Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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INTERESSE PúBLICO >

Marcelo Beraba

20/03/2006 na edição 373

‘A Folha voltou a usar Maomé para se referir ao fundador do islamismo. Durante cinco anos ela adotou a grafia Muhammad por entender que Maomé era uma palavra ofensiva para os muçulmanos ‘por significar o que não é filho de Deus’ (página 80 do ‘Manual da Redação’). Uma besteira.

Por pressão dos leitores inconformados com a interdição de Maomé, o jornal consultou cinco especialistas em língua árabe e em islamismo e chegou à conclusão de que o verbete ‘Maomé/ Muhammad’ está errado. O termo Muhammad está correto. Muitos islamitas o preferem porque é o nome original em árabe. Mas não é verdade que Maomé significa, em árabe, ‘aquele que não é filho de Deus’.

Durante todos esses anos fomos induzidos a erro -os repórteres e os redatores, este ombudsman e o anterior, e os leitores do jornal.

A Folha não conseguiu explicar como o verbete desastrado foi parar no ‘Manual’. Questionada, enviou-me a seguinte resposta: ‘À época da edição do atual ‘Manual da Redação’, a Folha recebeu de especialistas em religião a informação errada que consta do verbete’.

O ‘Manual da Redação’ trata do assunto em dois outros capítulos. No anexo ‘Religiões’, na página 184, no verbete ‘Islamismo’, assim se refere ao profeta Muhammad (570-632): ‘O termo Maomé não deve ser usado, pois é uma transliteração malfeita do nome árabe’. Uma transliteração malfeita não significa que o termo transliterado seja uma ofensa.

Em outro anexo, este sobre transliterações (página 329), há a seguinte orientação sobre os critérios para a escrita em português de palavras árabes: ‘Não elimine as consoantes duplas, que podem explicar assimilações e dissimilações importantes para quem conhece o árabe: Assafir, Annahar, Muhammad. (…) Árabes que vivem no Brasil ou em outros países ocidentais têm uma forma latinizada de escrever seus nomes. Ela deve ser mantida mesmo que vá de encontro às observações acima’. É o caso de Maomé, agora que foi absolvido de um crime que não cometera.

Os leitores

A revisão foi feita por insistência de vários leitores insatisfeitos com a explicação que eu assumi quando escrevi sobre as charges dinamarquesas que geraram protestos violentos em vários países muçulmanos (‘O clamor por tolerância’, coluna publicada em 12 de fevereiro). Naquela ocasião, fiz um pequeno texto em que explicava, com base no ‘Manual’, por que o jornal usava Muhammad e não Maomé. A explicação não convenceu muitos leitores.

O questionamento principal tinha como base a tradição. Por que deveríamos adotar uma grafia nova se tínhamos uma consagrada, Maomé? ‘Por acaso deve-se chamar Moshé em vez de Moisés?’, argumentou Francisco Moreno, de São Paulo. ‘O profeta Isaías deve ser chamado de Yeshayahu? E o Jesus dos cristãos, deve ser agora chamado de Yeshu (seu nome hebraico)?’

Aluísio J. D. Barros, de Pelotas (RS), foi mais direto: ‘Por que diabos a Folha resolveu chamar Maomé de Muhammad?’. Antônio Marcos de Guide achou que era ignorância do jornal: ‘Ficou feio (…) essa demonstração de desconhecimento básico da história mundial’. E José Arlindo Salgado de Souza achou que o jornal se rendia à hegemonia do inglês: ‘Eu não sei o que está acontecendo nas redações dos jornais, inclusive a Folha. Parece que os jornalistas e os ‘copydesks’ -ou copidesques, como preferia o mestre Aurélio- não conhecem mais a língua pátria’.

O mais insistente de todos foi o advogado Alfredo Spínola, de São Paulo. A todos que questionaram o uso de Muhammad respondi da mesma forma, citando o ‘Manual da Redação’.

Spínola não se conformou e manteve seus questionamentos. A uma nova resposta minha defendendo o uso de Muhammad tal como estava no ‘Manual’, respondeu: ‘Se é assim, gostaria de pedir-lhe a gentileza de apresentar uma só abonação para a grafia Muhammad. Poderei, dessa forma, passar a utilizá-la’.

A correção

Franco Querini foi quem apontou os erros: ‘A página 80 do ‘Manual da Redação’ precisa ser corrigida pois Muhammad, fundador do Islã, não é filho de Deus bem como Maomé não significa o contrário’.

Pedi à Redação uma verificação. A Editoria de Treinamento e Qualidade consultou cinco fontes, que deram razão ao leitor.

A correção foi assumida pelo jornal num comunicado interno da Secretaria de Redação com data de 10 de março: ‘A Folha volta a usar Maomé para designar o fundador do islamismo. O verbete do ‘Manual da Redação’ está errado ao afirmar que Maomé é ofensivo para os seguidores do islamismo por significar ‘o que não é filho de Deus’. A tradução mais aproximada de Maomé ou Muhammad é ‘aquele que é merecedor de elogios’.

O jornal deveria ter tomado a iniciativa de publicar a correção em suas páginas. O uso de Muhammad ficou muito em evidência com a polêmica das charges. Ao não fazê-lo, fica no meio do caminho -reconhece o erro, mas não publicamente- e deixa o leitor confuso e desconfiado.’

***

‘O acordo do Exército’, copyright Folha de S. Paulo, 19/3/06.

‘Em uma semana relativamente calma de reclamações, o assunto que provocou mais questionamentos foi a segunda manchete da capa da Folha de quarta-feira, ‘Exército recupera armas após fazer acordo com facção de traficantes’. Segundo o jornal, ‘integrantes do Exército negociaram sigilosamente com a facção criminosa Comando Vermelho’ a recuperação das armas roubadas no dia 3 num quartel do Rio. Ainda segundo o jornal, as armas já haviam sido recuperadas pelo Exército na noite de domingo, o que significou dizer que o Exército mentiu ao informar que as encontrou na noite de terça-feira.

Os leitores que escreveram consideraram a informação, publicada apenas pela Folha, ‘inverossímil’, ‘uma balela’, ‘uma baita forçada de barra’, ‘uma mentira’. O jornal credita a informação a ‘relatos feitos à Folha por pessoas envolvidas’ na recuperação das armas.

‘O Globo’ atribui a devolução das armas à asfixia experimentada pelos traficantes com o cerco imposto pelo Exército às favelas, mas dá a entender que pode ter havido algum acordo: ‘Fontes da área militar disseram que as armas foram devolvidas em troca da saída do Exército de favelas ocupadas, como ocorreu no domingo’.

Embora não revele suas fontes -mais do que um direito, é obrigação do jornal preservá-las-, a Folha traz bastantes detalhes do acordo e comprova que sabia desde terça-feira que o Exército ocuparia a Rocinha para encenar a localização das armas. O prefeito do Rio, Cesar Maia, também revelou que sabia da recuperação desde o domingo.

O Exército nega o acordo, que está sendo investigado pelo Ministério Público Militar. Este é o tipo de informação difícil de ser comprovada. O Exército agiu neste caso todo do Rio de forma propositalmente confusa, dentro da nossa tradição de pouca informação e pouca transparência.

Com base nas notícias que li no dia e nas edições seguintes, pareceu-me que a Folha está bem informada. Tem a obrigação agora de continuar a acompanhar as investigações de perto e de buscar junto às suas fontes mais provas. Caso se comprove que errou, deverá reconhecer o erro sem subterfúgios. É o que se espera dela.’

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Marcelo Beraba

20/03/2006 na edição 373

‘A Folha voltou a usar Maomé para se referir ao fundador do islamismo. Durante cinco anos ela adotou a grafia Muhammad por entender que Maomé era uma palavra ofensiva para os muçulmanos ‘por significar o que não é filho de Deus’ (página 80 do ‘Manual da Redação’). Uma besteira.

Por pressão dos leitores inconformados com a interdição de Maomé, o jornal consultou cinco especialistas em língua árabe e em islamismo e chegou à conclusão de que o verbete ‘Maomé/ Muhammad’ está errado. O termo Muhammad está correto. Muitos islamitas o preferem porque é o nome original em árabe. Mas não é verdade que Maomé significa, em árabe, ‘aquele que não é filho de Deus’.

Durante todos esses anos fomos induzidos a erro -os repórteres e os redatores, este ombudsman e o anterior, e os leitores do jornal.

A Folha não conseguiu explicar como o verbete desastrado foi parar no ‘Manual’. Questionada, enviou-me a seguinte resposta: ‘À época da edição do atual ‘Manual da Redação’, a Folha recebeu de especialistas em religião a informação errada que consta do verbete’.

O ‘Manual da Redação’ trata do assunto em dois outros capítulos. No anexo ‘Religiões’, na página 184, no verbete ‘Islamismo’, assim se refere ao profeta Muhammad (570-632): ‘O termo Maomé não deve ser usado, pois é uma transliteração malfeita do nome árabe’. Uma transliteração malfeita não significa que o termo transliterado seja uma ofensa.

Em outro anexo, este sobre transliterações (página 329), há a seguinte orientação sobre os critérios para a escrita em português de palavras árabes: ‘Não elimine as consoantes duplas, que podem explicar assimilações e dissimilações importantes para quem conhece o árabe: Assafir, Annahar, Muhammad. (…) Árabes que vivem no Brasil ou em outros países ocidentais têm uma forma latinizada de escrever seus nomes. Ela deve ser mantida mesmo que vá de encontro às observações acima’. É o caso de Maomé, agora que foi absolvido de um crime que não cometera.

Os leitores

A revisão foi feita por insistência de vários leitores insatisfeitos com a explicação que eu assumi quando escrevi sobre as charges dinamarquesas que geraram protestos violentos em vários países muçulmanos (‘O clamor por tolerância’, coluna publicada em 12 de fevereiro). Naquela ocasião, fiz um pequeno texto em que explicava, com base no ‘Manual’, por que o jornal usava Muhammad e não Maomé. A explicação não convenceu muitos leitores.

O questionamento principal tinha como base a tradição. Por que deveríamos adotar uma grafia nova se tínhamos uma consagrada, Maomé? ‘Por acaso deve-se chamar Moshé em vez de Moisés?’, argumentou Francisco Moreno, de São Paulo. ‘O profeta Isaías deve ser chamado de Yeshayahu? E o Jesus dos cristãos, deve ser agora chamado de Yeshu (seu nome hebraico)?’

Aluísio J. D. Barros, de Pelotas (RS), foi mais direto: ‘Por que diabos a Folha resolveu chamar Maomé de Muhammad?’. Antônio Marcos de Guide achou que era ignorância do jornal: ‘Ficou feio (…) essa demonstração de desconhecimento básico da história mundial’. E José Arlindo Salgado de Souza achou que o jornal se rendia à hegemonia do inglês: ‘Eu não sei o que está acontecendo nas redações dos jornais, inclusive a Folha. Parece que os jornalistas e os ‘copydesks’ -ou copidesques, como preferia o mestre Aurélio- não conhecem mais a língua pátria’.

O mais insistente de todos foi o advogado Alfredo Spínola, de São Paulo. A todos que questionaram o uso de Muhammad respondi da mesma forma, citando o ‘Manual da Redação’.

Spínola não se conformou e manteve seus questionamentos. A uma nova resposta minha defendendo o uso de Muhammad tal como estava no ‘Manual’, respondeu: ‘Se é assim, gostaria de pedir-lhe a gentileza de apresentar uma só abonação para a grafia Muhammad. Poderei, dessa forma, passar a utilizá-la’.

A correção

Franco Querini foi quem apontou os erros: ‘A página 80 do ‘Manual da Redação’ precisa ser corrigida pois Muhammad, fundador do Islã, não é filho de Deus bem como Maomé não significa o contrário’.

Pedi à Redação uma verificação. A Editoria de Treinamento e Qualidade consultou cinco fontes, que deram razão ao leitor.

A correção foi assumida pelo jornal num comunicado interno da Secretaria de Redação com data de 10 de março: ‘A Folha volta a usar Maomé para designar o fundador do islamismo. O verbete do ‘Manual da Redação’ está errado ao afirmar que Maomé é ofensivo para os seguidores do islamismo por significar ‘o que não é filho de Deus’. A tradução mais aproximada de Maomé ou Muhammad é ‘aquele que é merecedor de elogios’.

O jornal deveria ter tomado a iniciativa de publicar a correção em suas páginas. O uso de Muhammad ficou muito em evidência com a polêmica das charges. Ao não fazê-lo, fica no meio do caminho -reconhece o erro, mas não publicamente- e deixa o leitor confuso e desconfiado.’

***

‘O acordo do Exército’, copyright Folha de S. Paulo, 19/3/06.

‘Em uma semana relativamente calma de reclamações, o assunto que provocou mais questionamentos foi a segunda manchete da capa da Folha de quarta-feira, ‘Exército recupera armas após fazer acordo com facção de traficantes’. Segundo o jornal, ‘integrantes do Exército negociaram sigilosamente com a facção criminosa Comando Vermelho’ a recuperação das armas roubadas no dia 3 num quartel do Rio. Ainda segundo o jornal, as armas já haviam sido recuperadas pelo Exército na noite de domingo, o que significou dizer que o Exército mentiu ao informar que as encontrou na noite de terça-feira.

Os leitores que escreveram consideraram a informação, publicada apenas pela Folha, ‘inverossímil’, ‘uma balela’, ‘uma baita forçada de barra’, ‘uma mentira’. O jornal credita a informação a ‘relatos feitos à Folha por pessoas envolvidas’ na recuperação das armas.

‘O Globo’ atribui a devolução das armas à asfixia experimentada pelos traficantes com o cerco imposto pelo Exército às favelas, mas dá a entender que pode ter havido algum acordo: ‘Fontes da área militar disseram que as armas foram devolvidas em troca da saída do Exército de favelas ocupadas, como ocorreu no domingo’.

Embora não revele suas fontes -mais do que um direito, é obrigação do jornal preservá-las-, a Folha traz bastantes detalhes do acordo e comprova que sabia desde terça-feira que o Exército ocuparia a Rocinha para encenar a localização das armas. O prefeito do Rio, Cesar Maia, também revelou que sabia da recuperação desde o domingo.

O Exército nega o acordo, que está sendo investigado pelo Ministério Público Militar. Este é o tipo de informação difícil de ser comprovada. O Exército agiu neste caso todo do Rio de forma propositalmente confusa, dentro da nossa tradição de pouca informação e pouca transparência.

Com base nas notícias que li no dia e nas edições seguintes, pareceu-me que a Folha está bem informada. Tem a obrigação agora de continuar a acompanhar as investigações de perto e de buscar junto às suas fontes mais provas. Caso se comprove que errou, deverá reconhecer o erro sem subterfúgios. É o que se espera dela.’

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