Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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INTERESSE PúBLICO >

Mídia e a crise de credibilidade

Por Renato Gianuca em 01/02/2005 na edição 314

Há um espectro rondando todas as mídias, em suas inúmeras variantes: é a perda de credibilidade perante o público. O jornalista Ignacio Ramonet, diretor de redação do Le Monde Diplomatique, criou um conceito novo relativo a esta crise: é o que ele descreve como a insegurança "informacional". Ou seja: não há mais a mínima segurança por parte dos leitores e telespectadores no mundo todo de que sejam verídicos os fatos descritos pelas mídias. Em suas intervenções durante o 5º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, Ramonet tem explicitado suas idéias, apresentando dados significativos.


Para ele, os jornais e revistas vêm perdendo, ano a ano, em tiragem e circulação. Este fenômeno atinge indistintamente países pobres e ricos. Nos últimos dez anos, a circulação paga da mídia impressa, nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, caiu cerca de 20%. Jornais importantes como o International Herald Tribune tiveram perdas de mais de 4% em suas vendas em 2003; o Financial Times, de 6,7%. A circulação global dos jornais e revistas da Alemanha, nos últimos cinco anos, caiu 7,7%; na Dinamarca, 9,5%; na Áustria, 9,9%. Até no Japão, onde há o maior consumo mundial de periódicos, a circulação caiu 2%. O próprio Le Monde Diplomatique retrocedeu em 12% na sua circulação em 2004.


A repercussão direta dessas quedas se dá nas redações: mais de dois mil jornalistas perderam seus empregos nos Estados Unidos, entre os anos 2000 a 2004. Também afetadas, as principais agências internacionais de notícias reagem como a Reuters, que anuncia agora a demissão de 4.500 funcionários. Retomando a discussão aberta por seu artigo na edição de janeiro de 2005 do Le Monde Diplomatique, Ramonet considera que há causas externas para a crise das mídias. Uma delas, destaca, é a expansão avassaladora dos jornais gratuitos nos países ricos. A outra causa é a internet.


Documentos falsos


Mas o essencial reside, de fato, nas causas internas. Aí, o jornalista francês retoma a questão da perda de credibilidade das mídias impressas e audiovisuais. Quando jornais de qualidade, como o New York Times, são obrigados a reconhecer publicamente que seus jornalistas – como no caso de Jayson Blair – simplesmente inventavam reportagens, algumas delas figurando até na primeira página, o ceticismo do público leitor médio aumenta extraordinariamente.


Logo depois, estoura o caso do USA Today, o principal jornal norte-americano em tiragem. O seu mais famoso repórter, Jack Kelley, superou as proezas ficcionais de Blair, sendo considerado um falsário compulsivo de notícias. A revelação de suas fraudes, como é óbvio, provocou a queda da alta direção do jornal.


Durante um debate, foi perguntado a Ramonet se, diante da evidente decadência da mídia impressa, ele não concordaria com a tese dos que acreditam na vitória e na predominância da mídia audiovisual sobre jornais e revistas. Ele acredita que não, citando dados que mostram que também os telejornais vêm perdendo audiência, até poucos anos atrás cativa.


Nos EUA, por exemplo, a audiência dos noticiários de TV dos principais canais abertos caiu de uma média de 36 milhões de espectadores, a cada noite, em 1994, para 26 milhões, em 2004. E há outros fatos, como a cobertura nitidamente parcial de redes como a Fox News, ou o fiasco da rede CBS, obrigada a desculpar-se por divulgar documentos falsos e não confirmados sobre o presidente George W. Bush, em seu prestigioso programa 60 Minutes. O âncora do programa, Dan Rather, logo após a confissão, anunciou sua aposentadoria.


"Mão invisível"


A conclusão é que, hoje em dia, a mídia está envenenada pelas mentiras, dissimulações e manipulações. Os leitores e ouvintes são diariamente intoxicados e manobrados pelas grandes corporações.


Ramonet afirma que esses grupos de mídia assumiram o papel de cães de guarda do pensamento único e dos interesses econômicos da elites mundiais. Ele propõe, concretamente, que os cidadãos de todo o mundo se unam para exigir a verdade nos meios de comunicação, em lugar das mentiras e meias-verdades do dia-a-dia nos jornais, rádios e TVs. E o papel dos jornalistas profissionais é procurar sempre atuar conforme suas consciências, e não dos interesses econômicos dos patrões.


É preciso descontaminar a mídia, de forma a que a liberdade de imprensa não seja um pretexto para divulgar notícias falsas e não verificadas, como ocorre atualmente. Ramonet prega o controle da mídia por parte dos cidadãos, com medidas simples como na Suécia. Lá não há publicidade comercial nos horários da programação infantil, justamente para tentar proteger as crianças das manipulações de um marketing cada vez mais agressivo.


O enorme consumo de informações difundidas pela mídia inverte as posições: os leitores e telespectadores é que são vendidos aos anunciantes. A informação difundida pela TV trabalha sempre o lado emocional, superficial e espetacular da informação, invariavelmente a serviço do pensamento único, como se esse fosse a única solução possível para os problemas globais.


Cabe aos cidadãos e aos jornalistas apresentar um outro lado das questões, uma alternativa à chamada "mão invisível" do mercado e suas respostas neoliberais às questões em todas as áreas. Cabe, enfim, provar que uma outra mídia, cidadã e verídica, é possível. E que essa nova mídia prevalecerá, finalmente.

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Jornalista

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