Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

INTERESSE PúBLICO > FOGO SOBRE GAZA

Jornalistas impedidos de cobrir a guerra

Por Thalif Deen em 20/01/2009 na edição 521

Os implacáveis ataques de Israel sobre Gaza, que mataram mais de mil palestinos e destruíram centenas de casas, não tiveram a presença da imprensa internacional. País que assegura ser a única democracia multipartidária no Oriente Médio, Israel proibiu a entrada em Gaza de todos os jornalistas estrangeiros, desatando fortes protestos não apenas da Organização das Nações Unidas, mas também de grupos de direitos humanos e da imprensa.


Falando desde Beirute, Mohamad Bazzi, professor de jornalismo da Universidade de Nova York, disse à IPS que há centenas de repórteres de todo o mundo presentes em Israel tentando entrar em Gaza. Sem acesso ao campo de batalha, têm dificuldades para verificar a informação das partes, disse. ‘Enquanto prosseguiam os combates e o número de mortes civis aumentava em Gaza, a ONU alertava para uma catástrofe humanitária sem que o mundo tenha uma idéia completa da gravidade da crise’, disse Bazzi, também integrante da junta da Associação de Jornalistas Árabes e do Oriente Médio.


O Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), com sede em Nova York, enviou uma dura carta de protesto ao ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, criticando as restrições aos meios de comunicação internacionais. ‘Ao impedir que os jornalistas cubram sua ofensiva militar em aza, Israel está traindo seus próprios princípios democráticos. Também está negando ao mundo o acesso à informação baseada em fatos’, disse o diretor-executivo do CPJ, Joel Simon. Acrescentou que Israel tem uma longa história de permitir aos jornalistas internacionais cobrir conflitos. ‘Por que agora está restringindo todo acesso à área de conflito? Qual a base legal para esta restrição ao livre movimento de jornalistas?’, perguntou.


Acesso ao campo de batalha


Segundo o CPJ, a Associação da Imprensa Estrangeira em Israel apelou da proibição junto à Suprema Corte, que sugeriu que fosse permitido por sorteio que um pequeno grupo de jornalistas internacionais informasse desde Gaza. Ao que parece, as Forças de Defesa de Israel (IDF) aceitaram permitir a entrada de oito jornalistas através da passagem de fronteira de Erez, norte de Gaza, mas depois voltaram atrás ‘supostamente por razões de segurança, apesar de trabalhadores de resgate e outros serem admitidos em Gaza’.


‘Embora os pontos de passagem tenham sido abertos mais de uma vez desde que começou a ofensiva israelense em Gaza, nenhum jornalista teve permissão de entrar’, queixou-se Simon na carta ao ministro Barak. A carta também dizia que antes da ofensiva já havia em Israel mais de 900 profissionais da imprensa, a maioria da mídia estrangeira, que foram proibidos de entrar em Gaza por razões de segurança. Enquanto isso, a única cobertura 24 horas foi feita pelo canal via satélite de notícias pan-árabe Al Jazeera, cujos jornalistas estavam em Gaza muito antes de começar a batalha.


Bazzi disse à IPS que Israel tem uma longa história de imprensa livre, com informes que muitas vezes desafiavam seu próprio governo. ‘Israel também tem uma longa história de permitir que jornalistas cubram os conflitos’, acrescentou. Durante a ocupação israelense no sul do Líbano, de 1982 a 2000, as forças armadas israelenses levaram jornalistas internacionais à zona. E, durante a guerra nesse país em 2006 contra o movimento xiita Hezbollah, a imprensa teve acesso ao campo de batalha. ‘Esta é a primeira vez que Israel proíbe todo acesso a uma zona de conflito. Israel não apresentou uma base legal ou uma explicação adequada para esta proibição’, disse Bazzi.


‘Trágico horror’


O subsecretário da ONU para Comunicações e Informação Pública, Kiyo Akasaka, exortou o governo israelense a permitir ‘imediato acesso à mídia internacional em Gaza’, e recordou o direito de informação incluído no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Um protesto igualmente categórico partiu do diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Koichiro Matsuura, que condenou o assassinado de um jornalista no primeiro dia da ofensiva, 27 de dezembro.


Basel Faraj, repórter cinematográfico da rede de televisão argelina ENTV e da Companhia Palestina de Produção e Radiodifusão, morreu devido aos ferimentos que recebeu em um ataque aéreo israelense. Matsuura cobrou do governo israelense que ‘permita aos profissionais de imprensa locais e internacionais informarem o que ocorre’ em Gaza. Porém, estes protestos não tiveram resposta positiva de Israel, que continua com sua devastação em Gaza. Na quinta-feira (15/1), o secretário-geral das Nações Unidas Ban Ki-moon disse estar ‘indignado’ pelo fato de outra unidade da ONU em Gaza ter sido bombardeada, inclusive quando ele próprio se encontrava em visita a Israel. Após este protesto, Barak admitiu que foi ‘um grave erro’ e garantiu a Ban que haveria ‘atenção extra’ para as instalações da ONU no futuro.


Além do crescente número de mortes, na maioria mulheres e crianças, as vítimas também incluem cerca de quatro mil feridos. ‘Lamento informar que o trágico horror continua, e continuará até que silenciarem as armas’, disse o diretor da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Médio, John Ging. Esta agência continuará cobrando de Israel que permita maior presença da mídia em Gaza, ‘não apenas porque se deve dizer a verdade, mas também porque os que tomam decisões importantes devem ser capazes de fazer isso com informação baseada em fatos’.

******

Da Inter Press Service

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem