Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

INTERESSE PúBLICO > FOGO SOBRE GAZA

Memórias em tempos de guerra

Por Eliza Bachega Casadei em 20/01/2009 na edição 521

Peter Beaumont, do jornal The Observer, é responsável por um dos artigos mais interessantes escritos ultimamente sobre os confrontos na Faixa de Gaza. Em seu texto ‘Israel não vê o futuro’, transcrito no número 528 (14 de janeiro de 2009) da revista CartaCapital, o autor ressalta como, em Israel, ‘a memória da longa história do exílio e da perseguição aos judeus e da curta história do Estado judaico é considerada uma bússola necessária para sua cultura, identidade e nacionalidade. Não lembrar é arriscar-se à autoaniquilação’.

Beaumont ressalta a importância que a construção de uma memória nacional sólida e coerente assume para os países jovens e como, em Israel, a memória sobre a perseguição ao povo judeu tem moldado uma determinada visão de mundo que confunde ‘as experiências de uma geração anterior, que viveu sob a ameaça de ser aniquilada, com seu próprio uso da violência’.

Afirmação da identidade

Embora essa não fosse a preocupação de Beaumont, uma rápida busca pelos jornais israelenses revela a importância do papel da imprensa na mediação dessas memórias coletivas. No YNet (o portal de notícias do jornal Yediot Ahronot em sua versão em inglês) foram publicados, durante o ano de 2008, 526 textos que citavam a palavra ‘Holocausto’. Trata-se de uma média de 43 textos por mês que relembravam, de alguma forma, o evento (com picos no mês de março e abril, com 72 e 78 artigos, respectivamente, e baixa no mês de janeiro, com 23 textos). O extermínio em massa dos judeus por Hitler é, portanto, uma presença quase diária nas notícias israelenses.

Até o dia 19 de janeiro de 2009, o portal publicou no mês 14 notícias que citavam essa temática. A maior parte dos textos se preocupava com as repercussões da Guerra em Gaza a partir das conhecidas comparações que personalidades públicas fizeram entre o comportamento do regime hitlerista e a ofensiva israelense, com críticas mais ou menos explícitas a este tipo de analogia.

A reportagem ‘ADL: Nazi imagery abound at anti-Israel rallies’, por exemplo, dá amplo espaço à fala de Abraham H. Foxman (diretor nacional da Anti-Defamation League e, segundo a própria notícia, sobrevivente do Holocausto) de que manifestações como essas são perversões cínicas da História. Mais interessante do que isso é a forma como, em muitos textos, a vivência do Holocausto se torna sinônimo da fiabilidade da fala. No artigo ‘World citizens, wake up!’, publicado em 07 de janeiro, Rotem Jackoby defende a ofensiva israelense e se coloca como um sujeito que ocupa um lugar de fala legítimo ao se referir ao fato de que ‘eu nasci neste país, assim como os meus pais. Eu sou neto de sobreviventes do Holocausto. Eu aprendi a amar essa terra e a outros seres humanos, aonde quer que eles estejam’.

O Holocausto encontra espaço também em outros veículos. No arquivo do site do Jerusalem Post podemos encontrar 1.112 textos que o citam. Essa presença insistente da memória do Holocausto – enquanto elemento importante de afirmação da identidade e da cultura judaica, conforme referido por Beaumont – reafirma o importante papel da mídia enquanto mediadora da memória coletiva e dos diversos enquadramentos que pode assumir.

Propaganda, mitos e anacronismos

Um estudo da autora norte-americana Carolyn Kitch mostra como a narrativa jornalística é capaz de criar um communitas a partir da evocação de dados históricos. Ou seja, o passado, quando mediado pela imprensa, seria capaz de resgatar determinadas situações de liminaridade, capazes de modificar as relações sociais normais e unir as pessoas em torno da afirmação dos elementos que lhe são comuns. A reencenação de situações-limite é, portanto, uma poderosa arma argumentativa elaborada a partir de reenquadramentos sucessivos das memórias nacionais.

No estudo de Kitch, a evocação do passado é capaz de criar e reafirmar os valores das identidades nacionais na medida em que efetua uma pausa na cobertura incessante dos fatos do presente, em direção a uma reinterpretação dos laços comunais. Desta forma, a imprensa enquanto criadora de communitas tem sua função mais aparente realocada. Para Kitch, ela se desloca de seu funcionamento como um instrumento mediador de informações, em direção à representação dos interesses compartilhados, em uma espécie de cerimônia que une as pessoas em torno de uma série de valores comuns.

Isso posto, podemos entender a responsabilidade dos jornalistas frente ao desafio de serem disseminadores de uma História gerida em uma esfera midiatizada. Como muito sabiamente coloca Hobsbawm, os historiadores (e eu acrescentaria, muito mais freqüentemente, os jornalistas) são produtores básicos de matéria-prima que pode ser convertida em propaganda, mitos e anacronismos. Isso porque, e novamente recorreremos às palavras de Hobsbawm, ‘infelizmente, como demonstra a situação em áreas enormes do mundo no final de nosso milênio, a história ruim não é história inofensiva. Ela é perigosa. As frases digitadas em teclados aparentemente inócuos podem ser sentenças de morte’.

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Jornalista e mestranda em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo; Mauá, SP

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