Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > VENDA DE LES ÉCHOS

Jornalistas franceses querem manter autonomia das redações

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 03/07/2007 na edição 440

Pode-se comprar um jornal como quem compra uma griffe de moda? Os jornalistas franceses pensam que não porque jornalismo não é um negócio como outro qualquer.


O anúncio da venda de Les Échos, maior jornal de economia da França (um dos dois únicos da imprensa diária que não opera no vermelho), caiu como uma bomba no meio jornalístico. O grupo que vai comprá-lo pertence ao milionário Bernard Arnault, que já possui o jornal de economia La Tribune, que deverá também ser vendido.


Quem é Bernard Arnault? O grande magnata é simplesmente o homem mais rico da França (fortuna calculada em 17,2 bilhões de euros), controlador do grupo LVMH e dono de um império que inclui as marcas Louis Vuitton, Gucci e Christian Dior, entre muitas outras.


O que os jornalistas temem é que o principal jornal de economia do país perca sua liberdade de informar ao se tornar propriedade de um grupo industrial que tem interesses a defender – assim como concorrentes a combater. E mesmo que venda La Tribune, como anunciou, Bernard Arnault é quem vai escolher quem vai lhe fazer concorrência na imprensa de economia.


Conclusão óbvia: a liberdade de informação está seriamente ameaçada no país dos direitos humanos, no qual as redações dos jornais funcionaram até hoje com total liberdade em relação ao acionista-proprietário – inclusive no Les Échos, cuja redação garante que trabalha com total independência em relação ao atual proprietário, um grupo inglês de imprensa. Aliás, é à total independência e isenção em relação a qualquer interesse de grupos que o jornal atribui sua credibilidade e excelente performance econômico-financeira.


Jornalistas mobilizados


Por julgar que o pluralismo da imprensa econômica francesa está ameaçado com o anúncio da venda do Les Échos, o Fórum Permanente das Sociedades de Jornalistas (FPSD) enviou uma carta [ver abaixo] a Nicolas Sarkozy pedindo um encontro no Palácio do Eliseu. Os jornalistas querem debater a grave situação com o presidente da República, discutida em todos os jornais na semana passada, até mesmo em matérias de primeira página.


O FPSD foi criado há quatro anos como defesa contra as pressões econômicas e políticas, censura e entraves que representam os inquéritos judiciais, e violações do segredo das fontes. Há quatro anos os jornalistas franceses estão mobilizados contra as diferentes formas de intervenção que limitam a independência das redações.


Agora, eles acham que chegou a hora de falar diretamente com o presidente da República.


***


A seguir, entrevista exclusiva para o Observatório da Imprensa do presidente do Forum Permanent des Sociétés des Journalistes (FPSJ), François Malye, repórter especial da revista semanal Le Point.


Você preside o Fórum Permanente das Sociedades de Jornalistas, que reúne as Sociedades de Jornalistas de redações de todos os grandes jornais, revistas, rádios e TVs francesas. Por que os jornalistas sentiram a necessidade de criar o Fórum?


François Malye – Em 2004, preocupados com as pressões repetidas e os obstáculos que se opunham ao nosso trabalho, reunimos várias Sociedades de Jornalistas para discutir o que poderíamos fazer. Então, criamos o Fórum e começamos a trabalhar. Na época, éramos 13 Sociedades de Jornalistas no Fórum e hoje somos 30.


O Fórum enviou uma carta ao presidente da República [ver abaixo] para lhe pedir que recebesse os representantes dos jornalistas. Que propostas vocês vão levar ao presidente Sarkozy?


F.M. – Nossas propostas: um reconhecimento jurídico e legal das Sociedades de Jornalistas, cujo papel seria o de fazer respeitar os documentos de ética já existentes ou futuros, e um direito de veto na nomeação do diretor de redação de todos os veículos de mídia.


Os jornalistas pensam que o pluralismo da imprensa francesa econômica está ameaçado pela venda do jornal Les Échos. Você pode explicar por quê?


F.M. – O fato de um dos principais grupos da economia francesa comprar o primeiro jornal econômico é em si mesmo um problema! Como tratar os negócios de Bernard Arnault nas páginas de Les Échos se ele é o proprietário do jornal? Por outro lado, se o jornal Les Échos era até hoje rentável é porque os leitores julgavam suas informações isentas e confiáveis, porque independentes. É preciso garantir essa independência, senão o jornal irá declinar.


Todas as Sociedades de Jornalistas dos diferentes veículos franceses poderão no futuro ter direito de veto na escolha do diretor de redação, como já ocorre com o Le Monde?


F.M. – Se nossas reivindicações forem aceitas será assim.


Como você explica que a imprensa esteja ausente do debate sobre as reformas previstas pelo presidente Nicolas Sarkozy ?


F.M. – Para mim isso é um mistério. Sobretudo para um homem que diz querer reformar tudo e modernizar a sociedade.


Nicolas Sarkozy é uma ameaça à liberdade de informação e à independência da imprensa na França?


F.M. – Vemos com preocupação suas amizades com os barões das finanças e da mídia. Isso leva à desconfiança e a única maneira de sair dessa situação é justamente rever as leis para garantir a independência das redações.


A independência da redação em relação ao acionista não existe num país como o Brasil, onde o acionista dita suas regras à redação, tanto na grande mídia quanto nas pequenas empresas. Você acha que na França os jornalistas conseguirão proteger a independência que têm hoje das ameaças atuais? Como?


F.M. – Seria dramático que no país dos direitos humanos nós não conseguíssemos isso. Em várias épocas da história do nosso país regimes caíram por tentar limitar a liberdade da imprensa. De qualquer forma, com o advento da internet isso se tornou simplesmente impossível.


***


Carta ao presidente


Paris, 27 de Junho de 2007


Ao Presidente da República


Senhor Presidente,


O Fórum Permanente das Sociedades de Jornalistas se dirige a V. Excia. como o defensor de uma democracia imparcial. O pluralismo, garantia da honestidade da informação, é um elemento essencial à democracia. Ele tem valor constitucional e a Carta Européia dos Direitos Fundamentais assegura que a liberdade dos veículos de comunicação e seu pluralismo sejam respeitados.


Infelizmente, as ameaças à independência das redações multiplicaram-se nesses últimos tempos. Pressões, censuras, conseqüência freqüentemente de uma concentração excessiva, mas também inquéritos que contrariam o direito europeu. A lista é longa.


Nossa federação trabalhou para construir uma série de propostas concretas que permitiriam garantir a independência das redações sem interferir no poder legítimo dos editores.


Parece-nos hoje indispensável, num período em que a imprensa vive uma mutação econômica e técnica difícil, que elas sejam estudadas e que uma modernização legislativa dos textos que regulam a mídia seja efetuada. A imprensa não pode ficar ausente das reformas, sob risco de arruinar sua credibilidade – e seu valor – e de dar uma imagem negativa de nosso país.


Por essas razões desejamos encontrá-lo o mais rapidamente possível para discutir essas propostas.


Fórum Permanente das Sociedades de Jornalistas


[O Fórum reúne as sociedades de jornalistas de 30 redações, entre elas Agência France Press, Les Echos, L’Equipe, Le Figaro, L’Humanité, Libération, Le Monde, La Tribune, La Libre Belgique, L’Express, Le Nouvel Observateur, Paris Match, Radio France e Le Point.]


***


Em tempo — Os 200 jornalistas do jornal Les Echos fizeram greve na terça-feira (3/7) e o jornal não saiu na quarta. No Le Monde e no Le Figaro, o magnata e futuro proprietário do jornal, Bernard Arnault, em duas entrevistas publicadas na quarta-feira (4/7), tenta acalmar os ânimos garantindo que vai manter a independência total da redação.


‘Nós elaboramos um tratado de ética e previmos a instauração de administradores independentes, com sugestão de alguns nomes. Esses administradores ficarão encarregados da escolha e da eventual demissão do diretor da redação’, disse. Segundo Arnault, esse esquema foi elaborado com o grupo Pearson (grupo inglês, atual proprietário do jornal). Mas ele não menciona o direito de veto que os jornalistas do Les Echos reivindicam. Eles querem poder acatar ou vetar, por meio do voto direto, o nome do diretor de redação indicado. Essa prática já é prevista e aplicada no Le Monde.

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