Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

INTERESSE PúBLICO > JULGAMENTO DE LIBBY

Judith Miller é primeira jornalista a depor

01/02/2007 na edição 418

Judith Miller, a jornalista que passou 85 dias na prisão em 2005 por se recusar a colaborar com a justiça no caso Valerie Plame, prestou depoimento na terça-feira (30/1) no julgamento de Lewis Libby. Judith, que na ocasião trabalhava para o New York Times, foi presa por se negar a violar o compromisso de confidencialidade com suas fontes. No fim, ela – que curiosamente não havia escrito uma linha sobre a agente da CIA na imprensa – acabou revelando que Libby havia lhe repassado a informação da identidade secreta de Valerie Plame.


Calma de início, Judith falou em seu depoimento sobre três conversas que teve com Libby entre junho e julho de 2003. Os encontros com a jornalista são uma parte significativa no caso contra o ex-chefe de gabinete do vice-presidente americano. Segundo a repórter, Libby, ansioso e agitado, criticou a CIA e lhe contou sobre Valerie, mulher do ex-embaixador Joseph Wilson.


Sob pressão


A calma de Judith Miller ruiu aos poucos durante a sessão. Pressionada pelos advogados de defesa de Libby, que atacavam sua credibilidade, um tom de impaciência foi crescendo em suas respostas. Questionada sobre por que não lembrou de um importante encontro com Libby em junho de 2003 durante seu testemunho na investigação do caso Valerie Plame, ela afirmou, aumentando o tom de voz: ‘Eu já disse que eu não lembrava do encontro. Simplesmente não lembrava’.


William H. Jeffress Jr., um dos advogados, insistiu neste ponto. Como ela poderia ter esquecido tão completamente da conversa com Libby em junho de 2003 se agora fazia observações até sobre o humor dele naquele dia?, perguntou com certo sarcasmo. Judith respondeu que lembrou da conversa apenas quando encontrou, acidentalmente, uma sacola cheia de blocos de anotações antigos embaixo de sua mesa no Times.


Vazamento


Judith contou que, no tal encontro com Libby, ele falou que a CIA estava começando a voltar atrás nas afirmações pré-guerra sobre os esforços do Iraque para obter urânio. Segundo ele, a agência o estava fazendo por uma ‘guerra pervertida de vazamentos’ relacionada a uma viagem do ex-embaixador Joseph Wilson, que era casado com Valerie Plame, à África. ‘Ele [Libby] falou sobre a esposa?’, perguntou o promotor Patrick Fitzgerald, principal investigador do caso Valerie Plame. ‘Sim’, respondeu a jornalista, completando que Libby disse ainda que a senhora Wilson trabalhava na divisão da CIA que lidava com limitar a proliferação de armas de destruição em massa. Judith afirmou que, segundo Libby, Dick Cheney havia pedido à agência, no início de 2002, informações sobre o Iraque e o urânio africano, e que por isso a CIA havia decidido enviar Wilson – sem consultar o vice-presidente – para o Níger para apurar a história.


Judith Miller, apesar de seu papel nulo no vazamento da identidade secreta de Valerie Plame, tornou-se, com sua prisão, a jornalista de maior destaque do caso. Seu depoimento esta semana foi o primeiro de um profissional de imprensa no julgamento de Libby. A presença de Judith como alguém obrigado pelo governo a testemunhar contra uma fonte mostra como o caso Valerie Plame mudou as relações entre jornalistas e membros governamentais.


Outras fontes


O depoimento terminou com um impasse. Os advogados de Libby queriam interrogar Judith sobre outras fontes. O juiz chamou o advogado da jornalista para definir a que questões ela responderia, e o advogado afirmou que ela não se lembra de nenhuma outra fonte com quem tenha discutido Joseph Wilson e Valerie Plame.


A defesa argumenta que deveria poder fazer uma pergunta mais ampla à jornalista: se ela se lembra de outras fontes com quem discutiu questões levantadas por um artigo assinado por Joseph Wilson no New York Times, em julho de 2003. No texto, que muitos críticos acreditam ter sido o motivo para o vazamento da identidade da agente da CIA, o ex-embaixador acusava o governo Bush de deturpar informações de inteligência para justificar a invasão do Iraque. Judith teria afirmado, em um depoimento em 2005, que chegou a conversar sobre estas questões com diversas fontes. Patrick Fitzgerald, que a levou à cadeia por proteger uma fonte, agora argumenta que ela não deveria ser obrigada a responder sobre outras fontes.


Jornalista polêmica


Judith Miller saiu do New York Times em novembro de 2005, após 28 anos no jornal, com a polêmica do caso Valerie Plame. Seu trabalho, entretanto, começou a ser questionado antes disso, em artigos em que ela sugeria que o Iraque possuía armas de destruição em massa – o que ajudou o presidente George W. Bush a consolidar sua posição de invadir o país, mas que posteriormente se provou falso.


Fitzgerald, que com a investigação sobre Valerie Plame se tornou o terror dos jornalistas americanos, investiga Judith em outro caso. O Departamento de Justiça tenta descobrir quem vazou a ela e ao jornalista do Times Philip Shenon informações sobre planos do governo para congelar os bens de duas instituições de caridade islâmicas em Illinois e no Texas, em dezembro de 2001. Informações de Neil A. Lewis e Scott Shane [The New York Times, 31/1/07].


 

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