícil para a Globo e PIG impresso, comentar o ato histórico, seja por incapacidade ou falta de vontade!

  2. Comentou em 04/02/2008 Marcos Roberto

    Esse Adriano Silva era o editor-chefe da revista Superinteressante?

  3. Comentou em 04/02/2008 Marco Antônio Leite

    Corrupção não tem cor, credo, cultura ou time de futebol. Corrupção é corrupção em qualquer idioma!

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