Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

INTERESSE PúBLICO > REFERENDO DA ARMAS

Mãos ao alto!

Por Gabriel Perissé em 17/10/2005 na edição 351

Sou contra o uso de armas, todo tipo de armas. Armas de fogo e armas brancas, armas improvisadas ou premeditadas, armas biológicas ou de arremesso, armas de repetição ou originais, armas nucleares ou de brinquedo. Só não sou incapaz de matar uma mosca, e por este pecado imploro perdão. Já assassinei baratas, mosquitos, aranhas, marimbondos, formigas e… perdoem-me especialmente os corações sensíveis… já matei uma inocente lagartixa… com o meu chinelo!

Desarmado sempre andei. Se a lei me obrigasse a andar armado, provavelmente seria desarmado pelo primeiro valentão que aparecesse.

Fomos convocados a votar: você é a favor ou contra o comércio de armas de fogo e munição? Pergunta aparentemente democrática. Mãos ao alto! Diga ‘sim’ ou ‘não’!

Sabemos, porém, que nem sempre as respostas, sobretudo em temas polêmicos e complexos, resumem-se a um ‘sim’ ou um ‘não’. No dia em que nos perguntarem também sobre o aborto, a eutanásia, o casamento civil entre homossexuais, a legalização dos cassinos etc., a cobrança pela resposta curta e grossa poderá pertencer a uma sofisticada forma de manipular nossa tão prezada opinião.

Proposta vencida

Se eu fosse assaltante, votaria ‘sim’ ou ‘não’? Se eu fosse colecionador de armas? E se eu fosse discípulo de Gandhi? E se eu sou um assassino que odeia armas e prefere usar venenos?

Sou obrigado a votar. E votarei para que haja menos armas na sociedade. Mas o governo vota em quê? Ou vota em quem? Isto é, o governo propõe uma autêntica política de segurança pública? Posso andar tranqüilamente pelas ruas, à noite (ou de manhã, ou à tarde…), sabendo que todos estão desarmados, exceto os defensores da paz?

Não andarei armado para proteger o governo inseguro… Nem nasci para combater a criminalidade. Só espero que o governo não venha um dia consultar-me para estabelecer se as pessoas devem ou não colocar grades em volta de suas casas, cercas eletrificadas, cães de guarda, vigias e alarmes eletrônicos. Casas-presídio…

Curiosamente, ninguém nos perguntou se realmente queríamos esse referendo de 23 de outubro. Seremos obrigados a decidir diante de um dilema que esconde outros temas e problemas.

Proponho (proposta vencida por antecipação…) que esse referendo seja ampliado.

Perguntem-nos se queremos ou não um sistema de saúde pública mais saudável.

Perguntem-nos se aspiramos ou não a uma escola pública mais qualificada.

Perguntem-nos se desejamos ou não um país melhor…

******

Doutor em Educação pela USP e escritor; (www.perisse.com.br)

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