Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Justiça cega e injusta

Por Jô de Carvalho, de Paris em 23/05/2006 na edição 382

Apesar do período invernal, um sol ameno brilhava já logo cedo, prometendo um domingo tranqüilo e agradável, como tantos outros. Nada, absolutamente nada permitiu-lhe prever a tragédia que se preparava. Para você, o sossego de dias como aquele era um bálsamo. Após romper aquela relação difícil, desgastante e tumultuada, sua vida começava a retomar o rítmo. Pouco a pouco, você estava resgatando a serenidade e o equilíbrio.

A separação havia sido traumática, eu sei. Ele não se conformava e não a deixava em paz. As ameaças eram constantes, havia meses, mas ninguém, nem mesmo você, as levava muito a sério. Atribuíam-na à dor da perda e ao amor próprio ferido. Caso clássico. Com o tempo, isso passa, diziam. Para você, já era passado. Um sorriso tímido iluminava seu rosto quando lhe lembravam que a ‘vida começa realmente aos 40 anos’. Se era verdade, então o ‘renascer’ estava perto, pois você os teria dali a poucos dias.

Após o preguiçoso despertar dominical, você saiu ao encontro de seu destino. Ele foi ao seu encalço, armado, e com dois tiros, pôs fim à sua vida.

Quem leu até aqui, deve estar pensando que estamos falando do assassinato da jornalista Sandra Gomide, morta em agosto de 2000 pelo ex-namorado, Pimenta Neves. Não devem ter se dado conta de que se trata do seu assassinato, a psicóloga de Taubaté, ocorrido um ano e um mês antes do de Sandra, em circunstâncias praticamente idênticas.

Eu me lembro bem daquele domingo, 18 de julho de 1999, quando você, Desdila Gonçalves Frade, foi abatida na sede do Esporte Clube Taubaté por seu ex-namorado, José Amilton Motta de Castro, ex-cartola do clube. Como psicóloga do time taubateano, você estava na sala da diretoria, em companhia do diretor e de outras pessoas, comemorando a vitória que o Taubaté acabara de obter contra o Rio Preto (pela série A-3). Belo trabalho, o seu. O time estava se reerguendo.

Foi tudo tão rápido. Suponho que você não teve tempo de apreender a situação quando ele entrou e atirou em seu peito. O segundo tiro, dizem as testemunhas, foi dado covardemente, quando você já estava agonizando no chão. Pânico, correria. Você morreu a caminho do hospital. Ele desapareceu por alguns dias para fugir do flagrante. Em seguida, apresentou-se à polícia e confessou o crime, na presença do advogado dele. Foi liberado, após alguns dias de preventiva e passou a levar a vida tranqüilamente, impunemente.

Ninguém se interessou

Tão impunemente que pôde até se lançar candidato a vereador no ano seguinte, pelo PMDB, no município de Cachoeira Paulista. Só mesmo no Brasil pode ocorrer uma situação tão surrealista quanto esta: um dos maiores partidos políticos do país dá legenda a um assassino confesso! Felizmente, ele não se elegeu.

O inquérito continuou seguindo seu vagaroso curso. Hoje, quase sete anos depois, este homem continua a viver como se nada tivesse acontecido… nem sequer foi julgado ainda.

O crime da psicóloga de Taubaté caiu no esquecimento, minha querida. Ninguém fala mais do assunto. Nenhum jornal se interessa. O caso Pimenta Neves, ao contrário, deu muito o que falar. Graças à pressão exercida pela imprensa e pela opinião pública, o ex-jornalista foi finalmente julgado.

Fazer justiça não é papel da imprensa, certo, mas como vimos nesse e em outros casos, pode dar um empurrão.

Tentei sensibilizar alguns jornalistas conhecidos para retomar o seu caso, aproveitando a comoção provocada pelo julgamento de Pimenta Neves, mas não funcionou. Ninguém se interessou. Vamos ter que continuar a depender desse sistema judiciário inoperante, cujas leis, cheias de artigos, parágrafos e emaranhados, não foram feitas para punir quem se arroga o direito de destruir vidas como a sua, minha querida irmã.

******

Jornalista, vive em Paris

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