Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

INTERESSE PúBLICO > WEB & ELEIÇÕES 2010

Internet e participação política

Por Francisco Paulo Jamil Almeida Marques em 06/07/2010 na edição 597

Ainda que possa ser apontada uma série de ressalvas quanto ao emprego político da internet (vejamos a ideia de exclusão digital, por exemplo), persistem as esperanças depositadas na comunicação mediada pelo computador para se resolver problemas inerentes à vida democrática. Ao se projetar a utilização das ferramentas de internet no intuito de reverter a apatia dos cidadãos; ao incrementar as iniciativas de transparência em distintos âmbitos governamentais; ou ao se constatar o crescente emprego, por parte dos usuários, de suportes interativos dificilmente manipuláveis – em sua integridade – por grupos políticos ou econômicos, confere-se aos dispositivos de comunicação digital um caráter predominantemente democrático.

Porém, o debate sintetizado à especulação acerca das potencialidades e dos limites das plataformas digitais de comunicação não parece ser o mais frutífero. Isso porque, para se constatar qualquer aperfeiçoamento nas práticas democráticas, é indispensável ir além das impressões e palpites para verificar empiricamente se, e em que medida, os instrumentos à disposição vêm, efetivamente, sendo empregados.

Especificamente no que concerne às eleições de 2010, percebe-se, mesmo no cenário de pré-campanha, um uso cada vez mais relevante dos media digitais por parte dos candidatos. Mas este não é, necessariamente, um fenômeno novo. Já há alguns pleitos, os partidos e os concorrentes a cargos eletivos vêm lançando mão dos recursos de internet para organizar a militância, aprofundar propostas que não puderam ser integralmente expostas no horário gratuito de propaganda eleitoral, ou ainda promover ataques a adversários, acirrando o que se chama de ‘campanha negativa’.

Investimentos tendem a ser mais eficazes

O ineditismo tem ficado por conta daquelas iniciativas mais ousadas, cujo intento é envolver, de fato, os cidadãos no processo eleitoral. Nesse sentido, o esforço empreendido já em 2008 pelas candidaturas de Barack Obama, nos Estados Unidos, e de Fernando Gabeira, então postulante à prefeitura do Rio de Janeiro, repercutiram, sobretudo, graças à promoção de oportunidades de participação política. Estas experiências demonstraram que atividades como a arrecadação de dinheiro ou a arregimentação de voluntários se tornaram, sem dúvida, mais convenientes por conta dos atalhos comunicacionais propiciados pela estrutura em rede dos media digitais. É o que se vê reproduzido, agora, em todas as iniciativas organizadas, diretamente ou não, pelas coordenações de campanhas dos presidenciáveis.

No entanto, há algumas ressalvas que sugerem um olhar mais cauteloso sobre os modos através dos quais são promovidas as campanhas participativas na Era digital. Primeiramente, considere-se o público para o qual estas experiências são direcionadas. Em universos diminutos – a contarem com uma quantidade de poucos milhares de eleitores, por exemplo –, o essencial ainda continua a ser o contato direto do candidato com os cidadãos. Em cidades pequenas do interior do país, a disputa eleitoral se desencadeia com maior ênfase no corpo-a-corpo, em jantares com famílias tradicionais da região ou em convenções partidárias realizadas nos clubes de festas, e não na televisão ou na internet.

Isto significa que os investimentos em comunicação digital tendem a ser mais eficazes (e necessários) em contextos ampliados de disputa, sobretudo em eleições majoritárias. É isso o que justifica a crescente alocação de verbas de campanha para a formulação e administração de páginas dos candidatos, perfis no twitter, estímulo à criação de blogs e de comunidades em sites de relacionamento.

Os modos melhores e mais democráticos

Em segundo lugar, deve-se questionar o perfil da participação que é proporcionada no âmbito dos websites dos postulantes aos cargos eletivos, mesmo no caso daqueles mais audazes, do ponto de vista da comunicação política. Quanto realmente vale a oportunidade de participar apenas através da publicação de um comentário no blog do candidato? O envio de e-mails com propostas será suficiente para influenciar as disposições e opiniões internas dos candidatos e de sua base de apoio? Além disso, ainda que o candidato se diga influenciado pelos internautas, observe-se que há um longo caminho entre, de um lado, as sugestões enviadas pelos cidadãos até, de outro lado, a efetiva elaboração, discussão e implementação das políticas públicas.

Ligado a esta última dúvida, surge um terceiro senão. Ele indica que é preciso enxergar o jogo político para além dos períodos eleitorais. Ou seja, uma vez passado o pleito, que tipo de emprego será conferido às ferramentas de comunicação digital quando da condução cotidiana da coisa pública? Quais seriam as formas mais eficazes de se reforçar o caráter republicano das instituições do Estado? Até que ponto atrair os eleitores a participar no período da campanha não faz parte apenas de uma estratégia de marketing a fim de reforçar determinados atributos do candidato?

Por último, não obstante as inovações tecnológicas testemunhadas a cada eleição, fica a impressão de que a internet e seus recursos continuam atuando apenas enquanto elementos complementares das campanhas eleitorais. Isso porque, em regra, fatores tais como uma militância mobilizada, coalizões partidárias fortes, perfil das propostas dos candidatos e, principalmente, aspectos contextuais do jogo político (por exemplo: o governo vigente é bem avaliado e consegue transferir votos? Até que ponto é possível aliar partidos historicamente inimigos?) são, ainda, aqueles mais predispostos a exercerem um efeito contundente sobre o resultado das eleições. A reforçar este argumento está o fato de que, até hoje, no caso brasileiro, não houve candidatura majoritária de partidos pequenos alavancada unicamente pelo emprego dos mecanismos de comunicação digital, por mais que, na internet, todos tenham ‘a mesma chance’ de serem acessados.

No final das contas, estas ressalvas não visam a detratar as potencialidades políticas dos media digitais, nem diminuir a importância das iniciativas já empreendidas, mas apenas provocar reflexões acerca dos melhores e mais democráticos modos de se aproveitar estas oportunidades.

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Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA)

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