Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > PLANETA NET

Internet 500 vezes mais rápida

Por Deonisio da Silva em 16/02/2010 na edição 577

Os perigos do Google ainda não foram detectados no Brasil. Seus mecanismos de busca percorrem o mundo e digitalizam tudo o que está disponível. E se daqui a pouco o Google resolver cobrar pela informação, hoje grátis, ou impor restrições ao acesso, hoje livre para todos? Daí, sim, veremos o que significa de verdade o Big Brother monstruoso que as letras já anteviram.

Por enquanto desfruta-se apenas de suas facilidades. Sem pagar mais do que o acesso à internet, pode-se perguntar qualquer coisa ao pitoniso do nosso tempo, que, semana passada, informou que prepara o lançamento de uma conexão para a internet quinhentas vezes mais veloz do que a mais rápida que utilizamos no Brasil.

Trafegando a 1 gigabit por segundo – 100 vezes mais rápida do que as melhores conexões por fibra óptica utilizadas hoje nos EUA –, os dados chegarão a uma elite de até 500 mil pessoas, que, segundo o coordenador do projeto, James Kelly, pagarão um ‘preço competitivo’, sabe-se lá o que significa isso. Se ninguém terá este serviço, ele competirá com quem?

Desrespeito como norma

A internet mais rápida do mundo é a da Coreia do Sul. Ainda assim, para baixar um filme de 120 minutos, de alta definição, é necessário o dobro do tempo. É muito, mas de todo modo é bem menos do que as 49 horas que se gasta ou se gastaria no Brasil. Pois o Google promete baixar todo o arquivo em seis minutos. Com qualidade de devedê, seriam gastos apenas quarenta segundos. Na Coreia do Sul, hoje são despendidos para a tarefa trinta minutos e no Brasil, cinco horas e trinta minutos.

A Veja deu chamada de capa à matéria assinada por Benedito Sverberi e Renata Betti. Será bom para os leitores se a mídia especializada, repercutindo o noticiado pela revista, ajustar um pouco o foco de suas reportagens sobre informática e tratar também dos senões desses avanços, que os há e são muitos, pois parecem obcecadas apenas com os benefícios.

No Brasil, para o pobre a internet rápida ainda é uma festa da qual ele não pode participar. As tarifas das operadoras de telefonia estão entre as mais caras do mundo. As felizardas anunciam velocidades que não entregam. Se o usuário reclama, ouve que ‘naturalmente’ aquela velocidade é para determinadas regiões, convocam o cliente infeliz à resignação e tudo fica mais ou menos por isso mesmo.

Biblioteca babélica

Entre os perigos estrategicamente ignorados há um que ronda o nosso convívio e está prestes a acontecer: é o apagão da internet. A empresa de consultoria americana Nemertes Research tem um estudo que fixa a catástrofe para 2014, mas esse ano é lembrado apenas como o da Copa do Mundo no Brasil.

Por enquanto, o Google é visto no Brasil como uma ferramenta de pesquisa. Mas, com tal velocidade de internet, ele será muito mais do que isso. Pequeno exemplo: um sábio renascentista tinha uma biblioteca de cerca de cem livros. Com tais recursos eletrônicos, qualquer cidadão poderá ter uma de milhares de volumes, buscados não mais nas livrarias, mas na rede mundial.

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Escritor, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e De onde vêm as palavrasNOTAS

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/02/2010 deonisio da Silva

    É interessante o debate. Mas os leitores precisam ser lembrados de mais uma coisinha: o controle da internet está, em muitos países, nas mãos do Estado ou de empresas. Os chineses que experimentem criar um mecanismo de busca para ver aonde irão com isso. Mesmo no Brasil, quase todas as empresas controlam a navegação de seus funcionários. Não estou dizendo se procedem corretamente ou não. Apenas, tendo feito tese de doutorado sobre censura, na USP, me aprofundei no tema de tais controles da expressão – em livros, principalmente. A proibição é o mais evidente recurso de controle, mas não é o único! E foi a França, a nação do livro, segundo a Unesco, quem primeiro advertiu para os perigos do Google. O Google é uma empresa privada. Pode, se lhe for favorável, simplesmente negar acesso a tudo o que copiou de graça. E os queixosos que vão para tribunais do mundo inteiro. Já tive livro pirateado e sei o que isso significa. Mas não estou pensando em dinheiro ou em direito autoral apenas, e, sim, na liberdade.

  2. Comentou em 18/02/2010 Fábio de Oliveira Ribeiro

    O autor do texto parece não ter compreendido a dinâmica da Internet. No dia que o google cobrar por pesquisa, a empresa Google morre (e um novo buscador gratuito será criado).

    O autor fez um paralelo entre o sábio renascentista (que tinha cem livros) e os internautas (que tem milhões de livros à disposição) mas não percebeu o principal. O perigo maior não é o apagão da Internet (problemas técnicos podem ser resolvidos), nem o controle da informação (cada usuário é quase um senhor absoluto da informação que consome e que divulga na Internet), mas o excesso de informação.

    Apesar de tanta informação disponível, nossas limitações humanas continuam existindo. Que proveito podemos tirar de tanta informação? Que uso daremos para tanta informação? Como separar lixo digital daquilo que realmente interessa?

    Se estivesse vivo Nietzsche certamente diria: Quando você olha para o abismo do excesso de informação nenhuma informação realmente boa, bela e justa olha de volta para você.

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