Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Nem elogio de rival convence investidores

26/04/2007 na edição 430

Em tempos de crise na indústria jornalística, leitores do Wall Street Journal se depararam nesta segunda-feira [23/4/07] com um artigo no mínimo inusitado. Nele, Donald E. Graham, chairman e CEO do grupo Washington Post Co., tece elogios à ‘old gray lady’, apelido do New York Times entre os nova-iorquinos.


Na terça-feira (24/4), aconteceu o encontro anual de acionistas do The New York Times Co. e, diante da queda do valor das ações do grupo, alguns investidores estavam sendo pressionados pelo banco de investimentos Morgan Stanley a se abster de votar nos diretores indicados pela empresa, em protesto ao controle do grupo pela família Sulzberger. No fim, nem o artigo do presidente do jornal rival ajudou: 42% dos investidores do grupo abstiveram-se de votar nos diretores indicados pelos Sulzberger. Isto representa 52,5 milhões das 124,2 milhões de ações do grupo.


No ano passado, segundo porta-voz do New York Times, 28% dos investidores haviam optado por não votar nos diretores indicados pelo grupo. ‘O número de pessoas que se abstiveram este ano é significativamente maior que o ano passado e é um pedido enfático por mudanças’, afirmou a Morgan Stanley em declaração.


Os números não são favoráveis ao jornal. As ações do New York Times caíram 48% em três anos. O lucro online ficou 3% mais baixo em 2004 e 13% em 2005. Em 2006, a empresa registrou prejuízo de US$ 543 milhões. No primeiro trimestre deste ano, os lucros estavam 32% menores que no ano anterior. Em abril do ano passado, Hassan Elmasry, diretor da Morgan Stanley, reclamou publicamente ao NYTimes, enviando uma carta ao conselho com críticas à estrutura de ações. A Morgan Stanley detém 7,1% das ações do grupo.


Tentativa frustrada


Para Graham, o preocupante não são as críticas sobre o mau desempenho lucrativo do jornalão, mas a suposta solução para o problema: abolir a estrutura atual de duas séries de ações (two-tiers) do grupo – a classe B, com direito a voto e de posse da família Ochs-Sulzberger, e a classe A, dos investidores de fora. Isto permite que a família eleja 70% da diretoria (ou seja, 9 dos 13 diretores), o que lhe dá controle efetivo da companhia. ‘O The Washington Post Co., do qual eu sou CEO, tem uma estrutura semelhante; assim como a Dow Jones & Co., publisher do WSJ, e outras empresas também, como o Google (o que mostra que esta estrutura não leva necessariamente a uma má performance)’, alega.


O Washington Post Co. e o New York Times Co. são algumas das poucas companhias midiáticas ainda dirigidas por famílias. Graham é filho de Katherine, que foi presidente do Washington Post Co. por três décadas. A família Sulzberger tem o controle do New York Times por mais de 110 anos. O bisavô do hoje presidente Arthur Sulzberger Jr., Arthur Ochs, comprou o diário em 1896.


Contra a campanha


Graham colocou-se publicamente contra a campanha da Morgan Stanley. ‘Apoiar a campanha para eliminar esta estrutura é arriscar o futuro do ativo mais importante do grupo, o NYTimes‘, defende. Se isto acontecer, surgirão muitos compradores interessados no jornal – incluindo investidores bilionários, empresas de mídia internacionais e companhias de investimento, entre outros.


Destes, talvez alguém de princípios, que queira o melhor para o NYTimes e para o Boston Globe, ofereça a melhor oferta. Mas, alerta Graham, o valor mais alto também pode ser oferecido por alguém que não esteja disposto a investir mais de US$ 200 milhões na redação do NYTimes e que queira, por exemplo, eliminar parte de seus correspondentes internacionais para economizar. ‘Nenhum jornal se livrou dos desafios econômicos dos últimos tempos. Ainda assim, eu diria que, nos últimos anos, o NYTimes publicou o diário mais rentável dos EUA. E entrando na era da internet, qual jornal tem um sítio tão bom quanto o NYTimes?’, questiona o dono do Post, completando que só pode pensar em um – provavelmente, o seu.


A atual estrutura de ações do New York Times Co. foi estabelecida quando a empresa decidiu abrir o capital e segue as normas da Bolsa de Valores de Nova York. ‘A Morgan Stanley sabia desta estrutura ao investir no grupo. Qualquer um que se importa um pouco com o NYTimes deve votar contra as recomendações dela’, recomenda Graham, em um desabafo incomum na tentativa de ajudar o jornalão.


Sulzberger informou que sua família está ‘firme e comprometida’ em manter as duas séries de ações. ‘Qualquer um que tenha comprado ações do grupo fez isso com total conhecimento sobre como a nossa empresa era estruturada’, argumentou. ‘Ser o chairman e o publisher me permite equilibrar as necessidades financeiras e jornalísticas desta instituição’. Ele ainda defendeu os gastos do grupo, que foram criticados por Elmasry. Com informações de Leon Lazaroff [Bloomberg, 24/4/07].

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