Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > REFERENDO É COISA SÉRIA

Muito além do ‘sim’ e do ‘não’

Por Alberto Dines em 11/10/2005 na edição 350

O debate a respeito da cobertura do referendo está ficando tão quente quanto a discussão sobre o desarmamento. Este é um dado novo que não pode ser menosprezado. O problema da violência precisará de outros referendos, qualquer que seja a opção vitoriosa em 23 de outubro. Mas o desenvolvimento de um espírito crítico no tocante à imprensa a partir desta consulta popular poderá estimular a sociedade brasileira a assumir uma posição mais participativa e mais afirmativa. Inclusive no campo político.


A desastrada e desastrosa capa da edição de Veja da semana passada (‘7 razões para votar NÃO’, nº 1925, 5/10/2005, págs.78-86) transcende às suas opiniões sobre venda de armas defendidas de forma tão equívoca. Seu mérito, involuntário, foi suscitar um debate nacional sobre jornalismo. Provocou os leitores – seus e de outros – de maneira jamais vista.


Aquele jornalismo arrogante e onipotente acionou um movimento em sentido contrário. Um empenho em reparar e fazer justiça trouxe para o ‘Canal do Leitor‘ deste Observatório um número recorde de manifestações. Nos quase 10 anos de existência deste fórum nunca tanta gente opinou sobre um mesmo tema, numa mesma edição. Com palavras, estilos e posturas diferentes, 35 leitores disseram a mesma coisa: não há mais lugar para este tipo de arrogância em letra de forma. Outros 52 apoiaram a atitude da revista e 46 não a comentaram. Se Veja com seu milhão de exemplares e três milhões de leitores recebeu 2.306 mensagens sobre a questão do desarmamento, as 133 mensagens aqui recebidas (de um total de 226 publicadas até às 12h52 de 11/10) têm peso relativo muito maior.


Obrigação moral


Mas não foram apenas os leitores, embora eles é que contem. Uma inédita e trepidante retaliação dos concorrentes diretos confrontou as ‘7 razões para votar NÃO’ de Veja. Neste último fim de semana, IstoÉ reencontrou a antiga criatividade e respondeu: ‘7 razões para votar SIM’ e ‘7 razões para votar NÃO’. Época não ficou atrás e desfechou: ”10 mitos sobre as armas (contra e a favor)’.


O importante nesta resposta está no fato de que os dois semanários não tiveram outra saída senão apelar e revalidar a noção da eqüidistância. Reencontraram-se com a busca da objetividade. Por oposição ao poderoso concorrente recorreram ao velho e esquecido princípio do equilíbrio que nestes tempos de iras – sagradas ou não – jaz quase esquecido.


Mas quem se saiu melhor não foi nenhum dos semanários – foi um jornal, a Folha de S.Paulo: assumiu-se a favor do ‘sim’ no lugar e com a entonação apropriada: um editorial dominical, solene e reservado. Como fazem todos os grandes veículos do mundo antes de alguma eleição, não pretendeu confundir opinião com informação.


Curiosamente, a Folha não o fez nas eleições presidenciais. Não sentiu necessidade de fazer escolhas. Agora, talvez premida por este debate salutar e espontâneo sobre a precedência da razão na função de informar, a Folha sentiu-se na obrigação moral de fazer uma opção. É edificante perceber que neste pantanal de imoralidades, leitores, jornais e jornalistas busquem saídas decentes, coerentes e idealistas.


Subjetividades eloqüentes


Mas quem se saiu pior foi Sua Excelência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em artigo publicado no domingo (9/10) na mesma Folha (pág. A 3) [leia aqui], o presidente anunciou sua opção pessoal pelo ‘sim’. Poderia optar pelo ‘não’, não importa – lamentável foi a forma de anunciar a escolha.


Lula não é pessoa física, é presidente da República. No pé do artigo, lá está a sua qualificação e o seu e-mail funcional. Nestas condições, ao manifestar-se num debate desta importância, o chefe da Nação deve dirigir-se à Nação – não pode privilegiar um veículo. Deve falar para todos, indistintamente. Democraticamente.


Os assessores do presidente estão afobados demais para reparar nessas pequenas subjetividades, mas esta escolha – aparentemente humanista – foi proferida de forma tão arbitrária e totalitária que perde parte substancial de seus valores intrínsecos.


Referendo é coisa séria e este referendo em especial está sendo tratado pela cidadania como coisa séria. Convém que governantes, políticos e jornalistas não percam isso de vista.

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/10/2005 Peter Wilm Rosenfeld

    Não agüento mais as matérias de Alberto Dines, com as críticas que faz à reportagem de Veja. Está sendo tão parcial, tão sem isenção, quanto costuma dizer que foi a revista. Os orgão de comunicação têm todo o direito de externar sua opinião; Veja não está fazendo mais (nem menos) do que fazem a TV Globo e tantas outras. Como sou totalmente adepto do NÃO, por não aceitar que meus direitos sejam cerceados, não mais lerei os artigos do Sr. Dines sobre o assunto.
    Peter W. Rosenfeld

  2. Comentou em 11/10/2005 Fábio Carvalho

    É uma pena que Alberto Dines seja só um. Dois Albertos Dines, com a mesma concisão, incomodariam muito mais. Quero comentar aqui a manchete da Folha de São Paulo de segunda-feira, dia 10, ‘Jovem é 50% dos presos com armas’. Esse é um convite brutal à reflexão, pauta que merece ser repercutida.

    A violência atinge a todos, que podemos topar com nosso assassino na próxima esquina, ninguém está imuine. É verdadeira a insegurança e, mais real ainda, nossa sensação de insegurança. Isso não vai mudar, vença o ‘sim’ ou o ‘não’ no dia 23 de outubro, pois há muitas causas de violência para serem combatidas.

    Mas a racionalidade nos obriga a reconhecer que a violência que mata a tiros tem vítimas com perfil bem delineado. Essa tendência foi diagnosticada muito antes de estatísticas serem providenciadas para endossar o ‘sim’. A vítima de homicídio, em geral, é do sexo masculino e tem entre 15 e 24 anos (acrescento, sem base cientítica: é quase sempre preto e pobre).

    Curiosamente, há coincidência entre o grupo social que mais morre com aqueles presos com armas. Isso pode se revelar um poderoso argumento do ‘sim’ e, se honestidade houvesse, um grande desafio ao jornalismo faccioso da revista Veja.

    Quem está armado tem mais risco de morrer, embora o direito de ter uma arma desperte, não só em homens jovens, a sensação de estar protegido num Estado omisso. Saliento ainda que em algumas regiões muito violentas, como as favelas cariocas, já se registra lapso demográfico nesse recorte social (faltam homens jovens!).

    O registro de lapso demográfico é indicador gravíssimo, costuma acontecer em áreas de guerra ou decorre de epidemias. Sem metáforas, o Brasil não está em guerra, nem tem uma epidemia fatal fora de controle.

  3. Comentou em 11/10/2005 Alysson Oliveira

    Referendo Eleitoral Gratuito

    O Referendo apareceu como um exemplo claro de democracia participativa. Despertou na sociedade a possibilidade de decidir as principais questões sobre o futuro do país.

    Mas, o que era pra ser um programa ‘único’ de esclarecimento sobre como se aplicaría a lei, depois de terminado o Referendo, virou disputa política entre as turmas do sim e do não. Com direito a discurso teatral, participação de atores, apresentadores, imagens da desigualdade social, ou seja, igualzinho ao programa eleitoral gratuito, comprovadamente desprezado pela grande maioria da população. Só faltaram os congressistas, que no momento andam ‘trabalhando’ muito.

    Sendo assim vou justificar meu voto de protesto, pois quero estar sempre longe dos domicílios eleitorais contaminados. O programa sobre o Referendo está influenciando na liberdade de decisão das pessoas. Esta sim é uma arma perigosa.

  4. Comentou em 11/10/2005 Ramón A. Portal

    O Sr. Alberto Dimes insiste quixotescamente, referindo-se à VEJA, que:

    ‘ Aquele jornalismo arrogante e onipotente acionou um movimento em sentido contrário ‘

    Como assim, ‘ em sentido contrário’, se mesmo aqui no OI, a MAIORIA ESMAGADORA de comentários de leitores, foi notoriamente À FAVOR do artigo de VEJA, e extremamente crítica ao comportamento hipócrita desse senhor ao criticar a parcialidade dos outros, quando a própria é evidente, ainda que velada?…

  5. Comentou em 11/10/2005 Glauce Pinto

    Gostaria de expressar a descordância em relação ao que o ilustre jornalista vem escrevendo, desde a semana passada, sobre o semanário VEJA e seu posicionamento em relação ao referendo. À princípio, me parece que o jornalista possui alguma mágoa com a revista em si ou alguém que esteja diretamente ligado à ela, talvez, apenas isto justificaria tamanha ‘implicância’.
    Acredito que, embora seja uma questão de ética (No que diz respeito a imprensa quando sobre temas como este.) a imparcialidade, a revista foi transparente/honesta com o leitor em expressar o seu posicionamento de maneira direta.
    Talvez, de fato, tenham exagerado em uma informação ou outra, mas, ao menos, não fizeram o joguinho sujo da ‘turma do SIM’, utilizando-se do sensacionalismo sentimental, manipulação de pesquisas e uso de celebridades (para influenciar os aculturados)…ainda, os que pretendem votar no NÃO, expuseram de maneira EXPLÍCITA seu voto, não como o ilustre jornalista (Pelo que me parece, com seus textos…vai votar no ‘SIM’)…claro, salvo o Sr. Presidente da República, reafirmando o seu despreparo enquanto líder de uma nação, o PT e o ministro da Justiça, que cometeram o erro de falar o seu voto…logo os que deveriam, no mínimo, mostrar-se imparciais.
    Se o ilustre jornalista acredita que 133 mensagens para uma coluna publicana na WEB (Ou seja, todo o MUNDO tem acesso…até quem não possui R$7,30 para adquirir o semanário! Onde a maioria, como eu, a apoiaram.) , é mais significativo que 2.306 ( De 3 milhões de leitores estimados…onde 59% apoiaram a revista…), afirmo que o conhecimento, tanto sobre A REALIDADE do país, quanto a de ESTATÍSTICAS, do ilustre jornalista, está um pouco insosso.

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