Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

INTERESSE PúBLICO > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

23/01/2007 na edição 417

‘O assunto mais comentado pelos leitores que procuraram o ombudsman durante a semana foi a cobertura da tragédia ocorrida sexta-feira, dia 12, na estação em construção do metrô de Pinheiros, em São Paulo. Foram 68 mensagens até sexta-feira passada.

Elas podem ser divididas em quatro classes: elogios e sugestões de reportagens (19), correções (8), críticas a uma suposta parcialidade do jornal (6) e críticas em relação ao que os leitores consideraram um tom ora sensacionalista ora desrespeitoso, de algumas reportagens e fotos (34).

A reportagem mais contestada foi publicada anteontem, sem destaque: ‘Caixão de luxo do operário não cabia no jazigo’. Assinado por Laura Capriglione, repórter experiente e seguramente um dos melhores textos da Folha, o relato do enterro do motorista de caminhão Francisco Sabino Torres foi elogiado por quatro leitores (‘genial’, ‘tocante’) e duramente criticado por 22.

As críticas podem assim ser resumidas, sem identificação dos leitores porque não tive tempo de obter autorização: ‘humor negro’, ‘mórbido’, ‘infeliz’, ‘irônico’, ‘de péssimo gosto’, ‘debochado’.

O texto está mais para crônica do que para reportagem. Não vi deboche. A idéia da repórter foi a de explorar uma imagem forte ligada ao trabalho do motorista, o contato com a terra. O resultado, no entanto, acabou se distanciando da tragédia que vitimou Francisco e do drama dos familiares, e isso certamente chocou os leitores.

Capriglione explica que sua intenção não foi ser irônica. ‘Um pouco do modo de vida de um indivíduo é possível apreender pela forma como ele morre, como é homenageado, como é enterrado. A descrição do enterro do motorista Francisco Sabino Torres teve o propósito de ajudar o leitor a entender, pela forma como foi velado e enterrado, um pouco de seu modo de vida. A menção ao fato de que o caixão de luxo não cabia no jazigo serviu para tornar evidente que o cemitério de Francisco Morato (cidade com os piores indicadores sociais do Estado) nem sequer contempla a possibilidade de fazer um enterro com o tipo de caixão que, nas áreas ricas da cidade, é padrão. Essa informação, costurada a outras, como a de que Torres foi líder comunitário, não tinha, claro, pretensão de esgotar a biografia do motorista, mas tão somente dar pistas para que se entenda como ele viveu.’

Outras reportagens e fotos incomodaram leitores por darem uma idéia de sensacionalismo (fotos de parentes chorando) ou de insensibilidade (descrição do resgate da aposentada Abigail de Azevedo).

Coberturas de tragédias são sempre difíceis e exigem dos jornalistas e da imprensa uma atenção maior do que a de costume. Todos nós nos identificamos com as vítimas e seus parentes e qualquer palavra mal escolhida passa a sensação de insensibilidade.

A cobertura da Folha esteve voltada, nesta primeira semana, à reconstituição do desastre, trabalhos de resgate e questionamento dos procedimentos das empreiteiras e dos governos do Estado e da Prefeitura de São Paulo.

Alguns leitores acham que o jornal está sendo complacente com o governador José Serra (PSDB), como Alessandra de Assis. É visível a cautela do jornal em apontar responsáveis, talvez por falta de informações seguras. A ver. Outros reclamam de a imprensa não ter feito denúncias antes: ‘O acidente foi o 11º em dois anos. E tudo debaixo dos narizes das redações da Ed. Abril, do ‘Estado’ e da Folha. Bastava olhar pela janela. É o apagão da imprensa’ (René Cabal Orioni).

O desafio do jornal agora é produzir uma cobertura investigativa (quanto às causas e responsabilidades), crítica (em relação a autoridades envolvidas, omissões do poder público e comportamento das empreiteiras) e, ao mesmo tempo, sensível aos dramas das vítimas e às mazelas da cidade.’

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