Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Jornalismo, herança e vocação

Por Lúcio Flávio Pinto em 07/07/2009 na edição 545

Quatro dos sete filhos de Elias Ribeiro Pinto se tornaram jornalistas, o que não é pouco numa única família. Faço a ligação apenas com meu pai porque minha mãe, Iraci, embora essencial à nossa formação, sufocando com sua doçura uma tendência autodestrutiva latente em vários de nós, além de nos inspirar humanismo e simplicidade, não tem ligação direta com a nossa vocação para o jornalismo. Ela se deve a papai.

Ele cursou a escola regular apenas até o 3º ano primário (o ensino fundamental de hoje), mas tinha curiosidade e vivacidade intelectual incomuns. Adolescente, foi fotógrafo, professor de inglês e autor de uma façanha: foi o primeiro locutor esportivo de Santarém, transmitindo – para a Rádio Clube, a ZYR-9 – o clássico do futebol local, entre São Francisco e São Raimundo (a indicar a fortíssima influência religiosa no Baixo Amazonas). Em 1948, aos 23 anos, se tornou redator-secretário do semanário O Jornal de Santarém, fundado em 1943, a publicação de mais longa duração na história da imprensa santarena (e talvez de todo interior do Pará).

Quatro anos depois, em 1952, papai lançou seu próprio jornal. O Baixo Amazonas, ‘semanário noticioso e independente’, conforme se definia no cabeçalho, começou a circular, semanalmente, em 17 de maio de 1952. Era de propriedade da Gráfica Baixo-Amazonas Ltda. Com quatro páginas em formato europeu, um pouco maior do que o tablóide, o jornal tinha Elias Pinto como diretor, Silvério Sirotheau Correa como redator e Ambrósio Caetano Correa como gerente. Sua sede, que abrigava a redação, gerência e oficinas, ficava na rua Siqueira Campos, 430. Entre os seus colaboradores estavam alguns dos principais intelectuais santarenos: Emir Bemerguy, Wilson Fona, Arinos Fonseca e Wilson Fonseca.

Passado mais de meio século, o jornal ainda mantém um ar moderno. Era bem feito para os padrões da época e considerando-se os recursos (e as limitações) da imprensa fora das capitais. Havia uma preocupação em registrar os fatos mais importantes da vida local e tomar posição editorial e política, além de buscar a constante renovação. No número 34, sob o título do jornal, surgiu o dístico: ‘jornal do povo a serviço da região’. Já no número 40, no alto da primeira página, antes do título, foi introduzida uma frase: ‘Os que não quiserem apodrecer à beira do caminho, roídos pelos corvos da intriga, dos interesses imediatistas das paixões subalternas, que venham conosco’.

Primeira página

A Gráfica Baixo Amazonas Ltda., que editava o jornal, passou também a vender livros, pelo preço da capa. Em outubro de 1953 oferecia, dentre outros títulos, A Rua das Vaidades, As Ligações Perigosas, O Grande Pescador, Os Deuses Riem, Eu Soube Amar, Uma Aventura nos Trópicos, Tudo Isto e o Céu Também, A Exilada, A Vida de Jesus, Mulher Imortal, Fugitiva, Cidadela, O Sol é Minha Ruína, O Lago do Amor, Abismo, Eles Esperam Hitler. Papai foi um leitor tão voraz quanto indisciplinado, características que também herdamos.

Já no primeiro número a direção do jornal informou que estava tentando comprar uma linotipo no sul do país para que o Baixo Amazonas pudesse ter circulação diária, além de habilitar sua gráfica a prestar serviços ao público. Ser visionário foi uma característica da personalidade do meu pai, sempre a esbarrar em outra marca sua: a dissipação das suas visões. Editorial do primeiro número, na capa da edição de 13 de maio de 1952, assinalava a preocupação de ir além do impresso:

‘Ao dar à circulação o primeiro número deste semanário, que tem o nome da região a que se destina servir e é homônimo de um outro órgão da imprensa, que se editou nesta cidade entre os anos de 1872 e 1894, não sopesamos, antes temos bem auferida, a responsabilidade que nos impusemos e vimos assumir, perante o público do Baixo Amazonas, de realizar e cumprir um programa de trabalho que se identifique com os interesses coletivos deste trecho do Brasil, à defesa dos quais nos devotaremos sem avareza de esforços, sem descanso, indormidos e atentos, com destemor, crescente entusiasmo e absoluta fidelidade à causa pública’.

Além do editorial, a primeira página da edição inaugural do jornal abrigava matéria sobre o aniversário do bispo, d. Floriano Lowenau, reportagem de A. Barros com o titulo provocativo ‘Quando será reconhecido o valor indiscutível do trabalhador da Amazônia?’, artigo de Antonieta Dolores ‘Do sonho à realidade’ e notícias sobre ‘Promoções’ (de Joaquim Cezar de Paes Barreto e Vitor Murrieta, gerente e contador da agência do Banco de Crédito da Amazônia, respectivamente), a inauguração das novas instalações de Alto-Falantes Ipiranga e sobre a assembléia-geral da Tecejuta, a fábrica pioneira de fiação e tecelagem, que beneficiaria a produção de juta da região (e da qual papai seria diretor).

Impulso natural

O Baixo-Amazonas, que depois incorporou o hífen, durou até 1954, quando Elias Pinto se elegeu deputado estadual pelo PTB, o Partido Trabalhista Brasileiro do seu maior modelo, Getúlio Vargas, com a sexta maior votação no Estado, e se mudou no ano seguinte para Belém, onde passou a morar com a família. Onze anos depois eu segui seus passos, Raimundo José veio em seguida, junto com Luiz, e, por fim, Elias, o mais novo do quarteto.

Nenhum dos quatro se formou em jornalismo e o único que tem um diploma de curso superior sou eu. Quando comecei a faculdade, em 1968. já era jornalista profissional e achei que o curso de sociologia seria mais útil do que o de comunicação social. Não me arrependo, muito pelo contrário: uma das venturas da minha vida foi a visão dos contextos sociais dos fatos, sem a qual meu jornalismo não sairia dos limites dos faits divers.

Raimundo José e Luiz Antonio nem passaram por perto do portão do campus universitário, por pura idiossincrasia com esse sítio acadêmico. Elias entrou, mas zanzou por muitos cursos na condição de beletrista sem permanecer por tempo suficiente para se graduar em qualquer coisa. Por ironia, é o único ainda sem registro profissional, que os dois irmãos mais velhos conseguiram, graças à tolerância do decreto-lei 972 até o reconhecimento do curso superior de comunicação da UFPA e o lançamento no mercado local dos primeiros jornalistas com diploma (acho que em 1981 ou 1982).

Elias já tem 34 anos de brilhante batente nas teclas das pretinhas, substituídas pelas branquinhas, na transição da máquina mecânica para o processador eletrônico. A decisão do STF, pondo fim ao monopólio do canudo de comunicação, lhe abre, finalmente, as portas da legalização completa na profissão, que é sua por herança, vocação e desempenho. Do outro lado, o jornalista Elias Ribeiro Pinto, o primeiro, deve ter ficado satisfeito.

Um dado a mais para a reflexão dos que se dispuserem a pensar sem preconceitos sobre o tema: nenhum de nós viu o fundador dessa mini-genealogia jornalística em operação no metier (mesmo com seu significado ambíguo, a expressão é boa para nos definir), mas foi como se tivéssemos recebido imediatamente o bastão que ele criou. Fiz jornal de colégio, de clube de jovens e bem cedo fui para a redação.

Gago, tímido e destituído de agressividade, característica que lhe arremata a condição de o mais cavalheiresco dentre nós, Raimundo José não teria passado num teste psicológico (ou de ‘relações humanas’) para admissão de jornalistas. Mas se tornou um excelente repórter e um competente entrevistador. Suas qualidades permaneceriam sob o limbo de suas limitações naturais se não fosse jornalista – e dos bons, como é.

Já Luiz teria sido logo demitido se a característica da profissão não impusesse às empresas jornalísticas reconhecer o talento, ainda mais quando excepcional. É o que distingue a corporação jornalística das quitandas, ainda quando estas consigam disfarçar o que são com seus penduricalhos tecnológicos e aproveitando-se da fragilidade do público. Do público vírgula: da elite dona das decisões.

No entanto, nenhum dos 16 filhos dos quatro irmãos jornalistas optou até agora pela profissão dos pais. Eles nos viram em plena labuta e devem ter tido olhos suficientes para perceber que a barra é pesada, às vezes demasiadamente. Como o chamado da vocação não era tão audível assim, preferiram seguir outros rumos. Não lamentamos a decisão: se a compulsão (ou o impulso natural) não os fez jornalistas, é porque dificilmente seriam bons jornalistas. Para simplesmente fazer a alegria dos pais, é muito melhor que a façam em ofícios menos desgastantes e remunerativos, como estão fazendo. E bem.

Demasiadamente humano

Papai concluiu o editorial da primeira edição do Baixo Amazonas com uma citação de Vargas, inspiração não muito recomendável para uma frase sobre jornalismo. O então presidente, purificado da ditadura do Estado Novo por um mandato conquistado pelo voto popular, dizia que jornalismo é sacerdócio. Patrão costuma dizer isso, no fundo pensando em transformar o sacerdote da informação em mártir, levado ao sacrifício pela super-exploração da sua força de trabalho. Sem essa seqüela acompanhante, porém, a definição não deixa de ser verdadeira.

Quando fazemos bom jornalismo, desatentos a tudo mais, inclusive à nossa exploração, é como sacerdotes da verdade que nos sentimos. E este sentir diminui as dores do ofício e agiganta a doce sensação que nos invade do dever cumprido. Com ela seguiremos felizes para a tumba, destino de todos nós, humanos; demasiadamente humano é, sobretudo, o jornalista. Assim sempre foi e assim continuará a ser, a despeito das plumas e paetês da tecnologia e das controvérsias obtusas. Se tal for inscrito na nossa lápide, será pura verdade. Fará nossa felicidade.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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