Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Modernização não atingiu homogeneamente as rádios

Por Everton Maciel em 17/11/2009 na edição 564

Trabalho em rádio desde antes de sair das fraldas e já fiz de tudo nessa área. Mesmo assim, nunca escrevi aqui sobre essa experiência. Principalmente porque julgo isso demasiado desinteressante para as pessoas que não são do meio ou não estão acostumadas com as mazelas do setor.

Dentre todos os veículos de comunicação, o rádio é o mais surpreendentemente maleável. Com isso, quero dizer que é possível fazer rádio de todo jeito ou de jeito nenhum. Esse paradoxo ficou estabelecido, especialmente, depois que aconteceu o fenômeno que aboliu o roteiro das rádios, a partir da década de 60 e 70. Antes desse período, era preciso saber escrever para trabalhar nas redações desses veículos. Assim como um jornalista de jornal, o postulante a radialista ou nascia com uma voz premiada para ser locutor ou buscava seu posto na outra ponta do trabalho: atrás da máquina de escrever. Pessoalmente, confesso que não participei desse período romântico, mas conversei com um suficiente número de colegas para saber de detalhes tão simples.

Com a popularização da televisão nos lares brasileiros, o rádio não perdeu espaço – como previam alguns apocalípticos. No entanto, rapidamente se adaptou, tornou-se mais efêmero e conseguir manter e ampliar seu público, trabalhando com questões locais e, antes de tudo, substituindo o velho texto pela apresentação ao vivo.

Desvalorização do trabalho de rua

Esse movimento aparentemente interessante teve alguns resultados desagradáveis. Vamos relatá-los tentando explicar como se apresenta a atual situação da radiodifusão. Seria importante que o leitor desconsiderasse o fato dessa escrita ser produzida por um profissional do setor. Minha intenção aqui é defender a qualidade e isso pode ser feito por qualquer ouvinte regular de rádio.

Hoje, as grandes emissoras ainda conservam espaços dedicados aos noticiários textuais. Essa programação não é tratada como museu dentro das rádios. Os mesmos veículos – geralmente, ligados a grandes grupos – conseguiram inovar seus procedimentos metodológicos e inserir na sua programação sonoras ambientadas em material coletado fora do estúdio, reportagens com bons textos em meio à programação ao vivo e repórteres especiais trabalhando em setores nevrálgicos como trânsito, previsão do tempo e serviços de utilidade pública. Isso para não citar os espaços esportivos, polícia e política, que sempre mereceram atenção especial desde o início do novo processo.

Mesmo com todos esses avanços o ponto mais importante a ser mencionado é que a modernização não atingiu homogeneamente as rádios. Diferente da TV, onde é preciso um aparato técnico mínimo e, necessariamente, excursões de equipes a campo para coleta de imagens e outro tipo de material, o rádio ainda pode ser feito, apenas, de dentro de um estúdio. Levando em conta isso, nas rádios do interior há uma crescente desvalorização do trabalho coletado na rua, onde as coisas realmente estão acontecendo. Geralmente, esses pontos são atendidos apenas por setores que motivam grande interesse da população, como polícia e esportes. Em outros casos, as rádios também vendem coberturas especiais de eventos, promoções e todo tipo de atividade quase circense com algum interesse público, mas mais interesse comercial.

Pessoas se interessam por questões simples

Pequenas emissoras – supostamente dedicadas à informação – dificilmente têm mais do que um ou dois repórteres trabalhando para elas. As consequências disso tudo são audíveis: programação musical em meio às notícias coletadas da internet ou até mesmo de jornais impressos. Sim, ainda em pleno século 21, notícias que são conhecidas pelo jargão ‘gillette press’ são lidas no ar. O velho guerreiro, escrito 24 horas antes, é usado diariamente por radialistas para preencher lacunas em sua programação. Matinalmente, os ouvintes são submetidos à famosa ‘enchida de linguiça’ com os jornais estampados em papel com tinta e muita notícia fria.

Definitivamente, o rádio é aquele veículo que pode circular pelos dois extremos da qualidade. Minha observação inclui ainda a internet. Na rede, a quantidade de lixo produzida pode ser facilmente identificada por um internauta medianamente esclarecido. O receptor do conteúdo pode separar o que lhe interessa e dar crédito apenas àquilo feito por sites de prestígio ou com fonte segura. Esse mesmo internauta, se transformado em ouvinte de rádio, não terá escolha na sua programação quando tentar buscar informações locais e de caráter pouco abrangente. Toda tentativa de modificar o rádio e fazê-lo um portal instantâneo entre a sociedade e seus problemas, empregado durante os últimos anos, está se dissolvendo com as ondas curtas e longas pelo ar.

Minha preocupação pode parecer ingênua. Alguns podem dizer: ‘Que diabo de questão é essa? Por que alguém estaria preocupado com rádios do interior?’ Bom. Retransmito essas perguntas para todos os brasileiros que foram atingidos pelo apagão desta semana. Mais uma vez, o velho aparelho de rádio a pilha manteve muitos informados sobre a extensão do problema e o tamanho dos prejuízos. Minha preocupação com o interior é potencializada conhecendo o número significativo de pessoas interessadas em questões simples, como os buracos da rua, a falta de água no bairro e os assaltos que acontecem na farmácia da esquina.

Caráter regulatório é o obstáculo

Tantos problemas, muitas vezes, precisam ser administrados por radialistas extremamente amadores e sem nenhum preparo intelectual e emocional para esse trabalho. O problema mais comum é a velha mistura de informação com opinião. Esses sentimentos, na maioria das vezes explosivos, podem facilmente transformar um radialista em herói de sua pequena cidade. Infelizmente, essas situações dificilmente conseguem ser administradas com suficiente sobriedade e apenas servem para confundir as funções do jornalismo, deixando de lado o coletivo em detrimento de um privado absolutamente desnecessário e fora de contexto.

As pessoas com um microfone na mão e sem nenhum texto diante dos olhos não costumam pensar que suas opiniões pessoais são tão relevantes quanto as de um mico-leão-dourado. Não costuma passar pela cabeça dessas pessoas que a principal função de um comunicador deve ser ouvir e saber organizar as diferentes visões a respeito de um mesmo tema. Isso tudo com a intenção de expor o problema de uma maneira suficientemente clara, valorizando os aspectos fundamentais e deixando as rebarbas para serem aparadas fora do ar.

Quando falo de um preparo intelectual mínimo estou garantindo a livre possibilidade de alternativas diferenciadas para esse aperfeiçoamento. Ou seja, os conceitos de ‘preparo’ ou mesmo ‘especialização’ não têm aqui um caráter regulatório. A especificidade, reclamada por alguns setores protecionistas, não é sinônimo de especialização. Muito pelo contrário, é seu antagonismo. Diferente do que pretendem os sindicalistas profissionais – e esses precisam, por sua vez, serem separados dos profissionais do setor –, o caráter regulatório é o principal empecilho para veículos de comunicação heterogêneos. Isso acaba limitando a função social dos veículos na sua essência.

Competição e desgaste

Qualquer medida regulatória é inconstitucional e, mais que isso, atinge diretamente a espontaneidade de crescimento intelectual de cada profissional. Essa qualidade individual deveria ser condição necessária para se habilitar a uma vaga no setor. A sensibilidade para buscar esse tipo de gente deve ser da administração dos veículos. Colegas de todas as áreas, principalmente da radiodifusão, não devem estar preocupados em buscar melhorar seu preparo profissional por medo de perderem seus empregos. No sentido contrário, também não devem pensar que uma informação adquirida a toque de caixa pode substituir uma intenção honesta e natural de buscar conhecimento permanentemente para poder entrar no mercado de trabalho das emissoras. Informações específicas são bem-vindas em profissões técnicas e devem passar longe de trabalhos intelectuais.

Não vejo alternativa para as rádios do interior fora do âmbito administrativo. O concessionário precisa se dedicar a esse problema e envolver todos os setores. O processo passa, inclusive, pela distinção clara entre o que é comercial e jornalismo. Esses departamentos são fundidos, na maioria das pequenas emissoras. Os locutores vendem, produzem e apresentam seus programas sem nenhum compromisso com aquilo que é levado ao ar. A competição e o desgaste desse processo são inenarráveis. Só quem passou pelo setor para ter dimensão da quantidade de problemas e atritos diretos entre colegas.

Falta de profissionais, falta de preparo, falta de aparato logístico de apoio. Não estou aqui para solucionar isso. Todas as minhas observações são projetadas na tentativa de chamar a atenção para um problema constatado por qualquer ouvinte no dial.

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Estudante de Filosofia na Universidade Federal de Pelotas, radialista e jornalista, Pelotas, RS

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