Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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Liberdade em extinção na Rússia

Por Kester Kenn Klomegah, de Moscou em 04/05/2007 na edição 431

O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa será de luto na Rússia: os jornalistas deste país homenagearão sua colega assassinada Anna Politkovskaya, ganhadora do Prêmio Mundial Unesco-Guillermo Cano. Esta será a primeira vez que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura concederá o prêmio postumamente. Antes de ser assassinada, Politkovskaya denunciou violações de direitos humanos na separatista República da Chechênia.


A premiação, que acontecerá em Medellín, na Colômbia, tem o propósito de homenagear uma pessoa ou organização que tenha contribuído de forma notável para a defesa da liberdade de imprensa. O prêmio leva o nom do jornalista colombiano Guillermo Cano, assassinado m 1986 por desmascarar os caciques do narcotráfico desse país.


A imprensa russa vive tempos de grande preocupação. ‘A liberdade de imprensa tem sido progressivamente restringida pelo governo do presidente Vladimir Putin’, disse à IPS Ronald Koven, do Comitê Mundial para a Liberdade de Imprensa, com sede nos Estados Unidos. Glasnot (transparência) é um conceito que ficou na lembrança da população russa. O governo de Putin destruiu grande parte da liberdade de expressão herdada da época de Mikhail Gorbachov (1985-1991) e Boris Yeltsin (1990-1999).


Nenhuma condenação


O assassinato de Politkovskaya é interpretado como uma mensagem para outros jornalistas com coragem de investigar questões que as autoridades querem esconder, disse Koven. O Comitê havia proposto o prêmio ao seu jornal, Novaya Gazeta, ‘em reconhecimento pelo valor de dar um espaço ao seu trabalho’, acrescentou. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, com sede em Nova York, disse à IPS via e-mail que as autoridades russas teriam de honrar a profissional levando os responsáveis por sua morte à justiça.


‘Ninguém merece mais este prêmio do que nossa colega Anna Politkovskaya, que deu sua vida pela busca da verdade e da história da guerra esquecida da Chechênia’, disse o diretor da organização, Joel Simon. ‘Sua morte é uma grande perda para o jornalismo. Este prêmio destaca o terrível preço que os profissionais russos pagam por denunciar a corrupção, o crime organizado, as violações de direitos humanos e o abuso de poder’, acrescentou. Politkovskaya era muito conhecida por suas investigações sobre as violações de direitos humanos cometidas pelo exército russo na Chechênia.


Em seus sete anos dedicados à cobertura da segunda guerra da Chechênia, seus artigos causaram, em várias oportunidades, a ira das autoridades russas. Seu assassinato em outubro de 2006 foi o 13º de um jornalista por parte de mercenários neste país desde 2000, segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Nenhum responsável foi condenado. Integrantes dessa entidade que visitaram Moscou no começo do ano foram informados de que a Promotoria russa abriu uma investigação penal a respeito em várias dependências policiais na Chechênia.


Ambiente perigoso


O Comitê constatou que policiais e promotores russos não investigaram a fundo o assassinato de jornalistas. ‘Estamos consternados pelo fato de a investigação do assassinato de Politkovskaya, apesar de seguir seu curso, não ter conseguido levar ninguém perante a justiça’, afirmou Simon. ‘Ao não determinar o ocorrido, o governo contribui com a ampla censura existente entre jornalistas russos. Por isso, a sociedade ficou sem informação importante de interesse público’, acrescentou. Por sua vez, a Anistia Internacional disse que parece haver cada vez menos espaço para a imprensa independente na Rússia.


Por um lado, há grande variedade de publicações, sites e emissoras de rádio que representam diferentes pontos de vista. Mas, por outro, os jornalistas estão cada vez mais preocupados com as pressões que sofrem para calar pontos de vista discordantes. ‘Há pouco houve vários casos de análises exaustivas de jornalistas e órgão de comunicação para examinar as entrevistas que estão sendo feitas’, disse à IPS Friederike Behr, pesquisador dessa organização com sede em Londres. ‘Outros jornalistas teriam perdido o emprego por causa de suas matérias ou foram submetidos a duras pressões por parte dos donos dos veículos para que se restrinjam à linha oficial estabelecida’, acrescentou.


A organização Freedom House, com sede em Washington, destacou que o rigoroso controle das autoridades russas sobre os meios eletrônicos e a imprensa começou pouco depois da posse de Putin em 2000. ‘No melhor dos casos, a brutal e trágica morte de Anna Politkovskaya foi o resultado de um contexto permissivo criado pelas autoridades. Esse ambiente é extremamente perigoso para os jornalistas independentes, há uma clara cultura de impunidade’, afirmou Christopher Wlaker, da Freedom House. ‘Não se fez justiça no tocante às mortes de jornalistas, muitos dos quais investigavam assuntos políticos e casos de corrupção corporativa no momento em que morreram’, acrescentou.

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Da agência Inter Press Service (IPS)

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